Thursday, August 17, 2017

dispensando jesus

Resultado de imagem para jesus te ama porque nao convive contigo caneca

alguém achou do caneco a chiste iconoclasta ou blasfêmia de ocasião da foto.

rede social é assim, ainda mais no face. prontamente comentário pentecostal:  - jesus não te larga, seja onde e quem você for, não importa aonde, ele está sempre juntinho.

eu, que sou do tipo que pra isso nem te ligo, recomento, incomodado com tal presença grude: -  me desculpe jesus, mas eu necessito de um pouco mais de privacidade. dá pra sair do banheiro, now!

Saturday, August 12, 2017

e a cigana não leu a minha mão

olhos postos na minha mão, entre os dedos anzóis, persigo linha que chamam da vida; mas que descarrila, de um jeito ou de outro, para a morte que é a estação de todas as linhas. 

se fim de trecho ou última estação, não precisei da cigana para ter a premonição, sendo cigano de mim mesmo. de uma ponta a outra, indo ou voltando, subindo ou descendo, eu jamais ficaria no meio. a mediocridade é um atalho que jamais cogitei. então, píncaro ou abismo, faço-me donatário das minhas linhas de festim. e isto sempre feito com a corda toda. e não são as cordas, ao fim e ao cabo, feitas de sucessivas linhas? corda que enforca, corda que salva, corda que segura, corda que solta. corda que acorda o acorde. e como tal o farei, assim se nada me restar, canção de entoar restolho serei?


 

Tuesday, August 08, 2017

minha mãe faz umas pamonhas gostosas



escritor tem ideia de conto sobre velhice. conto que conta, não sua, mas velhice da velhice, porque algures alguém perguntou: - o que é mesmo a velhice ?

pôs-se o escritor a escrever, por horas, dias e anos a fio, mesma frase: - minha mãe faz umas pamonhas gostosas.

escreveu, por décadas, até não mais poder, a mesma frase, no que muitos anteciparam demência, decadência, e toda sorte de adjetivos contíguos à velhice, ainda assim sem explicação plausível e não menos contundente para a as sobras da vida.

apenas alguns mui poucos leitores perceberam, entre as milhares de repetida frase - minha mãe faz umas pamonhas gostosas, uma que já não dizia o mesmo  - minha mãe já não faz umas pamonhas gostosas. 

intermezzo? descanso? descaso? cansaço? ato falho? enjoo? dor de barriga? velhice?

fosse como fosse, ali, e não aqui, explicação, que dentre poucos, muitos entenderam como morte da mãe do escritor, e não o que a velhice azedou.

rindo, desdenhava da inteligência dos leitores, o escritor, comedor de pamonhas compulsivo mais que toda sua escrita - e dos críticos que detestaram a pamonha. o que considerou ofensa. não pela obra, ou pelas sobras, mas pelo fato de que sua mãe fazia umas pamonhas gostosas.

finalmente quando perguntado, sobre onde diabos estava a ideia da explicação? das pamonhas lambidas aos beiços até a palha, do que seria lúcida explicação à velhice, respondeu enfático: a velhice é uma pamonha.

gostem vocês ou não.

Wednesday, August 02, 2017

desce dai humano



das coisas que mais gosto nos meus gatos, uma, é é vê-los fazendo cocô. 

não! caro leitor, não há aqui nenhum desatino que preze a escatologia. 
mas apenas se lhos comparo aos humanos, ora, ora, que não suportam comparações que não lhes são favoráveis. senão vejamos:

dos gatos, que elegância! que finesse! antes de tudo, e, of course, que higiene. 
da suite a sinfonia, o achado da bandeja, e o ciscar dos grãos de areia. 
sua postura é quase yoga(yôga é o meu cacete!). orelhas em riste, suas contrações, que espalham-se pelo corpo, que se meneia, recorda-me campos de trigo baloiçando aos ventos se assim fosse. 
questão de segundos, matéria expelida, e o cavocar em azáfama termina em pirâmides sem faraós.
não dá para imaginar, por mais superior que se ache a madame ou o janota que não a completa, cena com tal croqui, pois o ato humano é de tal modo carregado de disformes julgamentos, que quanto mais tenta disfarçar, num jogo de esconde-esconde do piorio, e não haveria necessidade, se fosse natural com os demais animais, que o torna enxová-lho de si próprio.

