Saturday, October 21, 2017

nem sempre questão de tato



diante
da porta do amor
homens e mulheres
em dúvida
de qual
campainha tocar
entreolham-se
ante
as instalações trocadas.
presenciando 
o impasse
o amor 
lá de dentro
desiderou:
entre sem tocar
é menos
complicado.
                                                   

Friday, October 13, 2017

desculpas pra que te quero


sempre digo a mim 
e se digo a mim, 
digo a mim mesmo 
- ora ora
pra que o pleonasmo vicioso
se já basta o vicio de mal escrever ? -

que não escrevo livro ou romance
porque me falta paciência
já que o talento
hoje em dia
é frase que não conta

conto eu então 
outra lorota
forma de falsa
autocrítica
que não cola

assim como o livro que não rola
por impura falta de talento
mesmo que de dentro pra fora
ou dos fora pra dentro
seja o autor
ainda que em pseudônimo
a verdadeira
e destemida
obra
não entra de sola
o até possível escritor
desta provável novela
 furada
que só lhe renderia chacota
e aborrecimentos
portanto muito provável
perda de tempo

como disse
não tenho a menor paciência
-e poupem-me da insistência -
que nestas horas o talento sobressai-me
ao menos para a recusa

já me basto
a lamber-me as botas
como todo escritor metido
diz que não, mais gosta

fim de papo.

(entro
e fecho a porta)
agora vamos lá 
à serio
escrever sem sermos 
molestados
por quem quer
e o que quer que seja
que quer que eu seja escritor
porque foda-se! 
não tenho a menor paciência

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Saturday, October 07, 2017

pega-pega


a morte moço ? ah! não se engane. a morte, ela te pega pelo pescoço. ferrenha, sanguinária, impiedosa, sufocante e carrancuda.

mas a vida, ah! a vida moço, esta te pega por onde puder, pudor ou pudera. 

* quem foi criança, grande ou pequena, no recife dos anos 60, aprendeu também que a vida também pegava pela garganta. em goles de sete vidas, contidos e explodidos nas pequenas garrafas do guaraná fratelli vita. em suas dependências arrasadas, pelo bombardeiro imobiliário de agora, vida ainda há. um pega-pega de arbustos com vitrais,  ton sur ton de melancolia e memória que resplandece sabores do outrora. sabor que ainda guardo nos lábios. por ele, lhe digo moço, que a vida é um refrigerante, um gasosa de sabor único, seja à talagadas ou aos goles delicados, desfrutada ainda melhor se não nos importamos com formato ou tamanho da garrafa. aliás, fato é, que a vida nunca se importou muito com isso. mas, tristemente, muitos de nós, sim. e assim sendo, não aproveitaram o tal sabor, até sentir na garganta, o tal aperto da morte, à seco


foto-montagem de gustavo arruda, autor de
a história da fratelli vita no recife.

Tuesday, October 03, 2017

fruto de nosso dente, além


entre os verdes que não vingam
semente da vingança 
podres rogados aos maduros: 
não se quedarão em carnosidades ávidas 
bocas não lho morderão 
há de ser caroço 
condenso de tudo aquilo 
que somos mas não pudemos ser 

(frutificar, olinda, 220817)


                         

Saturday, September 16, 2017

o tempo dos meia-bôca


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e chegou o tempo em que nos tornamos vitrines das nossas dentaduras. ao menos para aqueles que não são banguelas nas carteiras.

dentadura pode lhe parecer um termo ultrapassado(não para a corega, of course) sendo no máximo aceitável, prótese móvel, coisa de pobre, mas não tanto.

com todos estes implantes soltos por ai, esta uniformização de sorrisos embranquecidos, até facetas que a mercantilização batizou de lentes de contatos(nos dentes, não é uma gracinha?) ao custo de um sala e quarto em bairros nobres das maiores capitais, onde fica a espontaneidade? a verdade dos nosso sorrisos? quão mais resplandecentes, quanto a nossa alegria manifestada por entre as falhas de nossa boca, leia-se dentes trincados na mastigação da vida sem subterfúgios?

