viagens,rotas e destinos.pirambeiras,becos e ruelas.
atalhos e picadas.portas,pontilhões e ponta-pés.
vida trilhada à pele.enfim,um blog que coleciona topadas e joanetes a procura da reflexologia podal.
talvez por educação formal (e informal) da profissão - sou redator antes de tudo - não me deixo levar, tampouco impressionar, ou sensibilizar, pelo lugar comum, pelo déjà vu, pelas frases feitas, pelos bordões, dito populares, pelas figuras de linguagem, analogias de camelô, metonímias rasteiras, sobretudo abomino eufemismos, e metáforas rasas, cacofonias e pleonasmos então? nem vou aprofundar. pois bem, quando se trata de amor, minha nossa! o repertório do que detesto promete. começa e finda pela bucha do "coração partido", que ninguém merece mais. o coração, tal como o sabemos, não é lá orgão que se preste a partição, sendo isto figura ou não. o coração esbagaça-se, desmancha-se, entumesce, deteriora-se, mas sua partição é algo que dificilmente acontece na natureza dos fatos. mesmo que ele leve um tiro de calibre 50(ou machadada) vai pro caralho, mas não se parte em bandas, tal como imaginam músculo bovino semi-congelado, retalhado em açougue. pode até ser fatiado por algum serial killer gourmand. mas partir? no sentido de quebrar em partes contadas ou como estilhaços de cofrinho ou quebra-panelas, eis o improvável batendo forte por aqui. então, porque raios cristalizou-se esta patologia poética do "coração partido" quando se fala de amores inconclusos, perdidos ou das tristezas do abandono? puro eufemismo meu caro, olha ele por aqui. quando se trata de dores de amor, elas não vem do coração. vem de algo bem mais terrível e doloroso: vem da quebra da coluna vertebral, a espinha dorsal que fica engasgada, muitas vezes para o resto da sua vida, em vários lugares que não o dela. e a quebra da coluna vertebral você já pode imaginar os estragos decorrentes. menor delas a dificuldade de retomar outra vez o passo. coração, até por transplante se dá um jeito. já coluna, quando quebra, por porrada, mal-jeito ou por conta de amores interditos ou não, eis o ser humano fragmentado, quando não paralisado, tetraplégico de emoções, e de uma forma dolorosa a tal ponto que faz parecer que as dores do coração tão decantadas, não passem de dormência passageira. frida é kahlo é única, porque viveu na coluna a nossa percepção eufemística de tais dores. e foi direta ao ponto. expondo a fragmentação de uma vida dolorosa, por questões de saúde, e de amores, vivida de forma algoz em que a dor tornou-se catapulta para a explosão artística, onde a beleza emergiu da tragédia de suas dores em multi-coloridas formas cuja partenogênse foram a poliomielite e mais tarde amputação da perna em consequência. bem disse o veloso(não o rui mas o caetano): "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é". frida, o sabia como niguém. nós, não: ficamos na chorumela do coração partido, misturando saliva furtiva e lágrimas desgarradas ao som de corazon partio - alejandro sans - (que se for ouvido na versão dueto com ivete sangalo, puta que pariu! que desgosto). portanto caro leitor(a) mantenha a coluna reta - mesmo que ela esteja rachada - e não se deixe partir por quem já foi acreditando que partiu seu coração.
virada do ano. todo mundo fazendo promessas de tudo um pouco e sabe-se mais o quê, para mudar de vida. dos pequenos aos grandes detalhes, como por exemplo, perder a barriga, a verruga, livrar-se da operação na bexiga ou refestelar-se no prêmio da loteria que é quase certo não virá. vida - bem ou mal - vivida, e seus traços, são como varizes. uma vez instaladas, não adianta querelar. seja qual for o laser que se sonhar, elas vencerão e ficarão eternizadas na batata dos seus tiques existenciais para sempre. mesmo que apagadas por recursos dolorosos - são falsas também as promessas que não vai haver dor - e prontamente não se as vejam, elas e você sabe, estão lá. quanto a mim, de há muito não faço promessas. concentro-me em não tentar ser uma pessoa nova - ou na mania de fazer tudo velho de novo como se fosse outro sob a disfaçatez de uma falsa mudança, a viver como novo, as mesmas coisas de sempre(mas há quem acredite que vai perder a barriguinha - sem deixar de abarrotar-se de chopps e chouriço - e que o sexo tântrico vai salvar seu casamento ou união de outros interesses). satisfaço-me com os centavos atirados a fonte do desejo, que carregam o pedido, sem troco, de manter-se exatamente como sou, fiel a mim mesmo, e a minha teimosia taurina. afinal, leva-se uma vida - tantos nem assim - para aperfeiçoar o que quer que seja, inclusive os defeitos, que se aprimorados à excelência, acabam-se tornando virtude, ao contrário das virtudes que não resistem as tentações que derrubam promessas, que esvaem-se na duração do tempo de bolhas de espumantes. sonhos, varizes, anos novos, promessas, precisam de tempo de vida, mais do que tudo. e isto, é exatamente o que temos cada vez menos. para que então desperdiçá-lo tentando ser o que já não mais seremos, se sequer somos o que prometemos ontem, antes de todos a nós mesmos?