e eis aqui a questão: os seres humanos gostam muito de jactar-se de serem o topo da cadeia da evolução. mas como? se até fazendo merda, os gatos nos são superiores?


p.s. não me atice com a lembrança do odor do "cocô de gato". por ventura, o seu, ou os da nossa espécie, tem alguma fragrância que nos remeta a chanel 5?

Sunday, July 30, 2017

tríplice certeza

esboço de um homem e seus animais de estimação(makarova olga\dreamstime)


da vida, tenho certeza, levo três paixões: livros, música, cinema. paixões, ressabio, mais ou menos correspondidas, entremeando, desde já, que o menos, é por minha conta.

alguém me sussurra, não falas das "minhas paixões por animais" ? - coloco no plural porque não seria fiel dizer paixão por animal, visto que não me restrinjo a espécies ou espécimen - no que respondo: não! não há paixão. apenas há que sou deles. como se fosse um. e não apenas mais um. e, em se tratando disso, não é paixão. é mesmo amor. correspondido ou não, incondicional. até quando minha auto-estima se agacha, e fere o traseiro na calçada.

Tuesday, July 25, 2017

reflexões dos já agora com poucos reflexos*

frente ao espelho, observo cabelos brancos com seus arrepiados de vitória , e exclamo: well, as coisas estão clareando.

juquinha, meu alter-ego de catupiry, não se contém e desembesta: foooda-se! vai ser otimista assim na puta que te pariu!


Foto de Biblioteca Azul.

* originalmente publicado no guardanaposdeescriturario.blogspot.com

Thursday, July 20, 2017

não há espaço no espaço celeste para que o espaço entre o humano e a animalidade seja preenchido com alguma piedade sobre nós


laika foi colocada no foguete sem provisões, um desperdício, julgaram os homens, dito cientistas, que a sacrificaram, já que sabiam que ela não iria voltar. talvez este seja o aspecto mais cruel, desta conquista. a economia de recursos, talvez não pelo aspecto econômico, mas pelo aspecto sentimental. que pensaria laika, sozinha, comprimida, assustada, a girar em volta da terra, provavelmente sem entender as voltas que o mundo dá? na terra continuamos indiferentes para a grande maioria dos animais. e não importa o seu amor por nós. ao menor pretexto e lá se vai a nossa amizade pro espaço.

Monday, July 17, 2017

de orelha a orelha

auto-retratos de van gogh cujo talento atormentado não cabia em um só

é muito mais comum do que se pensa. quando a miséria de um homem serve à riqueza de outro, muitos sorriem de orelha a orelha, desdenhando até de quem a perdeu. 

Friday, July 14, 2017

da teoria da relatividade

me and my self(ie)
  Há 18 horas
dos colegas da infância e da adolescência, fui único a não dar certo. eles sucumbiram ao sucesso. enquanto eu fracassei com louvor

Tuesday, July 11, 2017

para muito além das sete vidas

gosto de devagar vagar as 

noites no escuro pela casa 

vazia


o silêncio em banho-maria 

ronrona aos gatos 

espalhados cômodos a 

dentro, aveludando a 

situação confortavelmente

cujo brilho contrasta ton sur ton


sem a companhia humana 

todo e qualquer espaço é imenso

e não há censuras - para as mentes privilegiadas, sequer auto-censura, que 

não é lá muito o meu caso, dizem os gatos com seus olhares "de profundis"