é tudo tão igual, tão perfeito, tão flúor do flúor, que antevejo florestas não mais de cadáveres mas de "luzes negras" - lembra dos bons tempos dos anos 70, das luzes que assim chamadas nos tornavam "almas penadas",ainda mais com nossas taras pelas "lourinhas de aparelho" (poupem-me politicamente corretos, que estou do lado do não racismo. mas aos 13, quem sabe o que é isso?  quem por acaso questiona porque só as lourinhas tinham aparelhos? - sim alguns já questionavam, mas não me estrague o raciocínio - já que a tara, não era nas lourinhas propriamente ditas, mas em saber se o beijo era eita! ferro, não importava a cor de quem o usava, pois era a fase onde se pegava e nos apegávamos até em cabo de vassoura.

o braqueamento com suas facetas, e os implantes, há os implantes, escolhidos a dedo, são o sinal supremo da superioridade financeira de alguns, e da paridade de pensamento "igualitário". é tudo tão igual gente, que não há sorriso diferenciado. parece até uma animação de caveiras batendo queixo. aliás, tem gente, atores, cantores, inclusive, que pecado! que até tem dificuldade de movimentar a boca, e nós de reconhecê-los como dantes.

aqui não falo da questão da melhoria fisiológica dos desdentados. não nego isto. mas sim, da banalização do sorriso perfeito, do sorriso esbranquiçado como novo passaporte para a aceitação social e para o reconhecimento como tal.

mundo estranho este, onde tudo que é artificial, tenta nos convencer de que é real, e melhor que o original, mesmo que o original seja um horror, ainda não é o circo de horrores que se tornou o humano com seus sorrisos de dentes emplastados.  é não basta o dente. tome beiço, bunda, barriga, bochecha, biceps, só para listar a parte do cardápio na letra b, já que você sentiu falta dos peitos(pênis ainda não tem, ainda?)

meu dentista estranhou quando recusei o branqueamento. recusei também a plástica nos meus caninos tortos. eles são a marca das minhas mordidas na vida, com suas cáries, bafos, e extrações de coisas tão importantes como os dentes, sim, importantes. mas não mais importantes que as verdades contidas na minha, na sua, expressão facial e nas deles. 

se assim não fosse, imagine matogrosso , sem o seu diastema inconfundível? ou o farrokh bulsara(fred mercury)sem o seu prognatismo(não confunda com protagonismo porra!) exibindo-se como manequins de dentaduras?

a vida, e seu brilho, é bem mais do que uma boca reluzente. e o paradoxo é que só se aprende isto quando se perde alguns dentes ou quando se acrescenta muitos.   
   Resultado de imagem para ney matogrosso



   

aos incautos e desapercebidos: ritchie, que já cantava nas abadias londrinas - o cara é inglês, se você não sabe - não conseguiu levar adiante seus estudos para a flauta, pois seus diastemas(espaços avantajados entre os dentes) faziam falhar o sopro. eis que então adotou o canto. seria o mesmo como flautista, à custa de correções dentárias?

pra você não levar uma vaca do futuro


Wednesday, September 13, 2017

para ninar o rivrotil

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seres comuns, os tais comuns mortais, aqueles do senso comum, costumam usar a expressão, já antes relevada, agora relegada, a lugar comum, alguma surpresa? foi um "morto em vida ", para designar uma morte perdida(que eles pensam ser vida). mas como? se há sempre na morte, vida sonhada que apenas sonhava, o que seria hem, se não fosse pra sempre, o seu sonho de acordar, para não mais dormir ?

não é doidivanas então afirmar que vida é que é o sonho da morte. pois quem mais é terna "duquela" o será, no sono que jamais insônia nos causa? a não ser aos que temem uma noite bem dormida?

livre dos sonhos, tempo de dormir em paz a vida não deixa. com ela é só um sonho, que nem poupa a morte que, se não sabe, forma casal que dorme "de conchinha". apesar das rusgas e dos queixumes até que um deles sentencie: apaga ou acende a luz. e assim a morte vai e a vida vem, e de vez em quando algum se levanta pra fazer chichi, enquanto o outro já amarelou o lençol, o colchão, sem ter ou manifestar a menor preocupação com isto.

ah! bolas, diga me lá se isto sim é não que é vida? nada de surpresas e maldizer-se ao meio da noite por levantar a contra-gosto ou acordar molhado porque sonhou fazendo chichi.

por isso não perca tempo se mijando de medo da morte. ao fim da história, e nem ai ela lhe poupa, foi sempre a vida que lhe meteu em apuros e em situações pra lá de constrangedoras. a morte só, nem sempre simplesmente, fez o resto.

e por falar nisto, quantas vezes você já trocou de lençol e de colchão, aos gritos de apaga esta luz, apesar de estar morrendo de medo do escuro ?

