Wednesday, May 24, 2017

hatha yoga (yôga é o meu cacete!) ou o descanso da mexicana

tenho uma relação dúbia com a fotografia. talvez porque ainda adolescente ouvi uma conversa, não me lembro mais onde, que os índios não gostavam de fotos, porque acreditavam que elas roubavam a alma.

anos mais tarde, vi um filme sobre o jim morrison, com o val kimmer, estupendo no papel, onde a mensagem era repetida. pronto, ficou. 

não gosto de ser fotografado, muito embora tenha uma admiração enorme pela fotografia, reconhecendo nela, um poderio inimaginável, em muito superior as "imagens em movimento". por que a fotografia capta e paralisa a vida em momentos que jamais seriam percebidos - com honrosas exceções - e talvez por isso mesmo tão bela e tão terrível.

derivações à parte, muito embora tenha lá minhas vontades, não fotografo meus companheiros de jornada - cães, gatos, etc - com exceções muito aleatórias. as vezes, arrependo-me, pois perdi a conta dos que estiveram comigo e que, acontece, fui esquecendo, nomes e fisionomias - mas nunca esqueço do olhar, se me lembro, de vários deles, principalmente em seus últimos momentos.

eis que um dia fotografei a mexicana, com um celular vagabundo, daqueles que comprometem o utilizador frente a cloaca que se diz fauna das redes socais. depois do que aqui falei, nada mais a acrescentar.




Tuesday, April 18, 2017

no seu "cântico negro, régio este josé *


“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.

— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu te
nho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
*José Régiopseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, (Vila do Conde17 de Setembro de 1901 — Vila do Conde22 de Dezembro de 1969) foi um escritorpoetadramaturgoromancistanovelistacontistaensaístacronistacríticoautor de diáriomemorialistaepistológrafo e historiador da literatura português, para além de, fundador, editor e director da influente revista literária Presençadesenhadorpintor, e grande conhecedor e coleccionador de arte sacra e popular. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Tem uma biblioteca e uma escola secundária com o seu nome em Vila do Conde.
Com o livro de estréia — “Poemas de Deus e do Diabo” (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos. Cântico Negro é considerado, por alguns, seu mais belo poema.

Nota do blog: encontramos diversas interpretações do poema. entre tantas, a do próprio autor, a de joão villaret, maria bethânia(versão 1982 e mais atual) a de paulo gracindo e outros "monstros" conhecidos. optamos por postar aquela que foge do over-acting(caso de villaret, que muitos confundem com gradeza emotiva)que costuma açoitar os declamadores. às vezes, aqueles que nos falam mais baixo é que nos fazem escutar mais alto. nem sei se este seria o caso, mas é fato que nesta versão, o poema, o poeta, e não o declamador, sem demérito para o próprio, assim o fazem, pelo menos aos meus ouvidos moucos a tantos outros gritos.

Thursday, April 06, 2017

talvez\o imperador do nada



talvez escreva canção \como se deve\ ou como não se deve\ mas canção onde se saiba\ que o talvez nunca deve nada a ninguém

talvez na canção\ amor se descreva bem\ no corte onde se inscreve o talvez\ tão displicente ao tempo\ tão descrente ao vento\do que lhe traria um tanto\ talvez que tanto talvez\ amor tenha preferido ir embora para pasárgada\ bem na hora da sua tez

talvez escreva canção\ para alguém de voz pequena\que seja\ contanto que de pequena louça\de pequena poça\pequeno vaso\ talvez açucena\ da apenas flor\ falsetes bálsamos\que não há caule para graves e agudos de si tão enfastiados\ joanetes nos fa(r)dos e nos tangos\versos esculpidos e escarrados de mesma dor \

talvez de poucos acordes\ canção\ que desperte mais que um toque\ um certo roque\ sem  talvez nem por quê \apenas canção para os que até cantam bem e nada tem\ 

talvez\escreva canção\ sem vez\sem sal\ sem açúcar\sem olhos\e sem boca\ apenas tal e qual\ rosto disforme em verso e prosa \ reverso de quem foi meu bem\e chega de ferida calo\ tanta planta outra\ no teu rasgo\ não importa a quem\que a canção\que mente ó poeta\ desmente\ a semente do para sempre\e do momento demente\ para além do pente\ ou da ponte zen\

talvez escreva canção para lembrar\ o que se deve\ ou o que não se deve\ ou talvez escreva canção apenas pra lembrar de esquecer \quem sabe\ um dia\talvez sim\ talvez não\talvez nunca\ pra quem talvez chegue\ pra mim chega de talvez