sem ecas, pego-me a assoar o nariz, muco à distância, longe da irritação da 

rinite, onde o fungado é quase disforme ronronado, de outros tecidos, 

precedendo o trajeto da "ranheta" rumo ao chão de mosaicos,

assaz quase soar de trombeta


gosto também, mas não me lambo, nem me lambuzo, apenas assoo e ressoo 

e gosto porque isso é matéria viva, que me faz gostar de saber que serei imortal

e gosto mais ainda porque sabedor que não fiz nada de imemorial - não escrevi 

livros, não fiz grandes feitos - apenas existi, existo, e existirei mil anos à fora 

ainda que seja à forra(uma náutica vingança?) mesmo que como muco, assim 

como a vida que seja átimo de voo entre o assoo o mosaico


e mesmo que ninguém o saiba - da minha imortalidade, e da minha fungada - 

sei que existi, existo e existirei, enquanto ranho da existência 

que,sabidamente, só os gatos sabem contemplar sem sobressaltos

Saturday, July 08, 2017

assim-assim ou vida de supetão

de súbito, súbita pontada

em meio ao sono

costas aguilhoadas

num eis-me aqui despertando de sono quase eterno

viro-me, acordo, e vejo que estou morto.

a vida também acaba assim

assim-assim

quando se acorda para ela

e não para quando se dorme.





Wednesday, July 05, 2017

da maldição dos sem asas



quase nunca olhamos para o céu atentamente.

por quê basta olhar para o céu para sentir que somos pássaros presos numa gaiola apertada onde nem sequer nos foi permitido ter asas.

mas como nunca olhamos para o céu atentamente, continuamos a servir alpiste para os pássaros de quem foi roubado o céu.

o mesmo céu que os olhava e eles ao céu tão atentamente, mas tão atentamente, que esqueceram que neste mesmo céu havia uma espécie cuja única ideia de voo é prender os de alguém, seja pássaro, igual ou espírito.

 

Friday, June 30, 2017

da sua própria natureza

Resultado de imagem para natureza morta

não culpo a morte por não poupar vidas.
a vida, mata-se por ella misma.

Tuesday, June 27, 2017

paralaxe

Dyskusyjny Klub Filmowy: starszy artysta i piękna modelka, Materiały prasowenão é que eu esteja cansado da vida. mas ando cansado das mortes que ela me causa.


Kadr z filmu „Artysta i modelka” (Fot. Materiały prasowe)

Saturday, June 24, 2017

bodoque



sinto que o meu ciclo de extremo convívio com os animais está encerrando-se ao fim dos que agora me acompanham. não é que falte amor, que ainda me sobra. mas, falta-me paciência, que o tempo depredou.
e o amor, sem paciência, é uma pedrada.

Saturday, June 17, 2017

"o apanhador dos campos de centeio" apanhado em pelo

                                                                              j.d.salinger

Wednesday, June 14, 2017

tal e qual o patinho feio da sua obra - e que belíssima d 1 obra

                                                                                      hans cristian handersen

A Agulha de Cerzir A Caixinha de Surpresa A Casa Velha A Colina dos Elfos A Margaridinha A Pastora e o Limpador de Chaminés A Pequena Sereia A Pequena Vendedora de Fósforos A Princesa e o Grão de Ervilha A Rainha da Neve A Roupa Nova do Rei A Sombra As Cegonhas As Flores da Pequena Ida As Galochas da Fortuna Cada Coisa em seu Lugar Cinco Grãos de uma só Vagem Dentro de Milênios Ela Não Valia Nada Histórias Que o Vento Contou João-Pato Mágoas do Coração Nicolau o Grande e Nicolau Pequeno O Anjo O Boneco de Neve O Colarinho O Companheiro de Jornada O Guardador de Porcos O Isqueiro Mágico O Jardim do Paraíso O Menino Mau O Patinho Feio O Pinheirinho  O Que o Velho Faz Está Bem Feito O Rouxinol O Sino Os Namorados Os Novos Trajes do Imperador Os Saltadores Os Sapatos Vermelhos Soldadinho de Chumbo Os Sapatinhos Vermelhos Uma Família Feliz Uma História Livro de Imagens, sem Imagens Nada Como um Menestrel O Improvisador O Romance da minha Vida