Tuesday, September 05, 2017

sem contorcionismos

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a pessoa que mais me aproximou a ideia de deus, não foi padre, pastor, monge ou xamã. foi harrison, george, com sua fé harmônica expressa numa musicalidade singela, quase celestial, digamos assim. 

e o fato de ser adepto de krishna, em muito ajudou, porque em vez da imagem crucificada de um deus agonizante, que me empalidecia de medo e horrores na infância, eis o brilho do brincalhão, no seu oitavo avatar(não confunda com andar, cacete!), exalando a presença de vishnu, um deus criança, o tal brincalhão, um modelo de amante, um herói divino e o ser supremo, sem as xaropadas que bem conhecemos das outras religiões, a começar da mal contada história da partenogênese, que faz de maria a pura, e das nossas mães putas, já que na origem do nosso nascimento não há espíritos santos, pois não? mas essa é outra história.

o fato é que, voltando a george, como deus lhe deu facada nas costas, e um cancer na garganta, muito embora george tenha lhe perdoado - e até louvado in extremis - decidi deixar deus caminhar sozinho; não sem olhar para trás de vez em quando, para ver se havia alguém me seguindo. sabe-se lá quantas facas tem o butcher apelidado de supremo ? - pode chamar de master-chef, se quiser -  afinal, vegano era o george, não o dito maior.

assim, as topadas, percalços e pinotes, permaneço fiel ao "antes só do que mal acompanhado". o deus ou o que quer que seja que habita em mim não se coaduna com crocodilagens de quem quer que seja, por mais poderoso que se apresente(também não gosto muito das carteiradas e das credenciais diplomáticas que concedem passe livre na alfândega desta para outra). e cedo aprendi que a luz no fim do túnel, não é o passaporte para os céus - também não é a lanterna do diabo, tampouco alguma locomotiva desenfreada - mas apenas ilusão de ótica nos estertores do organismo que anseia refletir-se em qualquer brilho que se lhe apareça pela frente.

exceto, no brilho da lâmina que lhe é espetada nas costas, ainda que seja simbólico, toda vez que alguém lhe ameaça por você não dar guarida a quem não lhe convence, mostra-se assumidamente não ser boa companhia.

aguente-se então. por pior que seja, o que quer que seja, nunca vi ninguém matar a si próprio cravando uma faca nas próprias costas. nem o divino. 

 

Friday, September 01, 2017

(mesmo que não seja grande coisa) poema de pirlimpimpim

hoje escrevi um poema
e fiquei muito contente
porque escrevi um poema

não que fosse grande coisa
mas era como se fosse

adolescente em acne
beijo de primeira língua vez
das pragas femininas varizes  
 gânglio atômico em mama
testículo atônito ante nódulo 
amálgama de fins e afins
eis o quimono desbotado
luta sem fim
dos seres querentes de mal de amor amado
que quase explodem o poema
que aqui aparece interligado

mas que nem assim
é grande coisa 
apesar de que, de tudo - e de todos -
me deixou contente
porque sim
escrevi um 
poema
mesmo que ele não fosse grande coisa
porque um poema é sempre umbigo do mundo
e nunca 
o umbigo do poeta
por mais que estes
o queiram fazer parecer

e assim
 ao escrever um poema
mesmo que ele não seja grande coisa
senti-me como arco flecha e alvo
de mim mesmo
o mesmo
a duras penas
ainda
conquanto penso*
contente
mundo à fora



e me senti ainda mais contente
porque
embora às armas
não escrevi receita 
não escrevi fórmula
não escrevi sentença 
não escrevi decreto
não escrevi lei
não escrevi pena de morte
não escrevi por vingança
de e do que quer que seja
tampouco elegia
ou poema pimba de amor
apenas escrevi poema
que eu e ele
sabemos bem 
não é grande coisa

mas fiquei muito contente
por isso mesmo 
porque hoje escrevi um poema 
mesmo que ele não seja grande coisa
fiquei muito contente
porque um poema não deixa de ser uma ordem da vida
ditada pelo próprio poema
que nos toma os braços e a cabeça, dos ombros às mãos, nevralgia até as pontas dos dedos
e nos leva às teclas onde os tlecs e tlacs
afinam laços com as batidas do coração
que percutem
e repercutem
o poema
até vê-lo
impresso para além
do próprio
corpo
batido
e rebatido
dundun 

por isso
e só por isso
hoje eu fiquei muito contente 
porque escrevi um poema

e os poemas - assim como os poetas -
não ficam contentes - ou tristes - à toa
eles sempre tem seus (bons) motivos (ou maus)
para escrever um poema
mesmo que o poema não seja grande coisa

