Sunday, December 17, 2017

in memorian

parafraseando monet: você é a minha obsessão, meu divertimento e meu tormento de todos os dias (poupem suas cabecinhas. estou falando d´um cão meu).

Friday, December 15, 2017

"mãos de pianista"


                               
                                        Terça Maior e Terça Aumentada

- você tem mãos de pianista.

não me lembro onde, nem me lembro quando, sequer me lembro quem.
mas, lembro bem da frase, da sonoridade daquela voz delicada, quase um acorde dissonante, de tudo que estava acostumado a ouvir, quando, raro, alguém me dizia algo agradável. soou diferente. um quase elogio, uma declaração de interesse, uma nota de paixão? não sei; mas tocou-me com uma terça diminuta, muito embora me sentisse tentado a chamar de terça aumentada, aquelas mãos delicadamente quentes sobre as minhas que ao serem escaneadas portaram-se como mãos tolas e perdidas, que não deram ouvidos aquela predição ou seria perdição?  - você tem mãos de pianista.

só posso dizer que tentei, honestamente, tentei. muito. 



Monday, December 11, 2017

a fechadura

abrupto
deslumbrantemente lua
postou-se rua a minha frente
num bate pronto
foi-se minha inocência 
naquele impulso de porta adentro
porta a fora

quase saída do aquário
nua e crua 
colina e mata
pequena lua crescente
como se não bastasse
aquela cortina de plástico transparente
agora via láctea de espuma e mormaço
ainda com os cabelos por molhar
que imagem por delirar
sendo eu o peixe fora d´água

atemporal instante
onde partículas e o todo
fulguravam arco-iris
intra e inter estelar
no distante momento fugidio
cena de êxtase e compêndio de verosimilhanças
daquelas fora das estantes
no instante onde o homem que habita a criança
se torna estático
ainda assim latejando por conta da mesma estática
coração e penis quase pulando pra fora do pescoço
agora quase catapulta
da minha entrada triunfal
ainda que destrambelhada
no banheiro com a mão no pau

percebendo meu atônito embaraço
saiu-se ela com a aquarela
" não te preocupes: ver não tira pedaço "

mas não foi bem assim a história
de tanto ver e não ver tudo
aos pedaços 
foi bem assim guardada na memória
dela sequer arranhões 
mas em mim
fiquei resto de vida
com aquele oco faltando
quebra-cabeças que o tempo
recusou-se a completar
até o onde me lembro e até o aonde aquilo tudo foi parar

e tudo
por conta e cota
de uma fechadura 
cansada de aprisionar-se em sua porta
que entreabriu-se para a própria em si
para quem quisesse entrar
e nunca mais sair

deu que vendo entreaberta 
porta à dentro entrei
e vi mais que azulejos
e chuveiro fluindo
vi outras portas entreabertas
corpo nu
pernas
entre
ventre
pente
seios
abertos
picos e bicos
mas não para mim
curumim

susto e descuido
em que te vi me vi
cresci e não cresci
apenas ora me dilato
e murcho
tanto que nem sei 
se agora sou eu que não fecho direito a porta
da qual arranquei 
nudez da fechadura
que me trancou por fora
e me abriu por dentro 

e assim
não há uma vez sequer
que não entre no banheiro
que não me venha em vulto
aquela sensação
de trinco fora do lugar

e da frase que ainda sussurras
não sei se por malícia ou pudicícia
nos meus ouvidos a ribombar
" não se preocupes: ver não tira pedaços".











