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Sunday, August 31, 2014

receita da felicidade

três ou quatro gatos pingados. mas castre-os ou serão quatrocentos. ou dúzia ou o que seja de vira-latas, aparentemente pulguentos. mas só aparentemente. porquê ninguém é feliz com pulgas. sejam elas do tipo que for, inclusive as familiares. e desde que você tenha tempo para eles. ter animais e não ter tempo para eles, acredite, sei do que estou falando, é uma infelicidade.

uma casa pequena. na proporção das suas maiores necessidades. de janela para rua serve, mesmo se o bairro não tiver boa fama- que provavelmente não será melhor que a sua -  mas se jardim e quintal, passarinhos chegam. e vista pro mar espuma que nem champagne, mesmo que você lá não mergulhe. melhor ainda em "cidade do interior". e ainda melhor se nos arredores. quer chegar ao centro das coisas? não vá direto ao ponto. belisque os arredores(vale para o sexo também).

livros sim, mas não muitos, porque muitos livros dão alergia até em quem não os lê. só os essenciais: aqueles que você leu, releu e lerá, e aqueles que você nunca leu ou lerá porque estará sempre a espera do amanhã com mais tempo. leia os clássicos mas dê uma chance aos novos mesmo que eles não mereçam. é a melhor forma de recordar a juventude sem chorar.

discos na vitrola, mp3 ou o que for. mesmo critério. os pra lá de ouvidos, os nunca, mas neste caso cabe os nem tão ouvidos nem tão por ouvir. o estilo? convém não perder o bom gosto como se faz agora. nem tão modernos, nem tão passados. os clássicos vão bem neste caso. mas lembre-se clássico é um período da música erudita, estou me referindo aos vintages da música popular. no caso da erudita, prefira "os allegro ma non troppo". idem para decoração do lugar. menos é mais. menos na dispensa, porque lá o menos é nada. e o mais você come e logo se torna menos. e menos mal será se o fizer com uma certa moderação, principalmente aos domingos e feriados, que são dias tão infelizes-apesar de parecem o contrário - que se come pelo tédio.


no bolso, idem. sem excessos. mas sem faltas. neste caso convém um dinheirinho a mais para um moscatel de setubal ou algo que o valha. a bebida; sim é um veneno. mas a felicidade também o é. por isso a graça é envenenar-se aos pouquinhos e nunca de vez em quando aos borbotões. dá ressaca. ressaca de felicidade é pior que bebida.mas aos pouquinhos você vai longe sem maiores dores de cabeça ou de coluna.

arranje alguma coisa para fazer. melhor arranje duas. uma delas que você termine no mesmo dia ou na mesma noite. e a outra que teste sua paciência e perseverança. esqueça aquela baboseira de perseguir o sonho. e que sonhos não envelhecem, não morrem jamais. morrem. e você morrerá ainda mais infeliz se não tiver a capacidade de sonhar novos sonhos todos os dias. mas tome um certo cuidado porque sonho é para quem dorme, no ponto principalmente. e como a morte não passa de um sonho profundo que torna-se pesadelo porque sempre queremos acordar. então convenhamos que sonhar nem acordado.

no mais, seja simples mas não seja simplório. alimente o complexo mas não o de fachada. e aprenda a tocar um instrumento, nem que seja assobio. mas por favor não faça isso na frente dos outros. é uma coisa desgraçada a gente levar a felicidade no bico principalmente na frente dos outros.

por isso você pode assoviar lindamente dentro de um fusca, uma velha kombi, ou jipe que também fazem parte da receita da felicidade(o tempero das estradas por onde andar você mesmo coloca). nestes casos,  mesmo sobre rodas é como se estivesse caminhando ao encontro da felicidade, só poderia, ora bolas! ninguém caminha assobiando para lugar nenhum.

https://www.youtube.com/watch?v=57oEAHH-LrQ

in tempo: você pode perguntar ou ter estranhado a falta de um amor - ou de amores - na receita da felicidade. afinal, como já dizia o compositor, "fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho". como não sou poeta mas sim um "poetastre", direi que se a sua felicidade depende mesmo de alguém, então você está fodido e mal pago. o amor, é certa a coisa, é ama te, fiel mesmo, é da infelicidade. felicidade,  no caso, é apenas mais um ficante.

Friday, February 17, 2012

mapas da cidade

as avenidas do seu coração sempre findavam em ruelas e becos cheias de gatos em escamas a se entreolhar sem ronronos para a sorte ou o azar.

Friday, September 09, 2011

sete vidas ou aos retardatários




da minha quadra alguns, da rua vizinha muitos. habituam-se rápido as porções, que julgo generosas, de ração e leite que deposito na calçada,sempre acompanhadas de afagos e uma boa dose de conversa para manter os assuntos em dia.

há dias em que por um motivo ou outro atraso .e isso me preocupa bastante. principalmente aos domingos, que é um dia de mais fome para os largados gatos, pois não há recolha de lixo e portanto nada para remexer e comer.a despeito do tempo que esboroa quando chego tarde estão lá dispostos nos lugares de sempre marcados por eles mesmo a minha revelia. quando não, levantando-me em torno da meia noite lá estão e o ritual procede.quando some algum - e somem muitos - penso:- como será quando eu sumir? se eles que tem sete vidas esfumaçam-se num repente, que do meu repente será o tempo de espera para os gatos que não tem sete vidas certamente para ficar esperando por mim que as vezes pego-me iludindo como dono de apenas uma vida que mesmo esta finda continuará a chegar para alimentá-los para toda a nossa fome de conversas de sempre.