Friday, March 24, 2017

fazendo as contas, o que , ao fim das contas, é o que a maioria de nós passa fazendo a vida

que a vida é um encontro ou um acerto de contas,  o tal somatório de perdas e ganhos - ou ainda, para alguns, apenas alfarrábio de perdas e danos - isso todo mundo sabe.

o que não percebe esta vã filosofia é que, na matemática da vida - na verdade aritmética - feitas as contas, resultados soam diferentes. pois os ganhos trazem perdas, e as perdas, trazem ganhos.

é essa nossa falta de familiaridade com tais números que nos faz destemperar a vida com um sofrer, que nas consequências é morrer antes da hora(contas, contas, contas), sem gozar as gargalhadas, um pinico que seja, da tal felicidade, que é sempre um número primo, nunca par. por isso, aquela história de que "fundamental é mesmo o amor, e que é impossível ser feliz sozinho", não bate com estas contas.

não vá você agora querer bater de encontro ao (a)mar.


Thursday, March 16, 2017

quem quer brincar de jack kerouac? ou jack sparrow não é páreo para este jack





Relações beatniks
 Ginsberg e Kerouac mantiveram, durante anos, uma amizade erotizada, entre o recolhimento e a expansão pelo mundo

Allen Ginsberg nasceu em Newark, Nova Jersey, em 1926, filho de Louis e Naomi Ginsberg, ambos de famílias de judeus russos emigrados. Seu pai foi poeta e professor de literatura. Sua mãe passou boa parte da vida internada, vítima de esquizofrenia paranoica. Por isso, a infância e a juventude de Ginsberg foi difícil e dolorosa. Cresceu, contudo, em um ambiente culto e politizado. O drama familiar contribuiu para sua simpatia pela loucura e excentricidade. Orientou-o a ideia de uma sociedade na qual coubessem os loucos e, por afinidade, as modalidades de diferença.
Em setembro de 1943, ingressou como bolsista na Universidade de Columbia em Nova York. Pretendia ser advogado trabalhista, mas logo descobriria novos focos de interesse. Em dezembro daquele ano, tornou-se amigo de Lucien Carr, instalado no mesmo alojamento, ao entrar em seu quarto atraído pelo som de um quinteto de Brahms na vitrola. Dois anos mais velho que Ginsberg, atraente, sofisticado, leitor de Rimbaud, Carr havia sido desligado de duas outras universidades e frequentava a boemia nova-iorquina de artistas e intelectuais, estudantes, músicos de jazz, drogados e delinquentes. Adotou Ginsberg e o introduziu nesse circuito. Naquele final de 1943, já o apresentou a William Burroughs. E, em maio do ano seguinte, a Jack Kerouac, um jovem marinheiro e ex-jogador de rugby em Columbia, expulso da universidade em 1942, e da Marinha de Guerra logo em seguida, diagnosticado como paranoico por sua resistência a aceitar ordens.
Kerouac nasceu em 1922, em Lowell, Massachusetts, em uma comunidade de canadenses. Sua primeira língua foi o kanuk, dialeto franco-canadense: só falaria o inglês na escola. O bilinguismo pode ter relação com sua escrita torrencial, com atenção para o som (a prosódia bop) e uma extraordinária extensão vocabular. Sua obra se distribui em dois veios: um, da recuperação do passado, como em Doctor Sax e Maggie Cassady; outro, da aventura, como em On the road (Pé na estrada), Lonesome traveller, The dharma bums. Seu primeiro livro, The town and the city, em uma escrita mais convencional, apesar de ter sido bem recebido, não impediu que On the road fosse recusado por sucessivas editoras até 1957. Naquela altura, alcoólatra, pouco à vontade na condição de celebridade, Kerouac iniciava a gradativa saída de cena até morrer precocemente em 1969. Ambivalente, dividido entre a formação católica e o impulso pela aventura, deixou uma obra desigual, revalorizada a partir de 1972, com a publicação póstuma do extenso Visions of Cody.
Parceiro de Carr em extensas noitadas, ao fim das quais este, insone, ia direto às aulas, Kerouac tornou-se o interlocutor e confidente de Ginsberg, em quem despertou imediata paixão. Entre 1944 e 48, desenvolveram uma relação de amizade erotizada e fizeram sexo três ou quatro vezes. Junto com Edie Parker, que logo se casaria com Kerouac, Joan Vollmer, amiga de Edie que por sua vez iria casar-se com Burroughs, e outras figuras, inclusive delinquentes amigos de Burroughs, esse foi o núcleo inicial da geração beat. A ele viriam, no final de 1946, Neal Cassady; em 1949, Carl Solomon; e, em 1950, Gregory Corso. Com a mudança de Ginsberg para San Francisco, em 1954, os beats teriam acréscimo de Peter Orlovsky, seu companheiro por décadas; e dos poetas da San Francisco Renaissance, com os quais fez a famosa leitura da Galeria Six em 13 de outubro de 1955: Philip Lamantia, Gary Snyder, Michael McClure, Philip Whalen; e, ainda, do poeta e editor Lawrence Ferlinghetti, que os publicou em sua City Lights.