Thursday, December 07, 2017

uma tristeza infinita que nos desconsola até hoje

para os humanos não é tão difícil superar a tristeza da perda.
mas para o cão, que perde o seu melhor amigo, não haverá remédio.
ei-lo, willie, exatamente no dia da morte de patton.


há quem diga que patton foi assassinado, com a conivência de líderes americanos





Thursday, November 30, 2017

i in nésia

perfeita
minha lucidez
pe(r)de a memória
que me esqueça
que me reduza a um branco
onde novas tintas
nada possam escrever
esferograficamente impedidas de deslizar sobre a superfície pegajosa

minha memória
impávida
não se perde na proposta
e acusa a lucidez de estar sendo emotiva diante da realidade
a memória não se perde
a memória não ser pede
a memória não esqueçe
a memória não se lembra
a memória sequer existe
para além de nossas paredes
pois nada do que está lá existe ou existiu
e tudo o que existiu ou existe lá não cabe
sei isso de memória
das memórias que perdi
e ganhei
nove foras nada
de amores memórias bardas
de rancores memórias bárbaras
tudo num átimo
memorizado e esquecido para sempre

quem vai dizer que isso não é memorável ?

Monday, November 20, 2017

"pomerode" as rugas

cada marca no meu rosto
é um gosto
um desgosto
um posto de observação
um ponto observado
um susto e uma sorte
um corte e cicatriz
uma atriz e meretriz
um cão guia e um sem dono
uma vigia pro mundo
uma vigília pra morte
um sinal de vida
um assombro e um êxtase
um ponto e vírgula e nunca um ponto final

cada ruga do meu rosto
é uma marca
das maças que não comi
dos croquis que não finalizei
dos amores que perdi e dos nos quais não me achei
é marca das procuras sem resposta
e das respostas sem perguntas
dos desamores perdidos
de tanto desamparo
que pararam bem aqui
nas rugas ditas de expressão
que para muitos nada mais expressam do que decadência
o que demonstra que não sou eu o enrugado afinal

cada ruga que marca o meu rosto
é sinal de que ainda não há dormência
nem demência, porque ante o espelho
me contam historias que sabiamente não contam para estranhos
permanecendo caladas como pedaços de pele malfadada
escondendo as fadas que foram
e os pedaços de sonhos que nelas se tornaram
encapsulados
ingás por desvendar
em seus mofos guardados

cada ruga do meu rosto merece uma ode única
e que por isso mesmo
para a uma e outra não desgostar
faço no plural aquilo que me veio singularmente
segundo a cada seguido minuto a cada seguida hora
a casa dos dias anos e décadas
onde me reconheço
melhor ou pior
a depender da qualidade - e nunca quantidade-
delas
até que me torne
uma única e una
ruga só
quase um cumpizeiro
que o poeta gostaria de ver ao sol
mas que sequer será verruga em lua decrescente
ou barquinho de papel em esgoto
mas apenas
poeira e pó das sombras 
que me seguirão a enfim repousar
no único lift que as rugas elimina
por definitivo
enquanto o infinito
finito
até ele
durar
não se transformar
em ruga também
por alguma rusga mais além
deserto

Friday, November 17, 2017

kábum!


dos gatos da síria
e dos cachorros da somália
herdei 
mais que estrondos
sobressaltos

são fatos rasgados a céu aberto
colchas de retalhos
com seus milhares de intestinos fora do seu destino

herdei também memórias esturricadas
de fatos e fotos jamais tiradas ou mostrados
nos tele-jornais e nas agências de notícias
que nos fazem mudar de canal
sem mudar o pensamento

há algo em mim de constante sobressalto
de eriçados pelos
quando me falam em humanos
seres que destroem a tudo e a todos
e não poupam vidas
sequer de crianças, bichos ou livros
pois neles não há espírito que louve a vida
mas tão somente a morte fútil em flashes de violência gratuita e destemperada

e a tudo isto constato
tão longe-perto
entre paredes não caiadas
tombadas ou arrombadas
agora tingidas de sangues
como se nelas houvessem veias rompidas
onde de nada adianta a correria
daqueles que se dizem, até quando? exceção,
e vão recolhendo restos de vida metralhada
ou fuzilada por bala ou míssil, bem maiores do que os corpos das crianças, e dos gatos e cachorros que atingiram
cuja única compreensão é o horror a tudo que move e fala e espia

nos escombros há também gaiolas pulverizadas, onde pássaros que já perderam o encanto de voar
foram exsudatos em explosões de cores monocromáticas
que lhes despedaçaram os bicos
que de há muito já não sabiam mover, que dirá, cantar