escrevesse o mundo mais poemas
e o nosso contentamento seria singular e coletivo
e não apenas mais um poema
que deixou seu autor contente
 - mesmo que o poema não seja grande coisa -
porém sozinho

porque se todos escrevessem um poema
mesmo que o poema não fosse grande coisa
nos faria a todos explodir de contentamento
e não em sangue 
como explodem todos que não ficam contentes com quem escreve poemas

e assim 
o poema finalmente seria uma grande coisa
e poderia morrer em paz
(mesmo que ele ainda achasse que não era grande coisa)

mas como ninguém se dispôs a escrever coletivamente um poema
mesmo que ele não fosse grande coisa
o poema se tornou vazio
e singular;
e o pòete
maudit
pó  
de contentamento
coletivo
o tal de pirlimpimpim
que ninguém soube usar



*penso, usado no nordeste como o equivalente de torto, empenado e, obviamente de pensar

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Monday, August 28, 2017

sinal fechado


Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela a nossa procura
ah! moça, como foi bela a nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
a gente se corta. 

(idílica estudantil, alex polari)

como já dizia uma velha canção do rádio, de um antigo compositor cearense, "eles venceram e o sinal está fechado pra nós que somos jovens"(imagine para os velhinhos).

logo eles, que queimaram, furaram, avançaram, sobre todos os sinais que se tornaram monumentos de nossa parte nos erros e acertos; se tornaram os controladores do nosso ir e vir - sentimental, inclusive - sexual já nem falo, dada a mortandade que explode em níveis de guerras mundiais, mas acima de tudo econômico, para nos fazer desistir do mundo que achávamos ser melhor que assim não fosse, atuando no enfraquecimento das crianças, na dormência dos jovens, e na execução por morte civil dos nossos velhinhos.

já não formamos barricadas com nossas jaquetas azuis. nosso espírito foi desarmado, entorpecido, amordaçado, confiscado, trocado por delações vantajosas e vantagens de pequeno porte, que também significam cooptação a um modelo de vida que nos sufoca pelas nossas próprias mãos. e pela compressão das ideias que um dia levantaram nossas cabeças e nossos ombros.

o espírito de batalha dos nossos blue jeans, que um dia foram manchados de sangue, e ainda mais torturados que em suas lavagens originais, ainda resistiram, aqui e ali, mesmo que em baus de sonhos e cabides relegados a porões de brechós de quinta. nós não. somos mercado e mercadoria de shoppings. nossa preocupação agora é encontrar vaga no estacionamento. e não em pegar a estrada.

nossa música foi dispersada, maldita. nossos ídolos já não são os mesmos, apesar de ainda serem o que foram, e o que são. e os hits de cavalgaduras que se dizem cavaleiros ocupam todo o espaço que um dia foi só poesia e canção. por cima de queda, coice.

a mediocridade prima-irmã da insanidade e violência clama ainda mais pelo sinal verde. o mesmo que fardado um dia quis nos obrigar a rezar em ordem unida, altivando-se em dizer que ali estava para combater o vermelho. e tivemos um dos mais vermelhos período de nossas curtas vidas perdidas e desaparecidas naqueles anos de chumbo líquido sobre nosso sexo.

e mesmo assim, cá estamos nós. neste exato momento ainda parados diante do sinal fechado. não o da ruas; porque nesse, se parar-mos, morremos na hora. mas no stop do pensamento onde há um não que assedia um sim, que teima em nos dizer que é possível desembainhar a inteligência, como arma, a coragem, como veículo, e a ousadia, de se reinventar estratégias de luta, para por abaixo tudo que ai de novo volta para nos fechar o sinal.

ainda que a terra ande cada vez mais cinza, e os ainda combatentes cada vez mais grisalhos, num planeta de ar cada vez mais irrespirável, nós que fizemos nossa parte, também deixando de fumar, ainda cabemos no feitio de torná-la azul mais uma vez. mas desta vez não basta vestir o blue-jeans novamente . desta vez, se quisermos mesmo conseguir, vamos ter de fazer mais. bem mais até que uma luta armada.

porque depois do sinal fechado, ainda restam as barreiras. e são estas que tem que ser definitivamente eliminadas.

caso contrário. sinal fechado, porteira fechada, vida encerrada, política morta, sexo idem. escravidão oficializada novamente. e os poucos que resistirem, executados no acostamento, novamente sem direito a passagem pelo IML.

enquanto isso, na viatura policial, sirene no volume máximo, amplificador do rádio idem. enquanto soldados se divertem pra ver quem se esgoela mais que os mais novos sertanejos universitários do pedaço. sirene, viatura, rádio, amplificador, soldados, sertanejos universitários, todos unidos no cumprimento do seu papel, do seu dever, com direito a claque e louvores a jesus.

eis o resumo da ópera daltônica: enquanto adormecido o pensamento, empacados os moinhos, empacada a grande roda da história. empacados os cadáveres mortos ou vivos.

por isso baby, não compre os (tele)jornais. eles também estão fechados para nós.


