Friday, November 17, 2017

kábum!


dos gatos da síria
e dos cachorros da somália
herdei 
mais que estrondos
sobressaltos

são fatos rasgados a céu aberto
colchas de retalhos
com seus milhares de intestinos fora do seu destino

herdei também memórias esturricadas
de fatos e fotos jamais tiradas ou mostrados
nos tele-jornais e nas agências de notícias
que nos fazem mudar de canal
sem mudar o pensamento

há algo em mim de constante sobressalto
de eriçados pelos
quando me falam em humanos
seres que destroem a tudo e a todos
e não poupam vidas
sequer de crianças, bichos ou livros
pois neles não há espírito que louve a vida
mas tão somente a morte fútil em flashes de violência gratuita e destemperada

e a tudo isto constato
tão longe-perto
entre paredes não caiadas
tombadas ou arrombadas
agora tingidas de sangues
como se nelas houvessem veias rompidas
onde de nada adianta a correria
daqueles que se dizem, até quando? exceção,
e vão recolhendo restos de vida metralhada
ou fuzilada por bala ou míssil, bem maiores do que os corpos das crianças, e dos gatos e cachorros que atingiram
cuja única compreensão é o horror a tudo que move e fala e espia

nos escombros há também gaiolas pulverizadas, onde pássaros que já perderam o encanto de voar
foram exsudatos em explosões de cores monocromáticas
que lhes despedaçaram os bicos
que de há muito já não sabiam mover, que dirá, cantar

há qualquer coisa na guerra que os livros jamais poderão contar
tampouco sentir
quem não viveu a morte de estar lá
no meio de tudo isto
para depois se dizer sobrevivente
com se alguém pudesse sair com vida
disto que chamamos, eufemisticamente, de guerra
genocídio, extermínio ou que palavra seja de teor bombástico
para sempre abafadas naquele átimo de pele rompida as penas do passarinho
pelo vácuo da explosão
contínua da estupidez humana
que produz estragos irrecuperáveis nos seres que um dia julgamos ter algum tipo de alma
e que coloca em debandada insana latidos e miados para distante dos corpos onde se abrigavam

dos gatos da síria
e dos cachorros da somália
herdei mais que os sustos, o terror, o abandono, a fragilidade
a insônia, e a incompreensão
dos livros onde o conhecimento agora desfaz-se em meio ao pó 

herdei as mãos tomadas em inchaços
os tímpanos rompidos
as patas calejadas
e uma secura na garganta
que chamo de impotência
ante a contemplação das minhas pegadas 
que ja foram humanas
hoje sequer animais
desmembradas
numa explosão
de luz atrofiada
que me deixou para sempre
ressabiado
e assombrado
com a minha própria sombra
que me deixou lá atrás
cansada de tanto morrer  

Sunday, November 05, 2017

a palavra que pode viver sem o poeta que não pode viver sem palavras



procurei 
dias sem fins
noites sem sonhos
perpassar
poema
onde coubesse 
a palavra
alabastro

que procura inútil
por si só
escrita e pronunciada,
musicada até,
alabastro
já é palavra poema
destas que que no meio da relva
ou da selva
se basta por si só
ao contrário do poeta
que não se basta
e por isso procura fazer
um poema para a palavra
alabastro
em vez
de aprender com ela
como a si se bastar
sem necessidade
de outras palavras
entre lençóis.



Wednesday, November 01, 2017

um favo de poema




um poema é tanto vespeiro
como abelhas fazendo mel
depende de que lado sopra o vento
e de até quando durar
a debandada dos
seus hormônios
frente as picadas
ou o mel
que dependem de que lado você 
 estava quando o poema começou a soprar.

Sunday, October 29, 2017

das janelas laterais

daubigny´s garden, van gogh



na minha infância
de janelas
e alpendres
quase todos
tínhamos
visões
de
van goghs
nos
quintais
a nos encher a vista.

hoje,
sequer
francis bacon.

                

Wednesday, October 25, 2017

o cover ainda vai lhe tornar a sombra de suas sobras

Resultado de imagem para picasso



atribui-se a picasso o pito: nada pior do que plagiar-se a si próprio.

na vida, o que seria o plágio de si próprio? o cover, talvez, principalmente quando você tenta viver de novo, a todo custo, melhor dizendo a toda cópia, o que já viveu originalmente. nem o clone lhe tenta ser tão fiel como o cover.

há muitos fazendo cover por ai. na vida e na música(mais na vida do que na música. não deixe os ouvidos lhe enganarem, e tampouco acredite no que veem os seus olhos). e o drama do cover é sempre o mesmo: mesmo que supere o original, será sempre o cover. é raro, mas acontece. já fazer coladinho, ou seja, exatamente igual, mas tão igual, que o cover acaba sendo chamado de cópia - e nada mais depreciativo para o ego de um cover do que ser chamado de cópia - o cover de si mesmo é um holograma pálido, apenas isto, que não me escute o erasmo (assim como eu não o escutei nessa). 

sobre o cover entendo que não deve ter como meta a cópia, mas sim algo aproximado, guardando um mínimo toque seu que seja(poucos fizeram isso, mas só na música). e o cover, na versão faça diferente, mas tão diferente, que deixa de ser cover e passa a ser outra coisa, e que por isso mesmo, na maioria das vezes vai levar bordoada porque a grande maioria vai dizer: - ah! mas nem se parece com o original. assim até eu faço(não fazem, pode acreditar).

então eis o dilema: fazer igual, superior ou diferente? estamos falando agora de vida meus caros covers. não dá para fazer igual o que deixa de ser igual no meio do segundo do que quer que seja que você esteja fazendo, porque neste átimo de tempo já foi. se fizer estribilho, também já foi, não é o mesmo, nem na metade dele. o cover do passado é medíocre como só o pior cover poderia ser.

fazer superior é pra poucos. e se seu nível é rasteiro, é um indício de que dificilmente - se você toma o cover como modelo - vai superar-se a si próprio a ponto de não mais ter de se copiar naquilo que já foi feito, porque o que você sente, o tune, já é outro, seja pela idade, seja por qualquer outra circunstância, mesmo que você arme o cenário tal e qual um plágio na sua galeria dos quadros retidos pela memória.

resta o fazer diferente, o que não é fácil, neste mundo que incentiva o cover - não vê que os programas musicais de originais foram substituídos por programas de covers? -  e que chega a valorizar mais a cópia do que o original. até mais dos que eles chamam de bons exemplos ou da versão diferente da partitura na qual eles tentam nos enquadrar, sem direito a voo próprio, só o trinado da cópia doutrinada.

há quem goste de ser cover - é mais fácil andar na cola dos outros, mesmo que seja de você mesmo.

quanto a mim, matei o meu cover de porrada e deixei o corpo estrebuchado lá na quina calçada, onde rasguei a cópia que se atrevia a querer mandar em mim. (e antecipando a presepada, confisquei-lhe dos bolsos os ingressos para os meus próximos shows. para não dar incentivo aos covers que sempre ficam na espreita).


Saturday, October 21, 2017

nem sempre questão de tato



diante
da porta do amor
homens e mulheres
em dúvida
de qual
campainha tocar
entreolham-se
ante
as instalações trocadas.
presenciando 
o impasse
o amor 
lá de dentro
desiderou:
entre sem tocar
é menos
complicado.