Jack Kerouac, 1959 (Foto: John Cohen)

William Burroughs, o mais velho do grupo, nascido em 1914, foi, dos autores vinculados à beat, o mais radical na experimentação e o dono da biografia mais acidentada. Aliava uma bagagem literária considerável à atração pelo submundo. Leituras seminais, decisivas para a formação de Ginsberg e de Kerouac, vieram de recomendações dele. Tem especial interesse, na crônica beat, a relação íntima, às vezes antagônica e fóbica, de Burroughs, Kerouac e Ginsberg. Representaram, naquela constelação, astros em órbitas distintas: o idealismo messiânico de Ginsberg; a perda de rumos e crise de identidade em Kerouac; o niilismo de Burroughs.
Já em 1944, Ginsberg, Burroughs, Kerouac e Carr haviam resolvido desenvolver algo a que denominaram Nova Visão, embrião da contracultura. Suas principais fontes eram a noção da vidência como resultado do desregramento dos sentidos, de Rimbaud, e o misticismo visionário. Essa busca prosseguiu, mesmo depois da momentânea dispersão do grupo, pelo afastamento de Carr, depois de haver cometido um assassinato, ser preso e condenado, em agosto de 1944, provocando um escândalo e acarretando a detenção de Kerouac, por havê-lo ajudado a ocultar provas, e levando-o, ainda, a casar-se (o primeiro de três casamentos) com Edie Parker.
Somado às leituras, o outro vetor da Nova Visão era a experimentação com drogas. As peripécias dessas pessoas nesse ambiente, ao som da revolução musical promovida pelo jazz bop, estão, de modo alusivo, em Uivo e outros poemas de Ginsberg; e em obras à clef, baseadas em acontecimentos e personagens reais com nomes substituídos: Go de John Clellolm Holmes, Junkie e Queer de Burroughs, On the road (Pé na estrada), The subterraneans (Os subterrâneos), Vanity of DuluozVisions of cody e outras de Kerouac. E, mais tarde, em uma torrente de estudos biográficos.
O grupo de perseguidores da Nova Visão distinguiu-se não só pela intensidade, mas pela alta voltagem literária. Projetaram em seu comportamento os autores que liam. Chegaram a ser acusados de iletrados. Na verdade, foram um exemplo de crença extrema na literatura, atribuindo-lhe valor mágico ao tomarem-na como modelo de vida. Ao chegar a esse grupo no final de 1946, Neal Cassady foi um catalisador. O ex-menino de rua em Denver, Colorado, nascido em 1926, que teria roubado quinhentos carros, inspirou, por sua conversa exuberante, o estilo literário adotado por Kerouac, que chegou a gravar em fita diálogos com ele, transcrevendo-os em Visions of cody. Contribuiu também para que ingressassem em outra escala da vida sexual. Basta dizer que, na mesma noite, em janeiro de 1947, em que Cassady e Ginsberg se conhecerem, alojados no apartamento de Chase, tiveram relações. Até então, a vida sexual de Ginsberg havia sido intermitente e insatisfatória. As poucas vezes em que Kerouac teve relações com ele, havia sido a contragosto. Pode-se dizer que passou a fazer sexo para valer durante os três meses da estada de Neal em Nova York, mesmo partilhando-o com LuAnne Henderson.
Cassady promoveu episódios dignos de qualquer coisa entre a literatura licenciosa, a comédia de costumes e o drama. Um dos mais típicos, ao final da estada de Ginsberg em Denver em 1947, para reatar o relacionamento, encontrando-o, dessa vez, casado com Carolyn Robinson. Decidida a retornar à Califórnia, Carolyn foi ao apartamento de Cassady para despedir-se, apenas para, ao abrir a porta, encontrá-lo deitado em companhia de LuAnne e de Ginsberg, um de cada lado da cama. Situações do gênero, como os subsequentes triângulos envolvendo Kerouac e LuAnne, e Kerouac e Carolyn, alimentaram, depois de revelados por Ann Charters em 1973, biografias, crônicas, depoimentos e um filme – Heart beat (Os beatniks), de 1980, de John Byrum, com Nick Nolte, Sissy Spacek e John Heard. Quando Ginsberg se mudou para San Francisco, em 1954, Cassady, tomado pelo desejo, apesar de havê-lo rejeitado por várias vezes nos sete anos anteriores, seguiu-o. O desfecho foi uma relação com noitadas coletivas que, admitiu Ginsberg, foram o máximo da devassidão a que chegou.


