Sunday, May 17, 2015

último gole

numa homenagem póstuma ao b.b.king estava lá a legenda sob uma foto poderosa do king e sua lucille:ninguém que viveu 89 anos foi uma pessoa só ", referindo-se as diversas nuances do b.b. demarcadas em fases diferentes da sua longa vida.

bom, não acredito muito, no quesito longevidade, mas espero que se chegar aos 89 anos seja uma pessoa só. no sentido lato e estrito.

não serei mais ou menos triste por isso. não sou afeito a estas definições amargas da solidão na velhice: só é só e somente só quem não aprende que a vida é solidão delegada que assim é vivida justamente por não deixar-se ser um só). por isso, quero conservar-me inteiro, e de trincas apenas as que os anos terão e irão causar, sem que com isso queira dizer que fui um rochedo que jamais tremelicou.

acontece que num mundo que tudo e a todos muda, e que cobra a mudança como uma coerência benfazeja - enquanto a não mudança é vista como pura e burra teimosia - creio que haja algo de muito bom em não mudar, caso contrário não estariam todos incentivando mudanças à torto e a direito. sempre escudados na peremptória frase do "muda para melhor", que é a falácia na qual só os arrivistas acreditam - enquanto tudo a sua volta vai mudando copiosamente inclusive a sua maneira de ver o mundo, principalmente por conta da inevitável falência dos sentidos, assim espero, e não por mudanças do ponto de vista político e existencial, tais como renunciar a ser de esquerda, por que a esquerda esta na merda, ou aderir a direita porque é mais hoje "politicamente correto" no convívio social(eu não aconselharia você a ir a uma churrascaria e em alto e bom som declarar-se socialista - em compensação se disser que é socialista cristão ou de qualquer uma destas modalidades eleiçoeiras oportunistas não mais lhe enfiarão a calabresa cu a dentro e é bem possível que lhe paguem a sobremesa(a calabresa cu a dentro é exclusiva dos socialistas à rigor;)

isto posto, ser um só e estar um só é cada dia mais um privilégio que poucos aprendem a absorver e desfrutar, num mundo de efervescências tão consistentes quando suco em pó e onde as redes sociais revelam o homem na sua estupidez social e o quão rasteiro ele tende a ser quando a histeria da mudança esconde a mais importante - jamais feita - e revela a torpeza de todas as outras. tudo sempre na base das frases do tipo "a natureza ensina a mudar" ou só os tolos não mudam de ideia". parece-me que a natureza, pelo menos hoje em boa parte, foi estuprada a mudar por muita gente que hoje já começa - por medo ou de novo por oportunismo econômico - a querela imutável no sentido de não esgotamento de seus recursos e do mau humor que se revela nas mudanças climáticas decretadas por quem mudou - interesses econômicos - nosso modo de vida.

a vida que é de um ser só e de um só ser, é tal e qual como sorver um vinho especial(a esmagadora maioria jamais viverá este momento) que leva um tempo enorme para assim o ser(e sem mudanças) para que desta forma, no exato momento em que ele começa a ser bebido e em cujo "néctar" reconhecemos o seu verdadeiro sentido, começa ali mesmo a se acabar, tal e qual como foi vivida uma vida de quem foi um só como única ela deveria vir a ser.

quem viver muitas vidas, certamente viveu muito mais a vida dos outros e não a sua. uma vida que se tornou assim por dizer uma vida de refrigerante, repleta de gases por dentro e por fora.









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