Sunday, June 17, 2018

carpe diem*

virada do ano. todo mundo fazendo promessas de tudo um pouco e sabe-se mais o quê, para mudar de vida. dos pequenos aos grandes detalhes, como por exemplo, perder a barriga, a verruga, livrar-se da operação na bexiga ou refestelar-se no prêmio da loteria que é quase certo não virá. 

vida - bem ou mal - vivida, e seus traços, são como varizes. uma vez instaladas, não adianta querelar. seja qual for o laser que se sonhar, elas vencerão e ficarão eternizadas na batata dos seus tiques existenciais para sempre. mesmo que apagadas por recursos dolorosos - são falsas também as promessas que não vai haver dor - e prontamente não se as vejam, elas e você sabe, estão lá. 

quanto a mim, de há muito não faço promessas. concentro-me em não tentar ser uma pessoa nova - ou na mania de fazer tudo velho de novo como se fosse outro sob a disfaçatez de uma falsa mudança, a viver como novo, as mesmas coisas de sempre(mas há quem acredite que vai perder a barriguinha - sem deixar de abarrotar-se de chopps e chouriço - e que o sexo tântrico vai salvar seu casamento ou união de outros interesses).


satisfaço-me com os centavos atirados a fonte do desejo, que carregam o pedido, sem troco, de manter-se exatamente como sou, fiel a mim mesmo, e a minha teimosia taurina. afinal, leva-se uma vida - tantos nem assim - para aperfeiçoar o que quer que seja, inclusive os defeitos, que se aprimorados à excelência, acabam-se tornando virtude, ao contrário das virtudes que não resistem as tentações que derrubam promessas, que esvaem-se na duração do tempo de bolhas de espumantes. 

sonhos, varizes, anos novos, promessas, precisam de tempo de vida, mais do que tudo. e isto, é exatamente o que temos cada vez menos. para que então desperdiçá-lo tentando ser o que já não mais seremos, se sequer somos o que prometemos ontem, antes de todos a nós mesmos?

* publicado aqui mesmo em 8/01/2010

Wednesday, June 13, 2018

o himalaia sou eu - também pode ser você

royal enfield himalayan: o fleugma britânico
da marca das "café racers", agora montadas na india
sob as vestes de um modelo com, e para, o melhor espírito do devagar
e sempre(e economicamente)

well, dizem que já estou numa idade onde quase todos buscam o nirvana. eu,  ficaria satisfeito se atingir o himalaia. e já agora, a himalayan, of course, que me inspirou a escrever sobre a "motoridade", depois de tanto pisar em dunas móveis, e me enterrar em castelos de areia, em tardes praianas. acaba sempre que você coloca-se à altura dos seus obstáculos. portanto: mire baixo, e acabará sempre na merda.


antes das divagações de sempre, deixe-me dizer, se é que não sabe, que a royal enfield, é a marca de motocicletas mais antiga do mundo, em produção contínua – fez seu primeiro modelo em 1901 - e que no século passado mudou-se de armas e bagagens do reino desunido para a índia. de fabricante de armas passou a fazer motos, com um slogan bem apropriado: feitas como armas ou coisa parecida, sem contar que foi a primeira a fazer uma moto à diesel.

de motos, não sou marinheiro de primeira viagem. tive algumas. comecei flertando com a jawa 125 - e não necessariamente nesta ordem -  honda 125, yamaha 180, sahara 350, honda 400 II, cagiva elephant 900, yamaha gts 1.000. todas elas, a sua maneira, habilitam-me a dizer-me um motard, até porque fui mais longe do que me levariam as estradas do meu país. mas as trail, ah! as big- trail, principalmente por conta da cagiva, são mesmo uma paixão. já amei as triunph, e já olhei pela cerca do jardim as bmw 1200 gts. o tempo passou, a resistência física não suporta, antecipo, quase 300 quilos das meninas fogosas, isso à seco. então, para não ficar no papai e mamãe, resolvi desistir de sair montado por ai nos meus cavalos e mulheres de sonho, condensados no sexo louco ou suave que é pilotar uma moto. ainda mais se for com destino a lugares que a vizinhança não se arrisca nem em pesadelos.


por isso mesmo, já havia tirado motos das minhas last words, e encaixado os jipes, decididamente. mas eis que os tais indianos resolver fazer uma moto, com sotaque inglês, destas que te prometem levar ao fim do mundo(o começo não me interessa), baseada na confiabilidade de um motor tradicional, carburado, de mecânica com fácil reparação, altura que facilita a vida de quem tem 1.75, monocilíndrica, 400 cilindradas, peso médio, e um visual clássico, que remete a paixão pelo que vem à frente, e não pelo que ficou e logo some do retrovisor.