há qualquer coisa na guerra que os livros jamais poderão contar
tampouco sentir
quem não viveu a morte de estar lá
no meio de tudo isto
para depois se dizer sobrevivente
com se alguém pudesse sair com vida
disto que chamamos, eufemisticamente, de guerra
genocídio, extermínio ou que palavra seja de teor bombástico
para sempre abafadas naquele átimo de pele rompida as penas do passarinho
pelo vácuo da explosão
contínua da estupidez humana
que produz estragos irrecuperáveis nos seres que um dia julgamos ter algum tipo de alma
e que coloca em debandada insana latidos e miados para distante dos corpos onde se abrigavam

dos gatos da síria
e dos cachorros da somália
herdei mais que os sustos, o terror, o abandono, a fragilidade
a insônia, e a incompreensão
dos livros onde o conhecimento agora desfaz-se em meio ao pó 

herdei as mãos tomadas em inchaços
os tímpanos rompidos
as patas calejadas
e uma secura na garganta
que chamo de impotência
ante a contemplação das minhas pegadas 
que ja foram humanas
hoje sequer animais
desmembradas
numa explosão
de luz atrofiada
que me deixou para sempre
ressabiado
e assombrado
com a minha própria sombra
que me deixou lá atrás
cansada de tanto morrer  

Sunday, November 05, 2017

a palavra que pode viver sem o poeta que não pode viver sem palavras



procurei 
dias sem fins
noites sem sonhos
perpassar
poema
onde coubesse 
a palavra
alabastro

que procura inútil
por si só
escrita e pronunciada,
musicada até,
alabastro
já é palavra poema
destas que que no meio da relva
ou da selva
se basta por si só
ao contrário do poeta
que não se basta
e por isso procura fazer
um poema para a palavra
alabastro
em vez
de aprender com ela
como a si se bastar
sem necessidade
de outras palavras
entre lençóis.



Wednesday, November 01, 2017

um favo de poema




um poema é tanto vespeiro
como abelhas fazendo mel
depende de que lado sopra o vento
e de até quando durar
a debandada dos
seus hormônios
frente as picadas
ou o mel
que dependem de que lado você 
 estava quando o poema começou a soprar.

Sunday, October 29, 2017

das janelas laterais

daubigny´s garden, van gogh



na minha infância
de janelas
e alpendres
quase todos
tínhamos
visões
de
van goghs
nos
quintais
a nos encher a vista.

hoje,
sequer
francis bacon.

                

Wednesday, October 25, 2017

o cover ainda vai lhe tornar a sombra de suas sobras

Resultado de imagem para picasso



atribui-se a picasso o pito: nada pior do que plagiar-se a si próprio.

na vida, o que seria o plágio de si próprio? o cover, talvez, principalmente quando você tenta viver de novo, a todo custo, melhor dizendo a toda cópia, o que já viveu originalmente. nem o clone lhe tenta ser tão fiel como o cover.

há muitos fazendo cover por ai. na vida e na música(mais na vida do que na música. não deixe os ouvidos lhe enganarem, e tampouco acredite no que veem os seus olhos). e o drama do cover é sempre o mesmo: mesmo que supere o original, será sempre o cover. é raro, mas acontece. já fazer coladinho, ou seja, exatamente igual, mas tão igual, que o cover acaba sendo chamado de cópia - e nada mais depreciativo para o ego de um cover do que ser chamado de cópia - o cover de si mesmo é um holograma pálido, apenas isto, que não me escute o erasmo (assim como eu não o escutei nessa). 

sobre o cover entendo que não deve ter como meta a cópia, mas sim algo aproximado, guardando um mínimo toque seu que seja(poucos fizeram isso, mas só na música). e o cover, na versão faça diferente, mas tão diferente, que deixa de ser cover e passa a ser outra coisa, e que por isso mesmo, na maioria das vezes vai levar bordoada porque a grande maioria vai dizer: - ah! mas nem se parece com o original. assim até eu faço(não fazem, pode acreditar).