               

Friday, August 25, 2017

em busca dos eu perdidos

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valentin louis georges eugène marcel
ou apenas proust,
 tocando sua guitarra imaginária.
imaginação dele ou nossa?

sim, caro leitor, há um pingo, o certo seria dizer, cuspe, de proust, por aqui. sou mesmo um otimista degenerado, e sigo crendo que, na farofada da web, gente há que sabe quem é proust, e que, menos ainda, o leu - compreender, só sendo otimista assim na casa do caralho(mas existem sim).

é um tempo terrível, este. dizem que as pessoas, a humanidade, está perdida. diante dos novos tempos - que nada de novo trazem aos nossos viciados erros e saltibancos acertos. 

também pudera! neste novos tempos, que de novos nem a etiqueta do homem remarcado, foi retirado ao homem = a mulher - sua mais inata propensão autóctone: a capacidade de errar - e acertar - por conta própria.

explico, se você não é "leitor de proust". duas coisas são fulcrais na formação do homem= mulher. o tempo, e o erro. a humanidade chegou ao que chegou, e olhe que não é grande coisa(talvez isso seja só uma figura de linguagem) depois de um quase interminável período - ou seria lapso? - de tempo. e também graças ou desgraças de seus incontáveis erros. então, na base da tentativa e erro, aos trancos e barrancos, chegamos aqui. e mesmo que o resultado não seja assim tão alentador - pelo menos para os "leitores de proust" - não foi mole, nem foi pouco. mas que foi muito atabalhoado, foi. apesar da linha sinuosa, que para os leitores de (você já sabe né?) que nunca se enganam, que examinada distanciadamente, é  reta.

o que acontece agora? sem ter aprendido nada, ao que parece, com seus erros, a humanidade - o sistema capitalista assim dizendo - estabeleceu os novos parâmetros do homem com base na busca desenfreada da eliminação dos erros(o que não quer dizer a busca da perfeição, existencial ou espiritual, ou o que quer que isso seja) e da maximização dos tempos. ei-nos senhores como o mais novo fruto, que não bastasse ter sido enxertado, agora transgênico (não confunda com transgênero)de maneira a não produzir limalhas à engrenagem.

a formação do homem = mulher - dá-se como experiência (mal-sucedida, cravo) em ratazanas. somos instigados a acelerar o tempo de amadurecimento(eu chamaria de idiotia) desde a mais tenra infância, incluindo ai a sexualização, a erotização biotônica(que é diferente da sexualidade), ao plural de atividades(aulas de ballet, inglês, tênis, natação, robótica, empreendedorismo, tudo ao mesmo tempo agora, que este é que é o mal(não as aulas em si) de modo que a criança perde o tempo de ser criança, e nem sequer chega a adolescência sem a carapaça de robot que lhe é impingida. assim, não tem como o já humanoide não apresentar "defeitos de fabricação" que, se classificados como desvios de conduta desinteressante ao sistema, sofrem logo o recall das psicólogas de plantão, que tratam de eliminar o que restou de aparente humano, pelos cuidadores do pedaço.

adultos, uma geração inteira já formada pelo sistema neste sistema, sequer cogita o tempo para os filhos. o tempo, e o tempo do pai = mãe - com os filhos foi sendo- e as figuras, paterna e materna - substituídos, primeiro pela jurássica, hoje, televisão. depois os jogos, também jurássicos, em seu começo, até chegar-mos aos smart phones, que tudo englobam, e que delineiam e permeiam a idiotia geral. nada de atividades lúdicas ou telúricas. apenas o preenchimento da vida - e de seus valores, na verdade um troca-troca - por gadgets tecnológicos que dão uma sensação de modernidade e poder pra lá de ilusórias, e má compensação ao desandar da consciência, com suas crises, de pais e filhos, num play desgovernado, e assim sucessivamente, já agora ao longe de novas gerações.