Allen Ginsberg, 1973 (Foto: Getty Images)

A outra contribuição de Cassady, além de erotizar relacionamentos e praticar o fluxo de consciência na expressão verbal, foi estimulá-los, a Ginsberg e a Kerouac, às viagens. Forneceu o substrato para obras “de estrada”, que associaram a beat à vida errante, percorrendo os Estados Unidos, com extensões ao México. Em On the road, é Dean Moriarty, além de ser o Cody Pomeray de Visions of cody e outras três narrativas, e Ginsberg é Carlo Marx.
Ginsberg, conforme revela seu biógrafo Barry Miles, mesmo homossexual, teve casos com mulheres. Relacionou-se com Elise Cowen, amiga da escritora Joyce Johnson, por sua vez namorada de Kerouac em 1958. O cruzamento de relações com mulheres de Ginsberg e Kerouac não termina aí. Ginsberg fez a corte a Joan Haverty, que em seguida se casou com Kerouac e acabou tendo uma filha, Jan. Em Memoirs of a beatnik, de Dianne di Prima, há páginas de literatura libertina, como o relato de uma orgia, já em 1956, com a participação de Ginsberg, Orlovsky e Kerouac. Dá a entender que tudo o que é narrado pode ser autobiográfico ou ficção. Barry Miles não apenas confirma o relato, mas observa que, ao longo da prolongada relação de Ginsberg e Orlovsky, sessões a três, acompanhados por uma mulher, e orgias, foram uma conduta regular.
Tudo isso não é petite histoire. Corresponde ao pansexualismo, atribuindo alcance político e peso ontológico ao sexo. Para Ginsberg, seu desejo por Kerouac teria como resultado a transformação de ambos em uma só entidade. A sacralização do sexo avançaria na década de 1950, com sessões de tantrismo sob orientação de Gary Snyder. No entanto, coexistia com a libertinagem, principalmente nos encontros com Cassady. E em episódios burlescos: convidado por Harvard para dar oficinas literárias, em 1964, Ginsberg teve de deixar os alojamentos dessa universidade por causa das orgias que promovia. Em carta ao poeta Robert Creeley, comentou que a temporada em Harvard havia sido ótima por assemelhar-se às farras de ambos, nas mesmas circunstâncias, em encontros sobre poesia na universidade de Vancouver em 1963. Em 1980, Ginsberg ainda se mostraria capaz de provocar espanto ao defender, em entrevista ao Washington Post, sexo com alunos de oficinas literárias, fazendo um paralelo com o simpósio socrático e afirmando que tais práticas deviam ser institucionalmente encorajadas.
O desregramento, historicamente, não apresenta nada de novo. Mas nunca, antes, havia sido tão coletivo. Em dez anos, da metade dos anos 1940 à metade dos anos 1950, todos os integrantes do grupo nova-iorquino da beat tiveram envolvimentos diretos, pois Ginsberg também dormiu com Burroughs e com Gregory Corso, assim que o conheceu, ou indiretos, partilhando parceiros, como na relação de Kerouac e Corso com “Mardou Fox”, núcleo narrativo de Os subterrâneos. Isso permite falar em revolução sexual, não só por sua amplidão, mas pela coragem de fazer tais coisas virem a público, em vez de varrê-las para baixo do tapete. Ao transitarem com naturalidade do misticismo ao cinismo, do amor sublime ao deboche, contribuíram para um ethos menos vitoriano. Davam sua reposta ao panorama de uma época cinzenta, quando, não só nos Estados Unidos mas no resto do mundo, na esfera do capitalismo e do comunismo, vigoravam o controle da cultura, da vida sexual e dos demais aspectos da conduta.
Cosmopolita por descender de imigrantes, pelo ambiente multicultural de Nova York, Ginsberg agia como cidadão do mundo. Antes dos atuais meios de telecomunicação, seu habitat, seu espaço vital, já era, não a cidade, a província ou o país, mas o planeta. Isso permite entender melhor como ele e Kerouac acabaram por defender valores e ideologias antagônicos, por mais que Ginsberg jamais deixasse de ser seu defensor. É como se Ginsberg representasse um movimento de expansão, progressivo, em direção ao mundo; e Kerouac o impulso oposto, regressivo, para a família e a cidade natal, buscando recuperar a infância perdida. Ginsberg vislumbrava uma sociedade aberta, plural, em um mundo sem fronteiras. Kerouac, ao contrário, queria um mundo aberto, com fronteiras a ultrapassar, e uma sociedade fechada, a exemplo da comunidade católica de franco-canadenses e gregos na qual crescera, com cujos remanescentes escolheu passar seus últimos anos. Daí sua intolerância, não só política, mas racial, tornado paradoxal a relação com Ginsberg. Os dois movimentos, o regressivo, proustiano, e o progressivo, de vanguardistas revolucionários, são produtivos. Correspondem à recusa do que está aí: e a vida de inúmeros escritores é um oscilar ambivalente entre esses pólos.