* publicado aqui mesmo em 8/01/2010
royal enfield himalayan: o fleugma britânico da marca das "café racers", agora montadas na india sob as vestes de um modelo com, e para, o melhor espírito do devagar e sempre(e economicamente)
well, dizem que já estou numa idade onde quase todos buscam o nirvana. eu, ficaria satisfeito se atingir o himalaia.e já agora, a himalayan, of course, que me inspirou a escrever sobre a "motoridade", depois de tanto pisar em dunas móveis, e me enterrar em castelos de areia, em tardes praianas. acaba sempre que você coloca-se à altura dos seus obstáculos. portanto: mire baixo, e acabará sempre na merda. antes das divagações de sempre, deixe-me dizer, se é que não sabe, que a royal enfield, é a marca de motocicletas mais antiga do mundo, em produção contínua – fez seu primeiro modelo em 1901 - e que no século passado mudou-se de armas e bagagens do reino desunido para a índia. de fabricante de armas passou a fazer motos, com um slogan bem apropriado: feitas como armas ou coisa parecida, sem contar que foi a primeira a fazer uma moto à diesel. de motos, não sou marinheiro de primeira viagem. tive algumas. comecei flertando com a jawa 125 - e não necessariamente nesta ordem - honda 125, yamaha 180, sahara 350, honda 400 II, cagiva elephant 900, yamaha gts 1.000. todas elas, a sua maneira, habilitam-me a dizer-me um motard, até porque fui mais longe do que me levariam as estradas do meu país. mas as trail, ah! as big- trail, principalmente por conta da cagiva, são mesmo uma paixão. já amei as triunph, e já olhei pela cerca do jardim as bmw 1200 gts. o tempo passou, a resistência física não suporta, antecipo, quase 300 quilos das meninas fogosas, isso à seco. então, para não ficar no papai e mamãe, resolvi desistir de sair montado por ai nos meus cavalos e mulheres de sonho, condensados no sexo louco ou suave que é pilotar uma moto. ainda mais se for com destino a lugares que a vizinhança não se arrisca nem em pesadelos.
por isso mesmo, já havia tirado motos das minhas last words, e encaixado os jipes, decididamente. mas eis que os tais indianos resolver fazer uma moto, com sotaque inglês, destas que te prometem levar ao fim do mundo(o começo não me interessa), baseada na confiabilidade de um motor tradicional, carburado, de mecânica com fácil reparação, altura que facilita a vida de quem tem 1.75, monocilíndrica, 400 cilindradas, peso médio, e um visual clássico, que remete a paixão pelo que vem à frente, e não pelo que ficou e logo some do retrovisor. não sei como se diz caralho! em hindi. tampouco nas outras cerca de quatrocentas línguas que se fala por lá. mas foi o que disse ao vê-la em imagens das notícias que dão conta que, talvez, no segundo semestre ela já esteja à venda no brasil. noutros países, mais de cem, maioria dos quais também não sei como dizer caralho na língua natal( o que é um problema para quem se aventura por ai, ficar com o caralho enrolado na boca) já está rolando, inclusive com edições especiais. caralho! para os sedentos de velocidade e potência - e visual dos mangás japoneses - a himalayan, pode ser uma decepção: a velocidade de cruzeiro não irá além dos cem por hora(a favor do vento); não permitirá grandes esticadas e retomadas de aceleração, sem esgoelar o conta-giros, leia-se motor, e nada de guinadas bruscas, escudado nos novos gadgets de eletrônica embarcada, que isso não é seu forte. é uma moto "pura&dura", com os defeitos e qualidades que carrega, para além dos daqueles que a carregam mas sem os poréns destes. portanto, apta a desbravar caminhos(não com aquele brilho dos vídeos testes) desde que você saiba e esteja preparado para os altos e baixos, quedas e derrapadas, de qualquer caminho que o faça seguir em frente. sinceramente, não sei se chegarei a tanto. vontade não falta. mas