eis os novos tempos de coachings, de personal trainers - do que você imaginar, até de "colocar sal no feijão. agora não temos mais eus a procura do verdadeiro eu de si próprio, o que só acontece com as tais tentativas e erros, dentro da parte do tempo que nos é concedida a tal procura, nem sempre fecunda. mas isso é a vida real. fora dela, tudo mais é matrix.

mas agora, matrix ou não, de cara, qualquer eu é imbecil. o coaching, dizem - na mentira assim são vendidos - são os novos feitores da ajuda imprescindível para você melhorar sua performance. de tal sorte, que sem ele, você é um soldado dado com o morto antes da batalha. game over para o seu eu, sem eles, dizem os prospectos.

e para maximizar( a palavra que foi o leviatã do surgimento destes novos tempos) o seu eu pessoal, depois do seu eu profissional, surgem os personais de tudo o que você imaginar. dos físicos, aos psíquicos, até aquele que lhe mostram o ângulo correto da inclinação necessária para palitar os dentes com mais acuidade. em suma, você é conduzido, na vida pessoal e profissional, ao máximo que podem arrancar de você, o que é bem diferente de tudo o que você poderia dar, o que só se descobre com o tempo das descobertas dos erros e acertos, na infância, na adolescência, na média idade, no trabalho e na vida pessoal e, sim, também mui importante, na velhice. quando se faz a prova dos nove das respectivas retrospectivas, e que nalguns casos ainda determinam mudanças felizes, ou que sejam infelizes, no tempo e trajetória da vida que lhe restar.

mas não. isto hoje lhe é negado em nome da proficiência efetiva ao rumo traçado. só que este rumo não foi traçado por você - mesmo quando pensa que sim. e sim, pelo conjunto de circunstâncias criadas para fragilizá-lo a tal ponto(eles vendem como fortificação do seu espírito, assim como as "bombas" para os músculos e cérebro) que você desaprende a reconhecer o seu eu. e ai, sim, você estará cada vez mais dependente deles, porque vai se perder de si a tal ponto que se perderá do seu eu para sempre. constituindo-se finalmente, de vários eus , mas nenhum seu verdadeiro eu.

aqueles que não seguem tais predicados são os socialmente inadequados, o novo nome para os outsiders, para os freakers, para os porra-loucas, para os revoltados, se assim o quiser.

deve ser por isto que há "tão poucos leitores de proust" na web. no mundo lá fora já não se acha. por aqui, o que seria um novo caminho, também se perdeu. 

e agora: quem busca o tempo perdido, acha alguma coisa além de proust? para além da "legião" ?

quem sabe fuçando os sebos da vida, os eu originais ainda não tenham se desencontrado, desintegrado? 

é recherche pra ser. 


  

Monday, August 21, 2017

o caçador de borboletas

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uma singela homenagem ao ator gigante( emiliano queiroz) que preenche
até hoje nossa memória com seu dirceu no bem amado.


houve um tempo, em que para não perder, até pensei em inopinadamente sempre anotar. não sei se por vaidade ou se por temor de não mais lembrar, pois, convenhamos, é grande a pressão sobre os mais velhos, sempre lembrados de que não tem mais a mesma memória - chego a pensar que muita gente teme, em demasia, as memórias dos mais velhos, gente de rabo preso ou boca cheia do que não presta, ou porque fomos testemunhas involuntárias das suas masturbações fora de hora. masturbação tem mesmo hora? sei lá, isso também quase esqueci. mas temais! infiéis, que disso lembro de vez em quando, e de outras coisas mais.

frases de efeito à parte, refiro-me as anotações de ideias, coisas simples, uma frase bem humorada, chiste na maioria das vezes, pequenos poemas em prosa, hai-kais, as vezes letras de canções inteiras, quando não contos curtos, que nem deu tempo de correr para se esconderem debaixo da mesa, ou alçarem outros voos, isto quando não estou na escrivaninha, móvel hoje que nem nos antiquários se acha com facilidade.

tinha de ser rápido, vinha o fio, o flow, ou o fluxo, e em muito pouco tempo, segundos, algumas vezes, lá se iam o que veio borboleteando meu pensamento. inúmeras foram as vezes, que noutros afazeres menores - mais nunca menos importantes, tudo a fazer é importante - ou mesmo por preguiça de interromper à sesta, ou a olhadela na calçada, ou porque estava a tirar carrapatos nos meus cães, ou em meio ao xixi, que não o fiz de pronto. e, pronto, já havia esquecido. ficava apenas a mancha de que alguma coisa havia estado no meu pensamento, e que, sim, teria valido a pena anotá-la.

