Monday, August 21, 2017

o caçador de borboletas

Resultado de imagem para dirceu borboleta o bem amado
uma singela homenagem ao ator gigante( emiliano queiroz) que preenche
até hoje nossa memória com seu dirceu no bem amado.


houve um tempo, em que para não perder, até pensei em inopinadamente sempre anotar. não sei se por vaidade ou se por temor de não mais lembrar, pois, convenhamos, é grande a pressão sobre os mais velhos, sempre lembrados de que não tem mais a mesma memória - chego a pensar que muita gente teme, em demasia, as memórias dos mais velhos, gente de rabo preso ou boca cheia do que não presta, ou porque fomos testemunhas involuntárias das suas masturbações fora de hora. masturbação tem mesmo hora? sei lá, isso também quase esqueci. mas temais! infiéis, que disso lembro de vez em quando, e de outras coisas mais.

frases de efeito à parte, refiro-me as anotações de ideias, coisas simples, uma frase bem humorada, chiste na maioria das vezes, pequenos poemas em prosa, hai-kais, as vezes letras de canções inteiras, quando não contos curtos, que nem deu tempo de correr para se esconderem debaixo da mesa, ou alçarem outros voos, isto quando não estou na escrivaninha, móvel hoje que nem nos antiquários se acha com facilidade.

tinha de ser rápido, vinha o fio, o flow, ou o fluxo, e em muito pouco tempo, segundos, algumas vezes, lá se iam o que veio borboleteando meu pensamento. inúmeras foram as vezes, que noutros afazeres menores - mais nunca menos importantes, tudo a fazer é importante - ou mesmo por preguiça de interromper à sesta, ou a olhadela na calçada, ou porque estava a tirar carrapatos nos meus cães, ou em meio ao xixi, que não o fiz de pronto. e, pronto, já havia esquecido. ficava apenas a mancha de que alguma coisa havia estado no meu pensamento, e que, sim, teria valido a pena anotá-la.

chegou a um ponto em que vi-me quase em dilema obsessivo: tornar-me-ia um anotador compulsivo, não deixando passar nada em branco, ou relaxar, e anotar o que desse, ou o que mais perto achasse que valeria a pena. foi um zig-zag nestes tempos, um corre dali, um para daqui. um lembra acolá, um já me esqueci do agora. e assim por diante. puxa! anotar tudo em todos os lapsos a serem preenchidos é mesmo tarefa que exige muito espinafre. e eu nem sou o popeye nem nada.

mas tudo agora passou. graças! não ao espinafre. mas a doses profiláticas de gin, sim. não que eu tenha perdido a memória ou que as "borboletas" não me venham a mente. tem vindo cada vez mais, as vezes em enxames. mas isso não mais me perturba ou altera o ritmo da minha disponibilidade.

afinal, descobri que, tão ou mais importante do que anotar, o que muitas vezes nem será o poema, o conto, a canção, que gostaria de escrever, é deixá-las voar, soltas, esquecidas pelo que há de se esquecer em mim ou de mim para pousarem noutras mentes, noutras cabeças, em espaços, mesas, escrivaninhas, colos ou montes, bem mais férteis do que nos meus apontamentos.

vê-las voando, hoje, e quiçá amanhã, raiar do dia, fim de tarde ou já agora vagalume em meio a noite, dar-me-à muito mais prazer do que prensadas nos meus quase inconclusos folhetins de memórias, ora perdidas ora achadas, de asas quebradas pelo susto.

p.s. e quanto ao resto, esqueci. ah! mas como isso é bom. sequer fazia ideia. só de lembrar o que se esqueceu nós faz sofrer ainda mais. e o sofrimento não voa para longe, enquanto se mantém agarrado a nossa memória, ou preso, como borboleta amassada, em algumas página dos nossos escritos ou melhor, da nossa escrita de vida, quiçá para além do esboço.

Thursday, August 17, 2017

dispensando jesus

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alguém achou do caneco a chiste iconoclasta ou blasfêmia de ocasião da foto.

rede social é assim, ainda mais no face. prontamente comentário pentecostal:  - jesus não te larga, seja onde e quem você for, não importa aonde, ele está sempre juntinho.

eu, que sou do tipo que pra isso nem te ligo, recomento, incomodado com tal presença grude: -  me desculpe jesus, mas eu necessito de um pouco mais de privacidade. dá pra sair do banheiro, now!