então eis o dilema: fazer igual, superior ou diferente? estamos falando agora de vida meus caros covers. não dá para fazer igual o que deixa de ser igual no meio do segundo do que quer que seja que você esteja fazendo, porque neste átimo de tempo já foi. se fizer estribilho, também já foi, não é o mesmo, nem na metade dele. o cover do passado é medíocre como só o pior cover poderia ser.

fazer superior é pra poucos. e se seu nível é rasteiro, é um indício de que dificilmente - se você toma o cover como modelo - vai superar-se a si próprio a ponto de não mais ter de se copiar naquilo que já foi feito, porque o que você sente, o tune, já é outro, seja pela idade, seja por qualquer outra circunstância, mesmo que você arme o cenário tal e qual um plágio na sua galeria dos quadros retidos pela memória.

resta o fazer diferente, o que não é fácil, neste mundo que incentiva o cover - não vê que os programas musicais de originais foram substituídos por programas de covers? -  e que chega a valorizar mais a cópia do que o original. até mais dos que eles chamam de bons exemplos ou da versão diferente da partitura na qual eles tentam nos enquadrar, sem direito a voo próprio, só o trinado da cópia doutrinada.

há quem goste de ser cover - é mais fácil andar na cola dos outros, mesmo que seja de você mesmo.

quanto a mim, matei o meu cover de porrada e deixei o corpo estrebuchado lá na quina calçada, onde rasguei a cópia que se atrevia a querer mandar em mim. (e antecipando a presepada, confisquei-lhe dos bolsos os ingressos para os meus próximos shows. para não dar incentivo aos covers que sempre ficam na espreita).


Saturday, October 21, 2017

nem sempre questão de tato



diante
da porta do amor
homens e mulheres
em dúvida
de qual
campainha tocar
entreolham-se
ante
as instalações trocadas.
presenciando 
o impasse
o amor 
lá de dentro
desiderou:
entre sem tocar
é menos
complicado.
                                                   

Friday, October 13, 2017

desculpas pra que te quero


sempre digo a mim 
e se digo a mim, 
digo a mim mesmo 
- ora ora
pra que o pleonasmo vicioso
se já basta o vicio de mal escrever ? -

que não escrevo livro ou romance
porque me falta paciência
já que o talento
hoje em dia
é frase que não conta

conto eu então 
outra lorota
forma de falsa
autocrítica
que não cola

assim como o livro que não rola
por impura falta de talento
mesmo que de dentro pra fora
ou dos fora pra dentro
seja o autor
ainda que em pseudônimo
a verdadeira
e destemida
obra
não entra de sola
o até possível escritor
desta provável novela
 furada
que só lhe renderia chacota
e aborrecimentos
portanto muito provável
perda de tempo

como disse
não tenho a menor paciência
-e poupem-me da insistência -
que nestas horas o talento sobressai-me
ao menos para a recusa

já me basto
a lamber-me as botas
como todo escritor metido
diz que não, mais gosta

fim de papo.

(entro
e fecho a porta)
agora vamos lá 
à serio
escrever sem sermos 
molestados
por quem quer
e o que quer que seja
que quer que eu seja escritor
porque foda-se! 
não tenho a menor paciência

23717




Saturday, October 07, 2017

pega-pega


a morte moço ? ah! não se engane. a morte, ela te pega pelo pescoço. ferrenha, sanguinária, impiedosa, sufocante e carrancuda.

mas a vida, ah! a vida moço, esta te pega por onde puder, pudor ou pudera. 

* quem foi criança, grande ou pequena, no recife dos anos 60, aprendeu também que a vida também pegava pela garganta. em goles de sete vidas, contidos e explodidos nas pequenas garrafas do guaraná fratelli vita. em suas dependências arrasadas, pelo bombardeiro imobiliário de agora, vida ainda há. um pega-pega de arbustos com vitrais,  ton sur ton de melancolia e memória que resplandece sabores do outrora. sabor que ainda guardo nos lábios. por ele, lhe digo moço, que a vida é um refrigerante, um gasosa de sabor único, seja à talagadas ou aos goles delicados, desfrutada ainda melhor se não nos importamos com formato ou tamanho da garrafa. aliás, fato é, que a vida nunca se importou muito com isso. mas, tristemente, muitos de nós, sim. e assim sendo, não aproveitaram o tal sabor, até sentir na garganta, o tal aperto da morte, à seco


foto-montagem de gustavo arruda, autor de
a história da fratelli vita no recife.