chegou a um ponto em que vi-me quase em dilema obsessivo: tornar-me-ia um anotador compulsivo, não deixando passar nada em branco, ou relaxar, e anotar o que desse, ou o que mais perto achasse que valeria a pena. foi um zig-zag nestes tempos, um corre dali, um para daqui. um lembra acolá, um já me esqueci do agora. e assim por diante. puxa! anotar tudo em todos os lapsos a serem preenchidos é mesmo tarefa que exige muito espinafre. e eu nem sou o popeye nem nada.

mas tudo agora passou. graças! não ao espinafre. mas a doses profiláticas de gin, sim. não que eu tenha perdido a memória ou que as "borboletas" não me venham a mente. tem vindo cada vez mais, as vezes em enxames. mas isso não mais me perturba ou altera o ritmo da minha disponibilidade.

afinal, descobri que, tão ou mais importante do que anotar, o que muitas vezes nem será o poema, o conto, a canção, que gostaria de escrever, é deixá-las voar, soltas, esquecidas pelo que há de se esquecer em mim ou de mim para pousarem noutras mentes, noutras cabeças, em espaços, mesas, escrivaninhas, colos ou montes, bem mais férteis do que nos meus apontamentos.

vê-las voando, hoje, e quiçá amanhã, raiar do dia, fim de tarde ou já agora vagalume em meio a noite, dar-me-à muito mais prazer do que prensadas nos meus quase inconclusos folhetins de memórias, ora perdidas ora achadas, de asas quebradas pelo susto.

p.s. e quanto ao resto, esqueci. ah! mas como isso é bom. sequer fazia ideia. só de lembrar o que se esqueceu nós faz sofrer ainda mais. e o sofrimento não voa para longe, enquanto se mantém agarrado a nossa memória, ou preso, como borboleta amassada, em algumas página dos nossos escritos ou melhor, da nossa escrita de vida, quiçá para além do esboço.

Thursday, August 17, 2017

dispensando jesus

Resultado de imagem para jesus te ama porque nao convive contigo caneca

alguém achou do caneco a chiste iconoclasta ou blasfêmia de ocasião da foto.

rede social é assim, ainda mais no face. prontamente comentário pentecostal:  - jesus não te larga, seja onde e quem você for, não importa aonde, ele está sempre juntinho.

eu, que sou do tipo que pra isso nem te ligo, recomento, incomodado com tal presença grude: -  me desculpe jesus, mas eu necessito de um pouco mais de privacidade. dá pra sair do banheiro, now!

Saturday, August 12, 2017

e a cigana não leu a minha mão

olhos postos na minha mão, entre os dedos anzóis, persigo linha que chamam da vida; mas que descarrila, de um jeito ou de outro, para a morte que é a estação de todas as linhas. 

se fim de trecho ou última estação, não precisei da cigana para ter a premonição, sendo cigano de mim mesmo. de uma ponta a outra, indo ou voltando, subindo ou descendo, eu jamais ficaria no meio. a mediocridade é um atalho que jamais cogitei. então, píncaro ou abismo, faço-me donatário das minhas linhas de festim. e isto sempre feito com a corda toda. e não são as cordas, ao fim e ao cabo, feitas de sucessivas linhas? corda que enforca, corda que salva, corda que segura, corda que solta. corda que acorda o acorde. e como tal o farei, assim se nada me restar, canção de entoar restolho serei?


 

Tuesday, August 08, 2017

minha mãe faz umas pamonhas gostosas



escritor tem ideia de conto sobre velhice. conto que conta, não sua, mas velhice da velhice, porque algures alguém perguntou: - o que é mesmo a velhice ?

pôs-se o escritor a escrever, por horas, dias e anos a fio, mesma frase: - minha mãe faz umas pamonhas gostosas.

escreveu, por décadas, até não mais poder, a mesma frase, no que muitos anteciparam demência, decadência, e toda sorte de adjetivos contíguos à velhice, ainda assim sem explicação plausível e não menos contundente para a as sobras da vida.

apenas alguns mui poucos leitores perceberam, entre as milhares de repetida frase - minha mãe faz umas pamonhas gostosas, uma que já não dizia o mesmo  - minha mãe já não faz umas pamonhas gostosas. 

intermezzo? descanso? descaso? cansaço? ato falho? enjoo? dor de barriga? velhice?

fosse como fosse, ali, e não aqui, explicação, que dentre poucos, muitos entenderam como morte da mãe do escritor, e não o que a velhice azedou.

rindo, desdenhava da inteligência dos leitores, o escritor, comedor de pamonhas compulsivo mais que toda sua escrita - e dos críticos que detestaram a pamonha. o que considerou ofensa. não pela obra, ou pelas sobras, mas pelo fato de que sua mãe fazia umas pamonhas gostosas.

finalmente quando perguntado, sobre onde diabos estava a ideia da explicação? das pamonhas lambidas aos beiços até a palha, do que seria lúcida explicação à velhice, respondeu enfático: a velhice é uma pamonha.

gostem vocês ou não.