vontade só não sobe montanhas, por mais que se use a figura da vontade como moto de parábolas inspiradoras - principalmente nas empresas ditas moderninhas, que as usam como motivação para esfolar seus empregados. de qualquer forma, não sou besta de acreditar que se não vou ao himalaia o himalaia vem até a mim. julgo-me mais esperto; e arrisco a figura: o himalaia já está aqui; bem dentro de nós. e na maioria da vezes, nós não o subimos, mas descemos de bunda no chão, de quatro, pateticamente. subir, nem pensá-lo, para a maioria dos mortais. como sou mortal, e prezo a minha bunda, com os apegos de outrora, digo que sei não, a himalayan pode ser uma boa desculpa - e ajuda - para subir ao topo antes de despencar de vez para o mais alto dos abismos. então caiamos de pé, ao menos na estrada, que seja. figura de linguagem ou não, sei que de qualquer maneira estou indo, nem que seja à pé. aprendi que é sempre melhor morrer em movimento do que viver parado . e assim, lá vamos nós subir outra vez, o himalaia que cada um, a sua maneira, carrega dentro de todos nós; e que por isso mesmo é sempre tão atroz para com os que reclamam do peso da vida. o que nos leva a acreditar que a moto é mesmo o veículo mais adequado para tal viagem, já que não permite levar muita bagagem, muito menos garupa(se leva cairão os dois de bunda antes de meio trajeto). então, é você com você mesmo e o moto condutor que julgar mais apropriado para chegar ao seu destino. बीएम विन्डो एओ हिमालयिया *
* em hindi, quer dizer: bem-vindo ao himalaia. p.s. não pense que o google tradutor vai lhe ajudar nesta viagem porque não vai não. de modo que a mímica, e o inglês perdido, é o que deve levar em mente.
este sou eu agora para alguns é triste é estar só ilhado, preso até encastelado sem saída fim da vida em ruínas sem saída abandonado no way deve fazer frio e o mofo deste lugar?
que lugar mais sombrio lugubre até uma falta de perspectiva dele quem se lembrará? o que não me assusta é que: sim;é isso tudo e mais um pouco até mas é exatamente onde quero e posso estar quantos podem escolher onde, quando, e como estar ? como veem, não sou eu que estou miseravelmente ilhado.
a presbiopia veio, como é de se esperar, por volta dos quarenta e poucos, o que é sempre muito pouco quando se vive de olhos abertos para o que vier.
a falta de visão para longe, mais tarde, dez anos depois, mais ou menos, a memória talvez já acompanhando a falta de visão.
acostumado, por formação - ou deformação - profissional a focar nos detalhes, e neles buscar, para o bem e o mal, a diferença, sem óculos, perde-se, por assim dizer, o distanciamento crítico. é o que acontece agora quando estou sem lentes.
ao mesmo tempo, surge uma nova maneira de ver as coisas - na verdade de não ver - o universo turvo, ao contrário do que poderia se pensar, é mais bonito, as mulheres, por exemplo, principalmente. sem lentes, inclusive as do amor, todas são belas. não há imperfeição. vê-se, ou melhor é tudo uma programada ilusão de óptica. a loura fatal, onde de loura apenas a tintura que lhe corrói o tônus, a depender dos nossos reflexos ressurge teen.
na verdade, descobri este novo dom da visão por esquecimento dos óculos. como sem eles apenas perco os detalhes, mas continuo tendo a visão do todo, arrisquei dirigir sem eles. e aí não deu outra: um mundo novo abriu-se para mim.
mulheres feias passaram a se sentir atraentes; homens carrancudos, não mais que de soslaio tornaram-se simpáticos, grupos grotescos tornam-se pitorescos e assim por diante. e de certa maneira, torno-me um mensageiro da felicidade, pois assim cego, nada me espanta; e a tudo reajo com a naturalidade da suspensão do susto pela ausência da percepção da forma esvaziada nos seus contornos, mas devidamente preenchida pelas expectativas de outras ânsias.