Tuesday, October 03, 2017

fruto de nosso dente, além


entre os verdes que não vingam
semente da vingança 
podres rogados aos maduros: 
não se quedarão em carnosidades ávidas 
bocas não lho morderão 
há de ser caroço 
condenso de tudo aquilo 
que somos mas não pudemos ser 

(frutificar, olinda, 220817)


                         

Saturday, September 16, 2017

o tempo dos meia-bôca


Resultado de imagem para fredmercury

e chegou o tempo em que nos tornamos vitrines das nossas dentaduras. ao menos para aqueles que não são banguelas nas carteiras.

dentadura pode lhe parecer um termo ultrapassado(não para a corega, of course) sendo no máximo aceitável, prótese móvel, coisa de pobre, mas não tanto.

com todos estes implantes soltos por ai, esta uniformização de sorrisos embranquecidos, até facetas que a mercantilização batizou de lentes de contatos(nos dentes, não é uma gracinha?) ao custo de um sala e quarto em bairros nobres das maiores capitais, onde fica a espontaneidade? a verdade dos nosso sorrisos? quão mais resplandecentes, quanto a nossa alegria manifestada por entre as falhas de nossa boca, leia-se dentes trincados na mastigação da vida sem subterfúgios?

é tudo tão igual, tão perfeito, tão flúor do flúor, que antevejo florestas não mais de cadáveres mas de "luzes negras" - lembra dos bons tempos dos anos 70, das luzes que assim chamadas nos tornavam "almas penadas",ainda mais com nossas taras pelas "lourinhas de aparelho" (poupem-me politicamente corretos, que estou do lado do não racismo. mas aos 13, quem sabe o que é isso?  quem por acaso questiona porque só as lourinhas tinham aparelhos? - sim alguns já questionavam, mas não me estrague o raciocínio - já que a tara, não era nas lourinhas propriamente ditas, mas em saber se o beijo era eita! ferro, não importava a cor de quem o usava, pois era a fase onde se pegava e nos apegávamos até em cabo de vassoura.

o braqueamento com suas facetas, e os implantes, há os implantes, escolhidos a dedo, são o sinal supremo da superioridade financeira de alguns, e da paridade de pensamento "igualitário". é tudo tão igual gente, que não há sorriso diferenciado. parece até uma animação de caveiras batendo queixo. aliás, tem gente, atores, cantores, inclusive, que pecado! que até tem dificuldade de movimentar a boca, e nós de reconhecê-los como dantes.

aqui não falo da questão da melhoria fisiológica dos desdentados. não nego isto. mas sim, da banalização do sorriso perfeito, do sorriso esbranquiçado como novo passaporte para a aceitação social e para o reconhecimento como tal.

mundo estranho este, onde tudo que é artificial, tenta nos convencer de que é real, e melhor que o original, mesmo que o original seja um horror, ainda não é o circo de horrores que se tornou o humano com seus sorrisos de dentes emplastados.  é não basta o dente. tome beiço, bunda, barriga, bochecha, biceps, só para listar a parte do cardápio na letra b, já que você sentiu falta dos peitos(pênis ainda não tem, ainda?)

meu dentista estranhou quando recusei o branqueamento. recusei também a plástica nos meus caninos tortos. eles são a marca das minhas mordidas na vida, com suas cáries, bafos, e extrações de coisas tão importantes como os dentes, sim, importantes. mas não mais importantes que as verdades contidas na minha, na sua, expressão facial e nas deles. 

se assim não fosse, imagine matogrosso , sem o seu diastema inconfundível? ou o farrokh bulsara(fred mercury)sem o seu prognatismo(não confunda com protagonismo porra!) exibindo-se como manequins de dentaduras?