Wednesday, May 24, 2017

hatha yoga (yôga é o meu cacete!) ou o descanso da mexicana

tenho uma relação dúbia com a fotografia. talvez porque ainda adolescente ouvi uma conversa, não me lembro mais onde, que os índios não gostavam de fotos, porque acreditavam que elas roubavam a alma.

anos mais tarde, vi um filme sobre o jim morrison, com o val kimmer, estupendo no papel, onde a mensagem era repetida. pronto, ficou. 

não gosto de ser fotografado, muito embora tenha uma admiração enorme pela fotografia, reconhecendo nela, um poderio inimaginável, em muito superior as "imagens em movimento". por que a fotografia capta e paralisa a vida em momentos que jamais seriam percebidos - com honrosas exceções - e talvez por isso mesmo tão bela e tão terrível.

derivações à parte, muito embora tenha lá minhas vontades, não fotografo meus companheiros de jornada - cães, gatos, etc - com exceções muito aleatórias. as vezes, arrependo-me, pois perdi a conta dos que estiveram comigo e que, acontece, fui esquecendo, nomes e fisionomias - mas nunca esqueço do olhar, se me lembro, de vários deles, principalmente em seus últimos momentos.

eis que um dia fotografei a mexicana, com um celular vagabundo, daqueles que comprometem o utilizador frente a cloaca que se diz fauna das redes socais. depois do que aqui falei, nada mais a acrescentar.




Tuesday, April 18, 2017

no seu "cântico negro, régio este josé *


“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.

— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu te
nho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
*José Régiopseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, (Vila do Conde17 de Setembro de 1901 — Vila do Conde22 de Dezembro de 1969) foi um escritorpoetadramaturgoromancistanovelistacontistaensaístacronistacríticoautor de diáriomemorialistaepistológrafo e historiador da literatura português, para além de, fundador, editor e director da influente revista literária Presençadesenhadorpintor, e grande conhecedor e coleccionador de arte sacra e popular. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Tem uma biblioteca e uma escola secundária com o seu nome em Vila do Conde.
Com o livro de estréia — “Poemas de Deus e do Diabo” (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos. Cântico Negro é considerado, por alguns, seu mais belo poema.

Nota do blog: encontramos diversas interpretações do poema. entre tantas, a do próprio autor, a de joão villaret, maria bethânia(versão 1982 e mais atual) a de paulo gracindo e outros "monstros" conhecidos. optamos por postar aquela que foge do over-acting(caso de villaret, que muitos confundem com gradeza emotiva)que costuma açoitar os declamadores. às vezes, aqueles que nos falam mais baixo é que nos fazem escutar mais alto. nem sei se este seria o caso, mas é fato que nesta versão, o poema, o poeta, e não o declamador, sem demérito para o próprio, assim o fazem, pelo menos aos meus ouvidos moucos a tantos outros gritos.

Thursday, April 06, 2017

talvez\o imperador do nada



talvez escreva canção \como se deve\ ou como não se deve\ mas canção onde se saiba\ que o talvez nunca deve nada a ninguém

talvez na canção\ amor se descreva bem\ no corte onde se inscreve o talvez\ tão displicente ao tempo\ tão descrente ao vento\do que lhe traria um tanto\ talvez que tanto talvez\ amor tenha preferido ir embora para pasárgada\ bem na hora da sua tez

talvez escreva canção\ para alguém de voz pequena\que seja\ contanto que de pequena louça\de pequena poça\pequeno vaso\ talvez açucena\ da apenas flor\ falsetes bálsamos\que não há caule para graves e agudos de si tão enfastiados\ joanetes nos fa(r)dos e nos tangos\versos esculpidos e escarrados de mesma dor \