Saturday, August 12, 2017

e a cigana não leu a minha mão

olhos postos na minha mão, entre os dedos anzóis, persigo linha que chamam da vida; mas que descarrila, de um jeito ou de outro, para a morte que é a estação de todas as linhas. 

se fim de trecho ou última estação, não precisei da cigana para ter a premonição, sendo cigano de mim mesmo. de uma ponta a outra, indo ou voltando, subindo ou descendo, eu jamais ficaria no meio. a mediocridade é um atalho que jamais cogitei. então, píncaro ou abismo, faço-me donatário das minhas linhas de festim. e isto sempre feito com a corda toda. e não são as cordas, ao fim e ao cabo, feitas de sucessivas linhas? corda que enforca, corda que salva, corda que segura, corda que solta. corda que acorda o acorde. e como tal o farei, assim se nada me restar, canção de entoar restolho serei?


 

Tuesday, August 08, 2017

minha mãe faz umas pamonhas gostosas



escritor tem ideia de conto sobre velhice. conto que conta, não sua, mas velhice da velhice, porque algures alguém perguntou: - o que é mesmo a velhice ?

pôs-se o escritor a escrever, por horas, dias e anos a fio, mesma frase: - minha mãe faz umas pamonhas gostosas.

escreveu, por décadas, até não mais poder, a mesma frase, no que muitos anteciparam demência, decadência, e toda sorte de adjetivos contíguos à velhice, ainda assim sem explicação plausível e não menos contundente para a as sobras da vida.

apenas alguns mui poucos leitores perceberam, entre as milhares de repetida frase - minha mãe faz umas pamonhas gostosas, uma que já não dizia o mesmo  - minha mãe já não faz umas pamonhas gostosas. 

intermezzo? descanso? descaso? cansaço? ato falho? enjoo? dor de barriga? velhice?

fosse como fosse, ali, e não aqui, explicação, que dentre poucos, muitos entenderam como morte da mãe do escritor, e não o que a velhice azedou.

rindo, desdenhava da inteligência dos leitores, o escritor, comedor de pamonhas compulsivo mais que toda sua escrita - e dos críticos que detestaram a pamonha. o que considerou ofensa. não pela obra, ou pelas sobras, mas pelo fato de que sua mãe fazia umas pamonhas gostosas.

finalmente quando perguntado, sobre onde diabos estava a ideia da explicação? das pamonhas lambidas aos beiços até a palha, do que seria lúcida explicação à velhice, respondeu enfático: a velhice é uma pamonha.

gostem vocês ou não.

Wednesday, August 02, 2017

desce dai humano



das coisas que mais gosto nos meus gatos, uma, é é vê-los fazendo cocô. 

não! caro leitor, não há aqui nenhum desatino que preze a escatologia. 
mas apenas se lhos comparo aos humanos, ora, ora, que não suportam comparações que não lhes são favoráveis. senão vejamos:

dos gatos, que elegância! que finesse! antes de tudo, e, of course, que higiene. 
da suite a sinfonia, o achado da bandeja, e o ciscar dos grãos de areia. 
sua postura é quase yoga(yôga é o meu cacete!). orelhas em riste, suas contrações, que espalham-se pelo corpo, que se meneia, recorda-me campos de trigo baloiçando aos ventos se assim fosse. 
questão de segundos, matéria expelida, e o cavocar em azáfama termina em pirâmides sem faraós.
não dá para imaginar, por mais superior que se ache a madame ou o janota que não a completa, cena com tal croqui, pois o ato humano é de tal modo carregado de disformes julgamentos, que quanto mais tenta disfarçar, num jogo de esconde-esconde do piorio, e não haveria necessidade, se fosse natural com os demais animais, que o torna enxová-lho de si próprio.

e eis aqui a questão: os seres humanos gostam muito de jactar-se de serem o topo da cadeia da evolução. mas como? se até fazendo merda, os gatos nos são superiores?


p.s. não me atice com a lembrança do odor do "cocô de gato". por ventura, o seu, ou os da nossa espécie, tem alguma fragrância que nos remeta a chanel 5?