a vida, e seu brilho, é bem mais do que uma boca reluzente. e o paradoxo é que só se aprende isto quando se perde alguns dentes ou quando se acrescenta muitos.   
   Resultado de imagem para ney matogrosso



   

aos incautos e desapercebidos: ritchie, que já cantava nas abadias londrinas - o cara é inglês, se você não sabe - não conseguiu levar adiante seus estudos para a flauta, pois seus diastemas(espaços avantajados entre os dentes) faziam falhar o sopro. eis que então adotou o canto. seria o mesmo como flautista, à custa de correções dentárias?

pra você não levar uma vaca do futuro


Wednesday, September 13, 2017

para ninar o rivrotil

Resultado de imagem para simbolo ying yang




seres comuns, os tais comuns mortais, aqueles do senso comum, costumam usar a expressão, já antes relevada, agora relegada, a lugar comum, alguma surpresa? foi um "morto em vida ", para designar uma morte perdida(que eles pensam ser vida). mas como? se há sempre na morte, vida sonhada que apenas sonhava, o que seria hem, se não fosse pra sempre, o seu sonho de acordar, para não mais dormir ?

não é doidivanas então afirmar que vida é que é o sonho da morte. pois quem mais é terna "duquela" o será, no sono que jamais insônia nos causa? a não ser aos que temem uma noite bem dormida?

livre dos sonhos, tempo de dormir em paz a vida não deixa. com ela é só um sonho, que nem poupa a morte que, se não sabe, forma casal que dorme "de conchinha". apesar das rusgas e dos queixumes até que um deles sentencie: apaga ou acende a luz. e assim a morte vai e a vida vem, e de vez em quando algum se levanta pra fazer chichi, enquanto o outro já amarelou o lençol, o colchão, sem ter ou manifestar a menor preocupação com isto.

ah! bolas, diga me lá se isto sim é não que é vida? nada de surpresas e maldizer-se ao meio da noite por levantar a contra-gosto ou acordar molhado porque sonhou fazendo chichi.

por isso não perca tempo se mijando de medo da morte. ao fim da história, e nem ai ela lhe poupa, foi sempre a vida que lhe meteu em apuros e em situações pra lá de constrangedoras. a morte só, nem sempre simplesmente, fez o resto.

e por falar nisto, quantas vezes você já trocou de lençol e de colchão, aos gritos de apaga esta luz, apesar de estar morrendo de medo do escuro ?

Tuesday, September 05, 2017

sem contorcionismos

Resultado de imagem para imagem de krishna disco george harrison


a pessoa que mais me aproximou a ideia de deus, não foi padre, pastor, monge ou xamã. foi harrison, george, com sua fé harmônica expressa numa musicalidade singela, quase celestial, digamos assim. 

e o fato de ser adepto de krishna, em muito ajudou, porque em vez da imagem crucificada de um deus agonizante, que me empalidecia de medo e horrores na infância, eis o brilho do brincalhão, no seu oitavo avatar(não confunda com andar, cacete!), exalando a presença de vishnu, um deus criança, o tal brincalhão, um modelo de amante, um herói divino e o ser supremo, sem as xaropadas que bem conhecemos das outras religiões, a começar da mal contada história da partenogênese, que faz de maria a pura, e das nossas mães putas, já que na origem do nosso nascimento não há espíritos santos, pois não? mas essa é outra história.

o fato é que, voltando a george, como deus lhe deu facada nas costas, e um cancer na garganta, muito embora george tenha lhe perdoado - e até louvado in extremis - decidi deixar deus caminhar sozinho; não sem olhar para trás de vez em quando, para ver se havia alguém me seguindo. sabe-se lá quantas facas tem o butcher apelidado de supremo ? - pode chamar de master-chef, se quiser -  afinal, vegano era o george, não o dito maior.