talvez de poucos acordes\ canção\ que desperte mais que um toque\ um certo roque\ sem  talvez nem por quê \apenas canção para os que até cantam bem e nada tem\ 

talvez\escreva canção\ sem vez\sem sal\ sem açúcar\sem olhos\e sem boca\ apenas tal e qual\ rosto disforme em verso e prosa \ reverso de quem foi meu bem\e chega de ferida calo\ tanta planta outra\ no teu rasgo\ não importa a quem\que a canção\que mente ó poeta\ desmente\ a semente do para sempre\e do momento demente\ para além do pente\ ou da ponte zen\

talvez escreva canção para lembrar\ o que se deve\ ou o que não se deve\ ou talvez escreva canção apenas pra lembrar de esquecer \quem sabe\ um dia\talvez sim\ talvez não\talvez nunca\ pra quem talvez chegue\ pra mim chega de talvez


Friday, March 24, 2017

fazendo as contas, o que , ao fim das contas, é o que a maioria de nós passa fazendo a vida

que a vida é um encontro ou um acerto de contas,  o tal somatório de perdas e ganhos - ou ainda, para alguns, apenas alfarrábio de perdas e danos - isso todo mundo sabe.

o que não percebe esta vã filosofia é que, na matemática da vida - na verdade aritmética - feitas as contas, resultados soam diferentes. pois os ganhos trazem perdas, e as perdas, trazem ganhos.

é essa nossa falta de familiaridade com tais números que nos faz destemperar a vida com um sofrer, que nas consequências é morrer antes da hora(contas, contas, contas), sem gozar as gargalhadas, um pinico que seja, da tal felicidade, que é sempre um número primo, nunca par. por isso, aquela história de que "fundamental é mesmo o amor, e que é impossível ser feliz sozinho", não bate com estas contas.

não vá você agora querer bater de encontro ao (a)mar.


Thursday, March 16, 2017

quem quer brincar de jack kerouac? ou jack sparrow não é páreo para este jack





Relações beatniks
 Ginsberg e Kerouac mantiveram, durante anos, uma amizade erotizada, entre o recolhimento e a expansão pelo mundo