não sei como se diz caralho! em hindi. tampouco nas outras cerca de quatrocentas línguas que se fala por lá. mas foi o que disse ao vê-la em imagens das notícias que dão conta que, talvez, no segundo semestre ela já esteja à venda no brasil. noutros países, mais de cem, maioria dos quais também não sei como dizer caralho na língua natal( o que é um problema para quem se aventura por ai, ficar com o caralho enrolado na boca) já está rolando, inclusive com edições especiais. caralho!

para os sedentos de velocidade e potência - e visual dos mangás japoneses - a himalayan, pode ser uma decepção: a velocidade de cruzeiro não irá além dos cem por hora(a favor do vento); não permitirá grandes esticadas e retomadas de aceleração, sem esgoelar o conta-giros, leia-se motor, e nada de guinadas bruscas, escudado nos novos gadgets de eletrônica embarcada, que isso não é seu forte. é uma moto "pura&dura", com os defeitos e qualidades que carrega, para além dos daqueles que a carregam mas sem os poréns destes. portanto, apta a desbravar caminhos(não com aquele brilho dos vídeos testes) desde que você saiba e esteja preparado para os altos e baixos, quedas e derrapadas, de qualquer caminho que o faça seguir em frente.

sinceramente, não sei se chegarei a tanto. vontade não falta. mas vontade só não sobe montanhas, por mais que se use a figura da vontade como moto de parábolas inspiradoras - principalmente nas empresas ditas moderninhas, que as usam como motivação para esfolar seus empregados.

de qualquer forma, não sou besta de acreditar que se não vou ao himalaia o himalaia vem até a mim.

julgo-me mais esperto; e arrisco a figura: o himalaia já está aqui; bem dentro de nós. e na maioria da vezes, nós não o subimos, mas descemos de bunda no chão, de quatro, pateticamente. subir, nem pensá-lo, para a maioria dos mortais.

como sou mortal, e prezo a minha bunda, com os apegos de outrora, digo que sei não, a himalayan pode ser uma boa desculpa - e ajuda - para subir ao topo antes de despencar de vez para o mais alto dos abismos. então caiamos de pé, ao menos na estrada, que seja. 

figura de linguagem ou não, sei que de qualquer maneira estou indo, nem que seja à pé. aprendi que é sempre melhor morrer em movimento do que viver parado . e assim, lá vamos nós subir outra vez, o himalaia que cada um, a sua maneira, carrega dentro de todos nós; e que por isso mesmo é sempre tão atroz para com os que reclamam do peso da vida. o que nos leva a acreditar que a moto é mesmo o veículo mais adequado para tal viagem, já que não permite levar muita bagagem, muito menos garupa(se leva cairão os dois de bunda antes de meio trajeto). 

então, é você com você mesmo e o moto condutor que julgar mais apropriado para chegar ao seu destino.

बीएम विन्डो एओ हिमालयिया *


        


em hindi, quer dizer: bem-vindo ao himalaia. p.s. não pense que o google tradutor vai lhe ajudar nesta viagem porque não vai não. de modo que a mímica, e o inglês perdido, é o que deve levar em mente.

Monday, June 11, 2018

na falta de um lenço(que pode ser ainda de pano ou papel)

a dor
é o catarro
que engulo
para não cuspir
na calçada

e saio assoviando alceu valença 
como se nada tivesse acontecido 



        

Thursday, June 07, 2018

o lugar exatamente aonde


este sou eu agora 

para alguns é triste
é estar só
ilhado, preso até
encastelado
sem saída
fim da vida 
em ruínas
sem saída
abandonado
no way
deve fazer frio
e o mofo deste lugar?

que lugar mais sombrio
lugubre até
uma falta de perspectiva
dele quem se lembrará?

o que não me assusta
é que: sim;é isso tudo e mais um pouco até
mas é exatamente onde quero e posso estar

quantos podem escolher onde, quando, e como estar ?
como veem, não sou eu que estou miseravelmente ilhado.



Sunday, June 03, 2018

das ilusões dos sentidos

tudo que vejo, vira palavra
tudo que olho,vira sonido
tudo que escuto, vira raio-x 
tudo que toco, não se tocou
tudo que como, diz-me como gostas
ainda que digas que isto não cheira bem

tantas vezes fiquei surdo com o que vi
assim meu olho, virou catarro
o que não toquei, esqueci a música
o que comi, nunca foi devagarinho
(cabei não aproveitando)
e lambi de nariz tapado

rumino o que resta pra baixo da língua
palavra míope
sem sonido
como vi vi
quase engasguei
com o que não vejo que me acerta
sem o cheiro que me esgota

assim sendo
 palavra, virou cuspe
tateio às escuras, seixo brilhante encontrado no raio-x
o que não comi, escuto agora
e engulo as ilusões
sem nenhum sentido de olfato
embalado por jambalaya
que pensava eu ser a nossa jabuticaba