assim, as topadas, percalços e pinotes, permaneço fiel ao "antes só do que mal acompanhado". o deus ou o que quer que seja que habita em mim não se coaduna com crocodilagens de quem quer que seja, por mais poderoso que se apresente(também não gosto muito das carteiradas e das credenciais diplomáticas que concedem passe livre na alfândega desta para outra). e cedo aprendi que a luz no fim do túnel, não é o passaporte para os céus - também não é a lanterna do diabo, tampouco alguma locomotiva desenfreada - mas apenas ilusão de ótica nos estertores do organismo que anseia refletir-se em qualquer brilho que se lhe apareça pela frente.

exceto, no brilho da lâmina que lhe é espetada nas costas, ainda que seja simbólico, toda vez que alguém lhe ameaça por você não dar guarida a quem não lhe convence, mostra-se assumidamente não ser boa companhia.

aguente-se então. por pior que seja, o que quer que seja, nunca vi ninguém matar a si próprio cravando uma faca nas próprias costas. nem o divino. 

 

Friday, September 01, 2017

(mesmo que não seja grande coisa) poema de pirlimpimpim

hoje escrevi um poema
e fiquei muito contente
porque escrevi um poema

não que fosse grande coisa
mas era como se fosse

adolescente em acne
beijo de primeira língua vez
das pragas femininas varizes  
 gânglio atômico em mama
testículo atônito ante nódulo 
amálgama de fins e afins
eis o quimono desbotado
luta sem fim
dos seres querentes de mal de amor amado
que quase explodem o poema
que aqui aparece interligado

mas que nem assim
é grande coisa 
apesar de que, de tudo - e de todos -
me deixou contente
porque sim
escrevi um 
poema
mesmo que ele não fosse grande coisa
porque um poema é sempre umbigo do mundo
e nunca 
o umbigo do poeta
por mais que estes
o queiram fazer parecer

e assim
 ao escrever um poema
mesmo que ele não seja grande coisa
senti-me como arco flecha e alvo
de mim mesmo
o mesmo
a duras penas
ainda
conquanto penso*
contente
mundo à fora



e me senti ainda mais contente
porque
embora às armas
não escrevi receita 
não escrevi fórmula
não escrevi sentença 
não escrevi decreto
não escrevi lei
não escrevi pena de morte
não escrevi por vingança
de e do que quer que seja
tampouco elegia
ou poema pimba de amor
apenas escrevi poema
que eu e ele
sabemos bem 
não é grande coisa

mas fiquei muito contente
por isso mesmo 
porque hoje escrevi um poema 
mesmo que ele não seja grande coisa
fiquei muito contente
porque um poema não deixa de ser uma ordem da vida
ditada pelo próprio poema
que nos toma os braços e a cabeça, dos ombros às mãos, nevralgia até as pontas dos dedos
e nos leva às teclas onde os tlecs e tlacs
afinam laços com as batidas do coração
que percutem
e repercutem
o poema
até vê-lo
impresso para além
do próprio
corpo
batido
e rebatido
dundun 

por isso
e só por isso
hoje eu fiquei muito contente 
porque escrevi um poema

e os poemas - assim como os poetas -
não ficam contentes - ou tristes - à toa
eles sempre tem seus (bons) motivos (ou maus)
para escrever um poema
mesmo que o poema não seja grande coisa

escrevesse o mundo mais poemas
e o nosso contentamento seria singular e coletivo
e não apenas mais um poema
que deixou seu autor contente
 - mesmo que o poema não seja grande coisa -
porém sozinho

porque se todos escrevessem um poema
mesmo que o poema não fosse grande coisa
nos faria a todos explodir de contentamento
e não em sangue 
como explodem todos que não ficam contentes com quem escreve poemas

e assim 
o poema finalmente seria uma grande coisa
e poderia morrer em paz
(mesmo que ele ainda achasse que não era grande coisa)

mas como ninguém se dispôs a escrever coletivamente um poema
mesmo que ele não fosse grande coisa
o poema se tornou vazio
e singular;
e o pòete
maudit
pó  
de contentamento
coletivo
o tal de pirlimpimpim
que ninguém soube usar



*penso, usado no nordeste como o equivalente de torto, empenado e, obviamente de pensar

22717