Relações Beatniks, paper do Claudio Willer, poeta, ensaísta e tradutor de Uivo, de Allen Ginsberg, dentre outros trabalhos, acaba de lançar o livro de poesia Estranhas experiências (Editora Lamparina)


  1. dis

Tuesday, March 14, 2017

um quase enem pro social




certas vezes chego a ficar um tanto ou quanto irritado com a composição desta ruela do facebook, em que certa culpa que me cabe pelos paralepípedos e cerâmicas incrustadas. aqui e ali, há sim, azulejos de valor. mas então me vejo turrão e mais que isso limitado.isto aqui até que é divertido(bom demais já seria exagero) reformulo e rearranjo a irritação. mais parece uma seleção do boninho para o bbb. não vou encaixotar os tipos, tipo geeks, barbies, nerds cincoentões, desavisados, papa-angús, e toda a fauna porque é muito fácil ver quem é quem e seus predicados. quanto a mim nesta pedraria toda qual o meu papel? acho que sou seixo. mas não no-ie ou noé. são nestas pequenas coisas que somos reprovados no teste da convivência com a diversidade e onde nossa tolerância fica auto-imune, o que não significa que devamos aceitar tudo e a todos impunemente. vamos ver agora se na recuperação eu passo. mas vai ser raspando, disto tenho certeza.

Monday, February 27, 2017

talvez o único cala-a-boca que uma mulher deve fazer por merecer

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.


Gosto de ti quando calas porque estás como ausente
Distante e dolorosa como se tivesses morrido
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.
(soneto 15, pablo neruda)

Tuesday, February 21, 2017

e tudo passa, tudo passará


é certo que na vida tudo passa. passam as graças e desgraças. as guerras e epidemias. a bonança e os amores. o fútil e o essencial. os deuses e os contrários. 
mas para a maioria dos viventes tudo passará somente quando você "passar desta para melhor". seja porque o ciclo de duração é longo, e portanto bem maior que que o ciclo da vida humana, ou seja porque os males estão nada mais nada menos do que em você, e só cessarão quando você cessar já que você não os cessa.
e isto é o que verdadeiramente nos deveria deixar "passados" para trás em qualquer caminho que estejamos trilhando. 

Sunday, February 19, 2017

quase shakesperiano ou seria becktteriano ? ou até bacteriano, quem duvidaria ?





"existe o tempo de escrever - mas não o contrário disso" (Ricardo Aleixo em "Impossível como nunca ter tido um rosto")

Friday, February 17, 2017

duas simones

talvez seja porque amo demais, quis dar mais do que aquilo que você podia receber. e,quando somos sinceros, dar é uma maneira de exigir. simone de beauvoir

Wednesday, February 01, 2017

até tu, heterônimo ?