Allen Ginsberg nasceu em Newark, Nova Jersey, em 1926, filho de Louis e Naomi Ginsberg, ambos de famílias de judeus russos emigrados. Seu pai foi poeta e professor de literatura. Sua mãe passou boa parte da vida internada, vítima de esquizofrenia paranoica. Por isso, a infância e a juventude de Ginsberg foi difícil e dolorosa. Cresceu, contudo, em um ambiente culto e politizado. O drama familiar contribuiu para sua simpatia pela loucura e excentricidade. Orientou-o a ideia de uma sociedade na qual coubessem os loucos e, por afinidade, as modalidades de diferença.
Em setembro de 1943, ingressou como bolsista na Universidade de Columbia em Nova York. Pretendia ser advogado trabalhista, mas logo descobriria novos focos de interesse. Em dezembro daquele ano, tornou-se amigo de Lucien Carr, instalado no mesmo alojamento, ao entrar em seu quarto atraído pelo som de um quinteto de Brahms na vitrola. Dois anos mais velho que Ginsberg, atraente, sofisticado, leitor de Rimbaud, Carr havia sido desligado de duas outras universidades e frequentava a boemia nova-iorquina de artistas e intelectuais, estudantes, músicos de jazz, drogados e delinquentes. Adotou Ginsberg e o introduziu nesse circuito. Naquele final de 1943, já o apresentou a William Burroughs. E, em maio do ano seguinte, a Jack Kerouac, um jovem marinheiro e ex-jogador de rugby em Columbia, expulso da universidade em 1942, e da Marinha de Guerra logo em seguida, diagnosticado como paranoico por sua resistência a aceitar ordens.
Kerouac nasceu em 1922, em Lowell, Massachusetts, em uma comunidade de canadenses. Sua primeira língua foi o kanuk, dialeto franco-canadense: só falaria o inglês na escola. O bilinguismo pode ter relação com sua escrita torrencial, com atenção para o som (a prosódia bop) e uma extraordinária extensão vocabular. Sua obra se distribui em dois veios: um, da recuperação do passado, como em Doctor Sax e Maggie Cassady; outro, da aventura, como em On the road (Pé na estrada), Lonesome traveller, The dharma bums. Seu primeiro livro, The town and the city, em uma escrita mais convencional, apesar de ter sido bem recebido, não impediu que On the road fosse recusado por sucessivas editoras até 1957. Naquela altura, alcoólatra, pouco à vontade na condição de celebridade, Kerouac iniciava a gradativa saída de cena até morrer precocemente em 1969. Ambivalente, dividido entre a formação católica e o impulso pela aventura, deixou uma obra desigual, revalorizada a partir de 1972, com a publicação póstuma do extenso Visions of Cody.
Parceiro de Carr em extensas noitadas, ao fim das quais este, insone, ia direto às aulas, Kerouac tornou-se o interlocutor e confidente de Ginsberg, em quem despertou imediata paixão. Entre 1944 e 48, desenvolveram uma relação de amizade erotizada e fizeram sexo três ou quatro vezes. Junto com Edie Parker, que logo se casaria com Kerouac, Joan Vollmer, amiga de Edie que por sua vez iria casar-se com Burroughs, e outras figuras, inclusive delinquentes amigos de Burroughs, esse foi o núcleo inicial da geração beat. A ele viriam, no final de 1946, Neal Cassady; em 1949, Carl Solomon; e, em 1950, Gregory Corso. Com a mudança de Ginsberg para San Francisco, em 1954, os beats teriam acréscimo de Peter Orlovsky, seu companheiro por décadas; e dos poetas da San Francisco Renaissance, com os quais fez a famosa leitura da Galeria Six em 13 de outubro de 1955: Philip Lamantia, Gary Snyder, Michael McClure, Philip Whalen; e, ainda, do poeta e editor Lawrence Ferlinghetti, que os publicou em sua City Lights.


Jack Kerouac, 1959 (Foto: John Cohen)

