Saturday, January 31, 2009

a pior das saudades

sentir saudades, de ter saudades; ou seria de não sentir? ou ainda: sentir saudades de sí mesmo?

ou nem isto?Now playing: squeeze - satisfied via FoxyTunes

Friday, January 30, 2009

it´s rainning again


sempre cai, a chuva, em cima de quem não precisa.

nas horas mais imprecisas, seja homem, seja terra, seja bicho, seja grota, está lá, a molhar os ossos de quem já moles, e a empapar em fúria os sonhos de barro tornados lama, de quem agora só insônia, nunca mais sequer pesadelos.

não é esta, aquela, cuja falta murcha flores, atrofia frutos, e murcha peles e intestinos. esta chuva é o reverso do sol crescente do here come the sun. é água cheia de trombas, cornucópia de males a estoirar a caixa de pandora. de tão fininha molha o que mais se esconde.

não é mais forçoso, nem certo dizer, que a vida vem da água tão-somente. agora, a morte também, em dilúvios particulares, mais desastrosos que os coletivos, num molhar histérico e circunflexo. vem da chuva, a morte que não mais esgana, apenas engasga. e não é de meteoritos, nem tóxica. tampouco corredeira de lágrimas espremidas em lenços ou lençóis de vingança. é água mole mesmo. da natureza cada vez mais morta. derretendo, apodrecendo e liquidamente nos transformando em brutos sinais do fim de quem agora arrepende-se de não ter podido morrer seco.

contra esta chuva não há guarda-sóis.
Now playing: travis - why does it always rain on me viaFoxyTunes

Wednesday, January 28, 2009

com a boca no mundo

o silêncio é a síntese daquilo que não quer calar.
o problema é que faz um estrondo tão grande que na maioria das vezes potencializa a voz dos energúmenos que gostaríamos de ver calados.

Now playing: The Answer - No Questions Asked via FoxyTunes

Tuesday, January 27, 2009

da falta de visão ampliada


a presbiopia veio, como é de se esperar, por volta dos quarenta e poucos, o que é sempre muito pouco quando se vive de olhos abertos para o que vier.

a falta de visão para longe, mais tarde, dez anos depois, mais ou menos, a memória talvez já acompanhando a falta de visão.

acostumado, por formação - ou deformação - profissional a focar nos detalhes, e neles buscar, para o bem e o mal, a diferença, sem óculos, perde-se, por assim dizer, o distanciamento crítico. é o que acontece agora quando estou sem lentes.

ao mesmo tempo, surge uma nova maneira de ver as coisas - na verdade de não ver - o universo turvo, ao contrário do que poderia se pensar, é mais bonito, as mulheres, por exemplo, principalmente. sem lentes, inclusive as do amor, todas são belas. não há imperfeição. vê-se, ou melhor é tudo uma programada ilusão de óptica. a loura fatal, onde de loura apenas a tintura que lhe corrói o tônus, a depender dos nossos reflexos ressurge teen.

na verdade, descobri este novo dom da visão por esquecimento dos óculos. como sem eles apenas perco os detalhes, mas continuo tendo a visão do todo, arrisquei dirigir sem eles. e aí não deu outra: um mundo novo abriu-se para mim.

mulheres feias passaram a se sentir atraentes; homens carrancudos, não mais que de soslaio tornaram-se simpáticos, grupos grotescos tornam-se pitorescos e assim por diante. e de certa maneira, torno-me um mensageiro da felicidade, pois assim cego, nada me espanta e a tudo reajo com a naturalidade da suspensão do susto pela ausência da percepção da forma esvaziada nos seus contornos mais devidamente preenchida pelas expectativas de outras ânsias.

quem assim olhado, passada a sensação da impossibilidade internalizada do primeiro instante de recusa pelos olhos de quem sempre enxerga o mesmo, guarda lembrança para o resto dos dias destes. e, como dizem os especialistas em serem convocados para redundar nos tele-jornais , a autoestima aumenta e o bem estar se espalha, deixando todo mundo mais feliz neste desfoque acertado.

e como a felicidade é um tipo de crack de efeitos e duração ainda mais devastadora , não é de surpreender que isto vicie. dá mesmo vontade se sair sem óculos a todo instante, para ver a vida mais feliz. um vício dentro de outro chamado vida, do qual também é muito difícil largar por vontade própria, de maneira que vamos procurando enxergar o que nos mantém vivos mesmo por desfoque os mais ou menos que vislumbramos enxergar.

