Monday, April 28, 2008

o livro dos insultos


de rui castro sobre seletas de h.l.mencken, caricaturado na capa acima. nele, entre outras pérolas, lê-se que poucos bichos são tão estúpidos ou covardes quanto o homem. quem sou eu para duvidar se os comentários postados não o desmentem ?

se descubro-me estúpido, não fico nada feliz. mas se me descobrisse covarde certamente não ficaria nada alegre. em compensação escapo de ser o "reductio ad absurdum da natureza animada", que é, ser estúpido e covarde ao mesmo tempo.

então, ao menos um coisa de cada vez. se não for possível ser cada vez menos coisa e mais homem(se nem todo homem é covarde, todo covarde é homem?) e nunca a coisa toda ao mesmo tempo, principalmente ambígua.

e quem quiser que confie pra começar - como diz mencken - em deus, aquele que sempre nos tapeou no passado.

de antemão, antes que a estupidez e a covardia abatam-se sobre os de sempre, valho-me de mencken para subvertê-los: um relincho vale mais do que dez mil silogismos.

o certo é que comentários não incomodam - a maior covardia seria a sua censura - mas a covardia do anonimato presente no elogio ou no ataque acabam por transformar a estupidez assinada em peça digna de respeito.

Sunday, April 27, 2008

da mais completa falta de juízo

um imbróglio qualquer e recomendam-me: - procure um advogado de sua confiança.
desde quando há advogados confiáveis?
alguém já viu advogados no inferno? pois. o diabo é uma besta mas não é besta.

Saturday, April 19, 2008

ao reverso

um só homem bom e só
um só homem só e bom
um bom homem só e sal
um só homem sal e só
um só homem bom e doce
um só doce sem amargo
sem embargo um homem
só é bom
um só sal e doce
um homem só um
inteiro
entre tantos meio
homens
quase nada de sí
só apenas sós
sem bom, sem sal, sem doce
já nem são homens bons ou maus
só sal, amargo, azedo, só apenas
multidão de homens sem sal
sem sol, sem sombra,
sem, sem, sem, sem
as dezenas de centenas
sem centelhas
aos milhares de reversos
sem versos
sem pegadas
sem estepes por alcançar
sem contudo saber que o tudo deles é sempre sem sempre e já agora para sempre cada vez mais distantes do
homem bom e só
doce e sal
que soa azinhavre em meio a tal multidão

Wednesday, April 16, 2008

isabella: crônica de uma morte anunciada


sempre a defendi, mas agora tenho de concordar: a televisão realmente faz mal às crianças. mal que de quanto mais abominável mais se faz interminável numa série sem vida sobre isabela. nenhum ser a tal ponto destratado imaginaria tamanha desconstrução na decomposição de uma vida infantil em nome de uma solução que somente uma sociedade doente a tal ponto por clímaxes de audiência vicia-se no insaciável aumento de volume em vez de desligar todos os aparelhos responsáveis por isso, inclusive o policial e jurídico, que se integram ao espetáculo de forma nada neutra.

a ânsia mórbida de descobrir os culpados não faz de nenhum de nós inocente. e já a partir do segundo dia nos enfeixa na lista dos suspeitos que alimentam o caldo putrefálico onde as nuances mostram-nos exatamente como somos: sedentos de corpos de delito e nem um pouquinho verdadeiramente comprometidos com a essência do absurdo que acontece diante da barbárie de um provável arremesso de uma criança de seis anos de uma janela de apartamento exatamente como todos os dias faz a maioria dos moradores com a garrafa pet, o amasso do maço de cigarros, o papel do bombom descartado ou cascabulhos qualquer que no fundo do ato não deixa de ser uma espécie de treinamento para a falta de comprometimento com os bons valores que se existentes jamais alimentariam um espetáculo igual a este, quer como atores, quer como telespectadores.

Tuesday, April 15, 2008

reforma ortográfica


caráter,honra,valores,coragem,princípios,ética,responsabilidade,vergonha,honestidade,
verdade. alguém meteu a mão na ortografia e reformou o texto original. o que está escrito não está batendo com o que se fala. o que se fala não está batendo com o que está se fazendo. o que está se fazendo não está batendo com o que se está pensando. e o que está se pensando é uma trombada ortográfica a tal ponto que deixa estas páginas enrugadas por gente de cara de pau pra lá de alisada pelos verbetes ausentes.

Friday, April 11, 2008

ponto de vista


como lhe parece o mundo visto assim de cabeça pra baixo?
como lhe parece o mundo visto assim de cabeça?
como lhe parece o mundo visto assim ?
como lhe parece o mundo visto ?
como lhe parece o mundo ?
como lhe parece o ?
como lhe parece ?
como lhe ?
como ?

Thursday, April 10, 2008

queda para o baixio

fechem as janelas da tv para que mais meninas iguais a isabella não caiam no fundo do poço que se tornou o jornalismo brasileiro na sua ânsia equivocada e amoral de alta definição de uma espécide de voracidade jornalística que reproduz o sangue dos fatos em cardápio cabidela.
fazer da tragédia drama barato como se isso fosse novela, chega a ser tão hediondo quanto o acontecido em sí.
as suposições retransmitidas em caráter de repetência dramatizada à exaustão não revelam ânsia pela verdade tampouco indignação pelo fato. apenas exploração do vácuo moral e ético que se abateu sobre todos nós do alto daquela janela.

Monday, April 07, 2008

fora do calendário


era uma segunda-feira com cara de domingo que queria ter nascido sábado completamente apaixonado pelo dia de amanhã como se ele não tivesse morrido ontem.

Saturday, April 05, 2008

passa a régua


numa tarde de sábado modorrenta, bandos das gentes vazia lotam bares de homens pombos e mulheres pardais.

embebedando-se de tédio, não se vê nada nas mesas que preencha palavras de espírito.

uma comedoria intensa, uma cagadoria igual. sem canto por fazer os arrotos compoem a sinfonia.

ao canto, na perna esquerda de alguma mesa, conversam gato esquálido, cachorro vencido pelos carrapatos e barata semi-morta.

a vida é curta. muito curta, confirma uma formiga estatelada que ali mesmo, ontezinho a noite, perdera asas num vórtice orllof.

no fundo, no fundo, o ambiente está às moscas. retrato do sábado que nem sequer começou no se acabo do antes do ontem.