William Burroughs, o mais velho do grupo, nascido em 1914, foi, dos autores vinculados à beat, o mais radical na experimentação e o dono da biografia mais acidentada. Aliava uma bagagem literária considerável à atração pelo submundo. Leituras seminais, decisivas para a formação de Ginsberg e de Kerouac, vieram de recomendações dele. Tem especial interesse, na crônica beat, a relação íntima, às vezes antagônica e fóbica, de Burroughs, Kerouac e Ginsberg. Representaram, naquela constelação, astros em órbitas distintas: o idealismo messiânico de Ginsberg; a perda de rumos e crise de identidade em Kerouac; o niilismo de Burroughs.
Já em 1944, Ginsberg, Burroughs, Kerouac e Carr haviam resolvido desenvolver algo a que denominaram Nova Visão, embrião da contracultura. Suas principais fontes eram a noção da vidência como resultado do desregramento dos sentidos, de Rimbaud, e o misticismo visionário. Essa busca prosseguiu, mesmo depois da momentânea dispersão do grupo, pelo afastamento de Carr, depois de haver cometido um assassinato, ser preso e condenado, em agosto de 1944, provocando um escândalo e acarretando a detenção de Kerouac, por havê-lo ajudado a ocultar provas, e levando-o, ainda, a casar-se (o primeiro de três casamentos) com Edie Parker.
Somado às leituras, o outro vetor da Nova Visão era a experimentação com drogas. As peripécias dessas pessoas nesse ambiente, ao som da revolução musical promovida pelo jazz bop, estão, de modo alusivo, em Uivo e outros poemas de Ginsberg; e em obras à clef, baseadas em acontecimentos e personagens reais com nomes substituídos: Go de John Clellolm Holmes, Junkie e Queer de Burroughs, On the road (Pé na estrada), The subterraneans (Os subterrâneos), Vanity of DuluozVisions of cody e outras de Kerouac. E, mais tarde, em uma torrente de estudos biográficos.
O grupo de perseguidores da Nova Visão distinguiu-se não só pela intensidade, mas pela alta voltagem literária. Projetaram em seu comportamento os autores que liam. Chegaram a ser acusados de iletrados. Na verdade, foram um exemplo de crença extrema na literatura, atribuindo-lhe valor mágico ao tomarem-na como modelo de vida. Ao chegar a esse grupo no final de 1946, Neal Cassady foi um catalisador. O ex-menino de rua em Denver, Colorado, nascido em 1926, que teria roubado quinhentos carros, inspirou, por sua conversa exuberante, o estilo literário adotado por Kerouac, que chegou a gravar em fita diálogos com ele, transcrevendo-os em Visions of cody. Contribuiu também para que ingressassem em outra escala da vida sexual. Basta dizer que, na mesma noite, em janeiro de 1947, em que Cassady e Ginsberg se conhecerem, alojados no apartamento de Chase, tiveram relações. Até então, a vida sexual de Ginsberg havia sido intermitente e insatisfatória. As poucas vezes em que Kerouac teve relações com ele, havia sido a contragosto. Pode-se dizer que passou a fazer sexo para valer durante os três meses da estada de Neal em Nova York, mesmo partilhando-o com LuAnne Henderson.
Cassady promoveu episódios dignos de qualquer coisa entre a literatura licenciosa, a comédia de costumes e o drama. Um dos mais típicos, ao final da estada de Ginsberg em Denver em 1947, para reatar o relacionamento, encontrando-o, dessa vez, casado com Carolyn Robinson. Decidida a retornar à Califórnia, Carolyn foi ao apartamento de Cassady para despedir-se, apenas para, ao abrir a porta, encontrá-lo deitado em companhia de LuAnne e de Ginsberg, um de cada lado da cama. Situações do gênero, como os subsequentes triângulos envolvendo Kerouac e LuAnne, e Kerouac e Carolyn, alimentaram, depois de revelados por Ann Charters em 1973, biografias, crônicas, depoimentos e um filme – Heart beat (Os beatniks), de 1980, de John Byrum, com Nick Nolte, Sissy Spacek e John Heard. Quando Ginsberg se mudou para San Francisco, em 1954, Cassady, tomado pelo desejo, apesar de havê-lo rejeitado por várias vezes nos sete anos anteriores, seguiu-o. O desfecho foi uma relação com noitadas coletivas que, admitiu Ginsberg, foram o máximo da devassidão a que chegou.


Allen Ginsberg, 1973 (Foto: Getty Images)