Resultado de imagem para fernando pessoa
Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Colhe o Dia, porque És Ele, Ricardo Reis(Heterônimo de Fernando Pessoa)in “Odes”

Sunday, January 29, 2017

o lado azul de bukowski



“Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?”
Pássaro azul de Charles Bukowski

Sunday, January 22, 2017

um conto da hora ? ( a modéstia me impede de dizer que sim ou que não) *






levei pilhinha no bolso. bazar de mercadorias com pequenas avarias – desde quando uma avaria é pequena? sentimental então é rombo - ; nada que me interessasse de imediato. mas pera ai? aqueles relógios de parede grandes e coloridos e olha o design dos números com cara de macarrão derretido. gostei. avarias, bem, vamos lá testar. um dois três, testando, não funciona, lascado trincado, vidro solto, funciona não funciona, funciona. oba! já levei o azul. mas tem verde e laranja trator. vamos testar. um dois três testando. funciona não funciona. ponteiro solto, máquina solta, botões soltos, uma mais lascado do que o outro. acho que não vai dar. deu. primeiro o verde, depois o laranja. no caixa a moça avisa: - cê sabe que as máquinas tem um probleminha, tem de trocar. no brasil aprende-se que probleminha é eufemismo de problemão. é como chamar bundão de bundinha(isto é um eufemismo reverso, minha senhora) achando que a dona da bunda não vai ficar incomodada. sabe como é: se você chega dizendo que a mina tem um bundão ela senta mão na tua cara porque você chamou ela de gorda. mas se disser que ela tem uma bundinha ... leva um tapa na cara porque ela acha que você tá dizendo que ela não tem bunda, logo ela com aquele bundão enorme.
mas ai diante do probleminha, eu, todo esperto, disparo: na-na-nina. estão funcionando eu testei, eu trouxe a pilha, me achando o máximo, como todo otário, que se desmancha com o ar de desdém da moça que dispara: - ah! É, bem eu Tô avisando, não tem troca.




chego em casa, e radiografo as paredes. o azul no quarto, não que azul seja de rapaz, é que azul lembra céu, tranquilidade, enfim, o que é bom para o sono.
no corredor o laranja, tipo semáforo, que é para ser visto de longe e alertar que depois dele vem o vermelho do atraso. e o verde? nada ver com as verduras, na lateral da cozinha.
mas pera ai. hora de dormir e sobe o ruído de uma catraca, de onde será que vem este ruído de tortura que parece comprimir sabe-se lá o que de quem? do relógio azul. pombas! no som ambiente do bazar, não dava para perceber. mas aqui na tranquilidade do quarto, soa como mastigado de amendoim. e os outros, nada, silenciosos e cumpridores irretocáveis na sua função de medir o tempo. então é simples: troco os relógios e acabou-se o probleminha(será que a moça do caixa tinha um bundinha ou um bundão, penso, pano rápido, enquanto troco o azul pelo verde.


e vamos aos sonos dos justos com tudo resolvido. súbito acordo no meio da noite, e nem um barulhinho, mas vê-se que os ponteiros estão movendo a catraca da vida muito embora você não perceba, salvo se for este o foco, o que não é o caso de quem queria dormir como um bebe – de onde raios tiraram esta expressão já que bebes não dormem parecendo mais uma catraca ensandecida com tanto choro e esperneio?


fui dormir e você me pergunta, dormiu bem? após trocar o azul pelo verde? e eu lhe respondo que não fiz  troca. é bom acordar e em vez de silêncio total ouvir algum barulho de vida que não seja o seu, ainda que seja o da catraca de um relógio de bazar com produtos com pequenas avarias.

são estas pequenas avarias, que não emitem sinais de vida fácil, que afinal vale a pena viver com e por elas, ainda mais que dormir com o silêncio total abafa qualquer possibilidade de vida para além do sonho da morte.



 * originalmente publicado no guardanaposdeescriturario.blogspot.com

Monday, January 16, 2017

Sunday, January 08, 2017

quando não é talento que lhe falta mas a fama, parabéns: você é mais um a viver o dilema de salter



antes que você se pergunte o que é salter - um dos dilemas da vida de muita gente,a ignorância sobre o que é realmente importante e o conhecimento, sequer absoluto, sobre o que não é, eu desenho: james salter foi, segundo a crítica e seus pares, um dos melhores escritores do século XX,(duvido que você seja capaz de citar um título dele - até pouco tempo eu também não sabia(ler já é outra história) mas que teve de lidar até o fim com a frustração de não ser famoso.