e assim, apesar de todos os desenganos, que os acertos ou enganos da nossa visão boa ou má sempre acabam por nos trazer ou para aqueles para os quais depositamos nosso olhar mais profundo ou equivocado, esta falta de visão ampliada nos conduz a amores cegos, cujo melhor é que não tateiam no escuro como fazem aqueles despertados pelo melhor da nossa visão.

no fundo, no fundo da retina, olhamos e sabemos que não está lá. nem sequer nos nossos olhos. é algo muito antes dela, também da formação da lágrima, e até do brilho que se recusa a nos espelhar como realmente somos em nossa mais completa escuridão.

Now playing: The Fevers - Seu Olhar (Temptation Eyes) via FoxyTunes

Saturday, January 17, 2009

quase lucáksiano


mesmo na mentira há que se ter uma certa verdade. qualquer que seja o ato, sem convicção, torna-se ainda mais falso do que o é sendo verdadeiro.

Now playing: crosby, stills & nash - Deja Vu via FoxyTunes

Sunday, January 11, 2009

o fim do trema

bom, não é o fim do mundo;ainda.

mas num país em que mais da metade da população, com otimismo, é analfabeta funcional, o que não justifica a academia medíocre que tem, o fim do trema, abolido há tempos pela funcionalidade dos não eruditos, não amolece, nem endurece, a linguiça.

ou seja: permanecemos sem saber, e sem opinar, de que é feita a mesma - não a "linguiça", eram salsichas na verdade, que como advertia balzac, esta e leis, melhor não saber como são feitas - mas a reforma, cujo princípio da salsicha que se aplica a feitura da mesma, cujos resultados práticos colocam ainda mais biquinhos, onde não devia haver, entre portugueses, principalmente, com certa razão, enquanto por cá, os biquinhos certos tornam-se outros ainda mais deformados.

p.s. ainda sobre a reforma. k,w,y, tornam-se por decreto oficialmente letras do alfabeto. ora pois, pois: qualquer menino de periferia tem a letra incrustada em seus registros - em portugal é registo, isso sim merecia reforma, mas qual? - de nascimento, através de construção eufônica e sintática de doer os ouvidos, e o senso de ridículo, mas pragmática aos olhos de quem de nascimento estratificado sem nome de brasão apela para o inusitado como pedra base ao reconhecimento da diferenciação entre os aprisionados pela não reforma econômica(no português de portugal é económica; sim para os portugueses não falamos português mas sim brasileiro, uma espécie de sub-língua, pior que se dialeto fosse) o que é a glórya. mas isso é quase latim; ou não?

Now playing: Amy Winehouse - You Know I'm No Good via FoxyTunes

Saturday, January 10, 2009

Friday, January 09, 2009

sem soutien

ditado chinês nos fala sobre a perfeição do seio da mulher quando exato na mão de um homem honesto.

na terra brasílis, grassa sem obséquios, a auto-obsessão pelos peitos siliconados das mulheres verde-amarelas. o que não deve causar espécie a ninguém. afinal, aqui é o paraíso dos homens que fazem princípio de vida, tudo levar na mão grande, não importa a quem ou o quê peitos não os tenha.

Now playing: Querosene Jacaré - O boby via FoxyTunes

Wednesday, January 07, 2009

bem bom, mal mau

o bem, para ser bom, deve ser praticado de forma discreta, quase silenciosa, invisível até, se é que se tem a fé para tanto; o mal, para ser mau, da forma mais espalhafatosa possível; grandiloquente na medida da suas maldades, e até amplificado na raiz da sua praia seca, que seca a quem nele mergulha.

mas a turma do bem, deve experimentar, pelo menos uma vez na vida, a pratica espalhafatosa, grandiloquente e amplificada do bem-bom, que é para sentir o gostinho de até onde pode ir a maldade.

já a turma do mal, não precisa experimentar mais nada: porquê, pra chegar onde chegaram, já haviam experimentado o bem-bom que não lhes deixou gosto de voltar ao anonimato do ovo.

Now playing: André Geraissati - flores de fumaça via FoxyTunes