A outra contribuição de Cassady, além de erotizar relacionamentos e praticar o fluxo de consciência na expressão verbal, foi estimulá-los, a Ginsberg e a Kerouac, às viagens. Forneceu o substrato para obras “de estrada”, que associaram a beat à vida errante, percorrendo os Estados Unidos, com extensões ao México. Em On the road, é Dean Moriarty, além de ser o Cody Pomeray de Visions of cody e outras três narrativas, e Ginsberg é Carlo Marx.
Ginsberg, conforme revela seu biógrafo Barry Miles, mesmo homossexual, teve casos com mulheres. Relacionou-se com Elise Cowen, amiga da escritora Joyce Johnson, por sua vez namorada de Kerouac em 1958. O cruzamento de relações com mulheres de Ginsberg e Kerouac não termina aí. Ginsberg fez a corte a Joan Haverty, que em seguida se casou com Kerouac e acabou tendo uma filha, Jan. Em Memoirs of a beatnik, de Dianne di Prima, há páginas de literatura libertina, como o relato de uma orgia, já em 1956, com a participação de Ginsberg, Orlovsky e Kerouac. Dá a entender que tudo o que é narrado pode ser autobiográfico ou ficção. Barry Miles não apenas confirma o relato, mas observa que, ao longo da prolongada relação de Ginsberg e Orlovsky, sessões a três, acompanhados por uma mulher, e orgias, foram uma conduta regular.
Tudo isso não é petite histoire. Corresponde ao pansexualismo, atribuindo alcance político e peso ontológico ao sexo. Para Ginsberg, seu desejo por Kerouac teria como resultado a transformação de ambos em uma só entidade. A sacralização do sexo avançaria na década de 1950, com sessões de tantrismo sob orientação de Gary Snyder. No entanto, coexistia com a libertinagem, principalmente nos encontros com Cassady. E em episódios burlescos: convidado por Harvard para dar oficinas literárias, em 1964, Ginsberg teve de deixar os alojamentos dessa universidade por causa das orgias que promovia. Em carta ao poeta Robert Creeley, comentou que a temporada em Harvard havia sido ótima por assemelhar-se às farras de ambos, nas mesmas circunstâncias, em encontros sobre poesia na universidade de Vancouver em 1963. Em 1980, Ginsberg ainda se mostraria capaz de provocar espanto ao defender, em entrevista ao Washington Post, sexo com alunos de oficinas literárias, fazendo um paralelo com o simpósio socrático e afirmando que tais práticas deviam ser institucionalmente encorajadas.
O desregramento, historicamente, não apresenta nada de novo. Mas nunca, antes, havia sido tão coletivo. Em dez anos, da metade dos anos 1940 à metade dos anos 1950, todos os integrantes do grupo nova-iorquino da beat tiveram envolvimentos diretos, pois Ginsberg também dormiu com Burroughs e com Gregory Corso, assim que o conheceu, ou indiretos, partilhando parceiros, como na relação de Kerouac e Corso com “Mardou Fox”, núcleo narrativo de Os subterrâneos. Isso permite falar em revolução sexual, não só por sua amplidão, mas pela coragem de fazer tais coisas virem a público, em vez de varrê-las para baixo do tapete. Ao transitarem com naturalidade do misticismo ao cinismo, do amor sublime ao deboche, contribuíram para um ethos menos vitoriano. Davam sua reposta ao panorama de uma época cinzenta, quando, não só nos Estados Unidos mas no resto do mundo, na esfera do capitalismo e do comunismo, vigoravam o controle da cultura, da vida sexual e dos demais aspectos da conduta.
Cosmopolita por descender de imigrantes, pelo ambiente multicultural de Nova York, Ginsberg agia como cidadão do mundo. Antes dos atuais meios de telecomunicação, seu habitat, seu espaço vital, já era, não a cidade, a província ou o país, mas o planeta. Isso permite entender melhor como ele e Kerouac acabaram por defender valores e ideologias antagônicos, por mais que Ginsberg jamais deixasse de ser seu defensor. É como se Ginsberg representasse um movimento de expansão, progressivo, em direção ao mundo; e Kerouac o impulso oposto, regressivo, para a família e a cidade natal, buscando recuperar a infância perdida. Ginsberg vislumbrava uma sociedade aberta, plural, em um mundo sem fronteiras. Kerouac, ao contrário, queria um mundo aberto, com fronteiras a ultrapassar, e uma sociedade fechada, a exemplo da comunidade católica de franco-canadenses e gregos na qual crescera, com cujos remanescentes escolheu passar seus últimos anos. Daí sua intolerância, não só política, mas racial, tornado paradoxal a relação com Ginsberg. Os dois movimentos, o regressivo, proustiano, e o progressivo, de vanguardistas revolucionários, são produtivos. Correspondem à recusa do que está aí: e a vida de inúmeros escritores é um oscilar ambivalente entre esses pólos.

Relações Beatniks, paper do Claudio Willer, poeta, ensaísta e tradutor de Uivo, de Allen Ginsberg, dentre outros trabalhos, acaba de lançar o livro de poesia Estranhas experiências (Editora Lamparina)


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