acontece que o tal dilema não é só o de salter mas de toda uma geração que, tendo algum talento, foi superada por uma geração esvaziada do dito cujo mas capaz de auto-valorizar-se a níveis massivos cultivando a imbecilidade, a estupidez, o vazio oco(isto não é pleonasmo, espero que você saiba o que é) num momento em que a possibilidade de instrução da humanidade nunca foi tão grande mas que paradoxalmente sua ferramenta panaceica finda por ser a caixa de pandora que descamba para as "redes bestiais" num caldo que é jorro de ódio, escárnio, fascismo, retrocesso, perseguição a tudo que for diferente do senso comum hegemônico, ou seja o chorume dos que apelam a deuses, família, moral, bons costumes, falsa correção política para garantir a sua volatilidade peidorrenta que se esgueira por entre a pulhice, a canalhice, as falsas crenças, tudo em nome, ora da fama, ora da manutenção do poder, que também é uma espécie de fama que, como a outra, também mata mas e mais para além do simbólico.

dilema, ora direis, quem não os tem? mas porra! dilema por não ter fama? fodido era por não ter talento, que parece não ser o dilema da cambada de autores que vendem milhares(o que já é muito para quem tem algum talento) ou milhões com as basbaquices de nada com coisa nenhuma enfeitadas em papel celofane que confere a merda aparência de chocolate.

enquanto isto, o trabalho meticuloso de alguns passa desapercebido quando não em branco. mas não seria isto uma espécie de reconhecimento, desde que evidentemente o talento bem haja, grife-se em bold? a perna manca do talento seria a sua sede de reconhecimento, e não pelos pares, mas pela ignaridade da massa? que não sabe a diferença entre broa e biscoito fino?


e se o dilema for a falsa questão de como reconhecer o verdadeiro talento? ora, ora, clamo por fedro, na ante-sala do zen e a manutenção de motocicletas quando a pergunta é feita: " o que é bom, e o que não é bom fedro? é preciso alguém para nos dizer isto ?

o dilema de salter foi ter sucumbido ao fracasso, não seu, mas da sua contemporaneidade. como já o disse mui bem nietzsche, alguns nascem póstumos. seria salter um deles? não é um dilema para quem fica, sequer para quem vai, a falsa angústia do serei enfim reconhecido? então viver é uma luta insana para o reconhecimento? 

a mim quero crer que não. faço o que posso e acredito. se for bom, ótimo, reconhecido, para mim nem tanto, uma merda, fazer o quê? fi-lo porque qui-lo, porque tive vontade e nenhum dilema. a vida- e a morte- ficam bem melhor assim, inclusive a vida dos escritores.




  • Como ficcionista, Salter construiu, ao longo de décadas, uma reputação por ser um narrador conciso e lírico, pouco conhecido do grande público, mas admirado – cultuado – por outros escritores e críticos literários. Muitos o colocavam entre os melhores do século XX. O epitáfio que mais circulou depois de sua morte no dia 19 de junho, aos 90 anos, foi uma descrição do jornalista Nick Paumgarten, num perfil de 2013 da mesma revista que não aceitara seu conto décadas antes. No artigo, Paumgarten diz que Salter não é um “escritor de escritores”, mas um “escritor de escritor de escritores” (a writer’s writer’s writer) ( O PARÁGRAFO ACIMA PERTENCE AO ARTIGO DE ALEJANDRO CHACOFF  http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-106/obituario/o-dilema-de-salter




Sunday, January 01, 2017

retrato do artista enquanto jovem

o apuro no vestir ainda mais apurado nos seus textos



aos 90 anos, "mais afiado do que nunca "

lamento informar-lhe caro leitor sobre o engano que o óbvio representa nesta página, para além do que nele escorrega a vida. 

o retrato do artista enquanto jovem não é o " estiloso" em p&b. o retrato do artista enquanto jovem é este mesmo do "vampiro de curitiba", o homem de boné algo estupefato com a câmera que, como alguns sabem, é um recluso e inimigo da exposição e de quem o revela - chegou a romper com amigos apenas por deram entrevista sobre ele(quer repente ou "piti" adolescente mais jovem?) e é simplesmente um dos, senão o maior escritor brasileiro vivo, muito vivo e tão jovem como nunca fomos dantes.

vir a este mundo e não ler dalton trevisan é muito mais que uma pixotada: é estar enterrado morto para além do pensamento vívido.