Wednesday, August 02, 2017

desce dai humano



das coisas que mais gosto nos meus gatos, uma, é é vê-los fazendo cocô. 

não! caro leitor, não há aqui nenhum desatino que preze a escatologia. 
mas apenas se lhos comparo aos humanos, ora, ora, que não suportam comparações que não lhes são favoráveis. senão vejamos:

dos gatos, que elegância! que finesse! antes de tudo, e, of course, que higiene. 
da suite a sinfonia, o achado da bandeja, e o ciscar dos grãos de areia. 
sua postura é quase yoga(yôga é o meu cacete!). orelhas em riste, suas contrações, que espalham-se pelo corpo, que se meneia, recorda-me campos de trigo baloiçando aos ventos se assim fosse. 
questão de segundos, matéria expelida, e o cavocar em azáfama termina em pirâmides sem faraós.
não dá para imaginar, por mais superior que se ache a madame ou o janota que não a completa, cena com tal croqui, pois o ato humano é de tal modo carregado de disformes julgamentos, que quanto mais tenta disfarçar, num jogo de esconde-esconde do piorio, e não haveria necessidade, se fosse natural com os demais animais, que o torna enxová-lho de si próprio.

e eis aqui a questão: os seres humanos gostam muito de jactar-se de serem o topo da cadeia da evolução. mas como? se até fazendo merda, os gatos nos são superiores?


p.s. não me atice com a lembrança do odor do "cocô de gato". por ventura, o seu, ou os da nossa espécie, tem alguma fragrância que nos remeta a chanel 5?

Sunday, July 30, 2017

tríplice certeza

esboço de um homem e seus animais de estimação(makarova olga\dreamstime)


da vida, tenho certeza, levo três paixões: livros, música, cinema. paixões, ressabio, mais ou menos correspondidas, entremeando, desde já, que o menos, é por minha conta.

alguém me sussurra, não falas das "minhas paixões por animais" ? - coloco no plural porque não seria fiel dizer paixão por animal, visto que não me restrinjo a espécies ou espécimen - no que respondo: não! não há paixão. apenas há que sou deles. como se fosse um. e não apenas mais um. e, em se tratando disso, não é paixão. é mesmo amor. correspondido ou não, incondicional. até quando minha auto-estima se agacha, e fere o traseiro na calçada.

Tuesday, July 25, 2017

reflexões dos já agora com poucos reflexos*

frente ao espelho, observo cabelos brancos com seus arrepiados de vitória , e exclamo: well, as coisas estão clareando.

juquinha, meu alter-ego de catupiry, não se contém e desembesta: foooda-se! vai ser otimista assim na puta que te pariu!


Foto de Biblioteca Azul.

* originalmente publicado no guardanaposdeescriturario.blogspot.com

Thursday, July 20, 2017

não há espaço no espaço celeste para que o espaço entre o humano e a animalidade seja preenchido com alguma piedade sobre nós


laika foi colocada no foguete sem provisões, um desperdício, julgaram os homens, dito cientistas, que a sacrificaram, já que sabiam que ela não iria voltar. talvez este seja o aspecto mais cruel, desta conquista. a economia de recursos, talvez não pelo aspecto econômico, mas pelo aspecto sentimental. que pensaria laika, sozinha, comprimida, assustada, a girar em volta da terra, provavelmente sem entender as voltas que o mundo dá? na terra continuamos indiferentes para a grande maioria dos animais. e não importa o seu amor por nós. ao menor pretexto e lá se vai a nossa amizade pro espaço.

Monday, July 17, 2017

de orelha a orelha

auto-retratos de van gogh cujo talento atormentado não cabia em um só

é muito mais comum do que se pensa. quando a miséria de um homem serve à riqueza de outro, muitos sorriem de orelha a orelha, desdenhando até de quem a perdeu. 

Friday, July 14, 2017

da teoria da relatividade

me and my self(ie)
  Há 18 horas
dos colegas da infância e da adolescência, fui único a não dar certo. eles sucumbiram ao sucesso. enquanto eu fracassei com louvor