Sunday, May 27, 2018

da falta de visão ampliada*



a presbiopia veio, como é de se esperar, por volta dos quarenta e poucos, o que é sempre muito pouco quando se vive de olhos abertos para o que vier.

a falta de visão para longe, mais tarde, dez anos depois, mais ou menos, a memória talvez já acompanhando a falta de visão.

acostumado, por formação - ou deformação - profissional a focar nos detalhes, e neles buscar, para o bem e o mal, a diferença, sem óculos, perde-se, por assim dizer, o distanciamento crítico. é o que acontece agora quando estou sem lentes.

ao mesmo tempo, surge uma nova maneira de ver as coisas - na verdade de não ver - o universo turvo, ao contrário do que poderia se pensar, é mais bonito, as mulheres, por exemplo, principalmente. sem lentes, inclusive as do amor, todas são belas. não há imperfeição. vê-se, ou melhor é tudo uma programada ilusão de óptica. a loura fatal, onde de loura apenas a tintura que lhe corrói o tônus, a depender dos nossos reflexos ressurge teen.

na verdade, descobri este novo dom da visão por esquecimento dos óculos. como sem eles apenas perco os detalhes, mas continuo tendo a visão do todo, arrisquei dirigir sem eles. e aí não deu outra: um mundo novo abriu-se para mim.

mulheres feias passaram a se sentir atraentes; homens carrancudos, não mais que de soslaio tornaram-se simpáticos, grupos grotescos tornam-se pitorescos e assim por diante. e de certa maneira, torno-me um mensageiro da felicidade, pois assim cego, nada me espanta; e a tudo reajo com a naturalidade da suspensão do susto pela ausência da percepção da forma esvaziada nos seus contornos, mas devidamente preenchida pelas expectativas de outras ânsias.

quem assim olhado, passada a sensação da impossibilidade internalizada do primeiro instante de recusa pelos olhos de quem sempre enxerga o mesmo, guarda lembrança para o resto dos dias destes. e, como dizem os especialistas em serem convocados para redundar nos tele-jornais , a autoestima aumenta e o bem estar se espalha, deixando todo mundo mais feliz neste desfoque acertado.

e como a felicidade é um tipo de crack de efeitos e duração ainda mais devastadora , não é de surpreender que isto vicie. dá mesmo vontade se sair sem óculos a todo instante, para ver a vida mais feliz. um vício dentro de outro chamado vida, do qual também é muito difícil largar por vontade própria, de maneira que vamos procurando enxergar o que nos mantém vivos mesmo que por desfoque os mais ou menos que vislumbramos enxergar.

e assim, apesar de todos os desenganos, que os acertos ou enganos da nossa visão boa ou má sempre acabam por nos trazer, ou para aqueles para os quais depositamos nosso olhar mais profundo ou equivocado, esta falta de visão ampliada nos conduz a amores cegos, cujo melhor é que não tateiam no escuro como fazem aqueles despertados pelo melhor da nossa visão.

no fundo, no fundo da retina, olhamos e sabemos que não está lá. nem sequer nos nossos olhos. é algo muito antes dela, também da formação da lágrima, e até do brilho que se recusa a nos espelhar como realmente somos em nossa mais completa escuridão.


publicado aqui mesmo em 27 de janeiro de 2009.

Thursday, May 24, 2018

it´s raining again, and again*


sempre cai, a chuva, em cima de quem não precisa.

nas horas mais imprecisas, seja homem, seja terra, seja bicho, seja grota, está lá, a molhar os ossos de quem já moles, e a empapar em fúria os sonhos de barro tornados lama, de quem agora só insônia, nunca mais sequer pesadelos.

não é esta, aquela, cuja falta murcha flores, atrofia frutos, e murcha peles e intestinos. esta chuva é o reverso do sol crescente do here come the sun. é água cheia de trombas, cornucópia de males a estoirar a caixa de pandora. de tão fininha molha o que mais se esconde.

não é mais forçoso, nem certo dizer, que a vida vem da água tão-somente. agora, a morte também, em dilúvios particulares, mais desastrosos que os coletivos, num molhar histérico e circunflexo. vem da chuva, a morte que não mais esgana, apenas engasga. e não é de meteoritos, nem tóxica. tampouco corredeira de lágrimas espremidas em lenços ou lençóis de vingança. é água mole mesmo. da natureza cada vez mais morta. derretendo, apodrecendo e liquidamente nos transformando em brutos sinais do fim de quem agora arrepende-se de não ter podido morrer seco.

contra esta chuva não há guarda-sóis.
Now playing: travis - why does it always rain on me viaFoxyTunes

originalmente publicado aqui mesmo lá pelos idos de 2009 em 30/01