quem assim olhado, passada a sensação da impossibilidade internalizada do primeiro instante de recusa pelos olhos de quem sempre enxerga o mesmo, guarda lembrança para o resto dos dias destes. e, como dizem os especialistas em serem convocados para redundar nos tele-jornais , a autoestima aumenta e o bem estar se espalha, deixando todo mundo mais feliz neste desfoque acertado.
e como a felicidade é um tipo de crack de efeitos e duração ainda mais devastadora , não é de surpreender que isto vicie. dá mesmo vontade se sair sem óculos a todo instante, para ver a vida mais feliz. um vício dentro de outro chamado vida, do qual também é muito difícil largar por vontade própria, de maneira que vamos procurando enxergar o que nos mantém vivos mesmo que por desfoque os mais ou menos que vislumbramos enxergar.
e assim, apesar de todos os desenganos, que os acertos ou enganos da nossa visão boa ou má sempre acabam por nos trazer, ou para aqueles para os quais depositamos nosso olhar mais profundo ou equivocado, esta falta de visão ampliada nos conduz a amores cegos, cujo melhor é que não tateiam no escuro como fazem aqueles despertados pelo melhor da nossa visão.
no fundo, no fundo da retina, olhamos e sabemos que não está lá. nem sequer nos nossos olhos. é algo muito antes dela, também da formação da lágrima, e até do brilho que se recusa a nos espelhar como realmente somos em nossa mais completa escuridão. publicado aqui mesmo em 27 de janeiro de 2009.
sempre cai, a chuva, em cima de quem não precisa. nas horas mais imprecisas, seja homem, seja terra, seja bicho, seja grota, está lá, a molhar os ossos de quem já moles, e a empapar em fúria os sonhos de barro tornados lama, de quem agora só insônia, nunca mais sequer pesadelos. não é esta, aquela, cuja falta murcha flores, atrofia frutos, e murcha peles e intestinos. esta chuva é o reverso do sol crescente do here come the sun. é água cheia de trombas, cornucópia de males a estoirar a caixa de pandora. de tão fininha molha o que mais se esconde. não é mais forçoso, nem certo dizer, que a vida vem da água tão-somente. agora, a morte também, em dilúvios particulares, mais desastrosos que os coletivos, num molhar histérico e circunflexo. vem da chuva, a morte que não mais esgana, apenas engasga. e não é de meteoritos, nem tóxica. tampouco corredeira de lágrimas espremidas em lenços ou lençóis de vingança. é água mole mesmo. da natureza cada vez mais morta. derretendo, apodrecendo e liquidamente nos transformando em brutos sinais do fim de quem agora arrepende-se de não ter podido morrer seco. contra esta chuva não há guarda-sóis. Now playing: travis - why does it always rain on me viaFoxyTunes originalmente publicado aqui mesmo lá pelos idos de 2009 em 30/01
perplexo é a palavra que quase todo mundo(eu sou um otimista) sabe o significado: irresoluto, indeciso, hesitante, espantando, atônito, e bem mais se você procurar; mas e per e plexo? que a forma (perplexo) que quase ninguém - não tem como ser otimista neste caso, ou seria fim de caso, já que há uma separação? - sabe, sequer desconfia? per, é uma preposição, considerada arcaica, de origem latina, que significa "por cabeça" e tem lá seu uso, "renda per capita", de per si, ou de forma, arcaica, sim senhor, "fazia tudo per amor ". atualmente, em contrações com os pronomes e ou artigos, aquela coisa de (pelo), a (pela), os (pelos), as (pelas), dizem os dicionários virtuais, já que no dia-a-dia ninguém se apercebe. já plexo, é mais complexo: plexo é sinônimo de encadeamento, entrançado, entrelaçamento, porém de forma ainda mais intrincada quando o uso versa sobre os diversos tipos de plexo, quando a denominação dada refere-se a uma rede de nervos ou de vasos(plexo nervoso braquial ou plexo venoso da coroideia), por exemplo. um grande número de plexos é conhecido: nervosos, vasculares ou linfático, sendo alguns considerados mais dignos de referência, como o plexo anular, o plexo aórtico, braquial, asilar, basilar, axilar, a um número tal que encheria este post em todos os seus plexos, como se fosse linguiça, até chegar no plexo pudendo, que não por acaso é o plexo vesicoprostático. agora fodeu! diriam alguns, de plexo preguiçoso, onde este sujeito que chegar com esta conversa, copiada, sim senhor, do tio google e do primo wiki? aparentemente nada de per ou plexo a primeira vista, sequer perplexo, a segunda. apenas a constatação de que palavas soltas, assim como per e plexo e, principalmente, pessoas, significam, valem, são, muito mais quando estão separadas, na acachapante maioria dos casos, do que quando estão juntas; como no caso de perplexo, tal como nos querem fazer crer o romantismo exacerbado, que atribui a junção de duas pessoas pelo amor, protagonismos idílicos de uma união, medicamentosa até, onde este 1 formado se quer maior que a soma das partes. mesmo que por puro nexo, ocorra tal união, (e tanto ou quanto por falta dele) que é a ligação entre uma ou várias coisas, vínculo, conexão entre circunstâncias, acontecimentos, opiniões, ligação entre sujeito e o seu "predicado, na maioria dos casos a união é diminutiva de ambas as partes, resultando em soma frustante. aquilo que junta as pessoas, que se diz, no caso, amor, ao qual chegamos a atribuir o tal do nexo causal(não confunda com sexo casual) a que atribuímos a causa ao resultado, onde a circunstância e o efeito parecem, ainda assim ela acaba por ser diminutiva das partes em prol do todo, que é tacanho, já que alguém sempre se anula, quando não ambas as partes, outrora absolutas, sendo as tais metades complementadas apenas figura de retórica, salvo as que o fazem através das suas próprias imperfeições, já que a perfeição da soma não resiste aos noves fora. assim, nem tão perplexo com o fato, de per si afirmo quemais vale um intercruzamento imbricado, o plexo, na mão, do que dois amores perplexos voando.
não sei se chegarei a segunda linha mais do que nunca, hoje, não tenho tempo mas quem se importa?
se hoje não temos tempo para a segunda frase menos ainda para ouvir a segunda faixa não temos tempo para o segundo olhar e, não se espante, para a segunda foda quem se importaria com a falta de tempo para a segunda linha, se sequer chegou nela? não temos tempo para ir ao banheiro não temos tempo para passear com o cachorro tampouco para passear de mãos dadas menos ainda para cantarolar no banheiro e comemos em pé, quem amamos, e o prato que gostamos porque não temos tempo de sentar e ver embevecidamente o tempo passar e deitar e ver o sono nos elevar a contagem de estrelas dantes vistas não temos tempo de fazer direito as contas tempo de colar maravilhas despedaçadas do cordão partido pela falta de tempo nas coisas somadas de tempos em tempos fazer o noves fora nada nada de tempo para o que está dentro ou para o que ficou de fora não temos tempo de perceber o quão estamos, ai sim, por fora tão dentro nesta correria em busca do tempo a não perder quando já o perdemos no início desta corrida não temos tempo de ter tempo de ouvir o tempo de falar com o tempo de viver o tempo já não temos tempo de dar tempo ao tempo é, acho que vou dar um tempo mas antes, ironias do tempo, vejo-me lépido mas nada fagueiro em maratonas de coisas por fazer justamente eu que sempre vivi a vida em sprints nos cem metros a cada esquina(do tempo)
mesmo que eu saiba que não temos mais tempo tento atemporalizar-me ainda que finito seja o tempo segundo as leis do mesmo que nós dá o que passa rápido para tomá-lo devagar com ares de triturador o tempo, sussurra-me baixinho, anda sem tempo até para isso e então não perde tempo com o toma lá dá cá que tentamos surripiar do tempo como se ele não soubesse que nunca tivemos sequer o achado do tempo quanto mais o perdido que sempre esteve rachado pelo machado do tempo lenhador
dizem que já não usa mais cabelos e barba tão curtos assim. cresceram tanto que ele sumiu na paisagem
o ermitão urbano
se auto cognomina
aquele morador do final da rua
da casa que guarda mistérios
em antagônicos
sinais de riqueza e pobreza
na mais total enarmonia
ninguém sabe o que faz
desparafusado das ideias
quiçá pregado no seu tempo infuso? ou um sem noção ainda mais avariado?
freak? esotérico, excêntrico, ou apenas fazendo tipo? que raios tem na cabeça o sujeito?
o que habita o cérebro
e o corpo do ermitão urbano
para além da loucura de acreditar - mas apenas no que se deve -
recôndito das doenças vasculares
dos avêces contidos
das dê esses tês da sua geração
da psoríase contida
mas que escapuliu em dedos tortos
pela artrite psoriatica
minha nossa!
isso pega?
ainda cheio de hipertensão(tesão é outra coisa minha senhora)
que transita pelas ruas com se vivesse nos anos 70
um artista? talvez mais do que parece, mas só por causa do aspecto?
um zé ninguém? quase acertam,
papai noel! (é a puta que vos pariu!) atiçam escolares
que nunca estão dentro da escola
mas convenhamos, de que adiantaria?
talvez simplesmente apenas mais um que caminha para o fim
como se ainda estivesse no começo
sem dar o braço a torcer diante de tais apertos
pois bem
daquele sujeito estranho
de olhos envidraçados
não espere vizinhança cumprimentos
menos ainda salamaleques
só cumprimenta gatos e cães de rua
abana a cabeça para as lagartixas
e guarda ainda olhares comovidos para um timbu fora do seu habitat
- talvez como ele próprio-
quando não batuca mentalmente com o pica-pau que teima em lhe destruir a aroeira
motivo de discórdia para com todos aqueles que não suportam o verde
que teima em fruir por entre os espaços das cerâmicas
que insistem em derramar-se sobre as calçadas
as quais ele evita
caminhando sempre pela rua
traçando a linha do percurso em paralelepípedos gonzos
meio metro fora da guia
mas longe do acting matusquela do nicholson
o que faz mesmo um sujeito assim
que sai pouco de si para os outros
e de casa para a rua ?
dizem que lê muito
seria a coelhada da literatura atual?
com aquela cara de quem os mata a cajadadas? convém duvidar. aliás tem cara de comunista; ateu; hippie(isto ainda existe?); viado. todo cabeludo é viado, isso não muda nunca, uma vez viado sempre viado, uma vez cabeludo, a calvície seria a cura gay?
talvez ouça ainda mais música
mas ninguém ouve
também pudera
o que toca em volta abafaria qualquer sonido que contivesse o que quer que seja parecido com música
que parece a verdadeira que só esta gosta ele de escutar
recluso no universo onde ninguém mais tem antenas para tal escuta
que se lhas tivessem ouviriam também madrugada adentro
o batuque do escrevinhador a tentar limpar o zinabre dos seus textos
sendo ele já o próprio
das letras para a sabedoria já não há pulos
nem por isso pode-se dizer mal educado
mas simpático também não
aliás
não faz questão de uma coisa nem outra
entre tantas questões que julga mais importantes
num tempo onde toda importância do mundo está restrita a um celular
onde tudo que é falso se torna verdadeiro
e o verdadeiro termina falseado
ah! o tempo dos isqueiros
que também pode chamar de vaga-lumes de homens e mulheres
consumidos por outros fogos de igual fatuidade
e por ser tão ligado em coisas mais importantes
não só para ele
decifram-no como desligado
que se esfinge fosse
pedralizava a todos
e certamente a vida seria melhor
(não só para ele)
mas o que se nomeia ermitão urbano
nem tão raso
nem tão profundo
está mesmo é de saco cheio
das mesmas coisas de sempre
dos mesmos de sempre
da vida de sempre
da morte de sempre
que se repete em ciclos de
mediocridade
o que lhe apavora mais que qualquer coisa
até mesmo que de bala perdida
e intervenção militar
o ermitão urbano, ainda que tenha tomado alguns atalhos
ainda caminha despreocupado em tão-somente ter
sim, porque que franciscano ele não é, que isso fique bem claro, como claro fique que ele não vai com as fuças de nenhum dos franciscos, nem do que eles representam
se ainda fumasse, diria que vou ali comprar cigarros, e desapareceria para sempre. ficam pra trás os amores, os projetos semi-conclusos, as cagadas e os acertos, os cortes e os esparadrapos, o éter e o vinho, as maçãs e as jacas, os jipes e as pirambeiras. mas dívidas não, que não as tenho. nada mais me aflige. mas peraí, uma exceção: os cães e gatos dos quais sou dependente, ao contrário do que dizem eles ser. pensando bem, fica para o ano que vem. até o último cão ou gato. então, ano velho que já morreu, ai vou eu remorrer de novo.
bom, creio que o amor é algo mais ou menos assim. você só descobre que ele existe - falso ou verdadeiro - quando caem as máscaras. até lá, tudo é paixão.
enquanto crianças, todos temos os olhos de gogh (pintura de 1888). mas crescemos, a grana turva nossas vistas, e perdemos o verdadeiro senso da realidade. pra continuar com seus olhos, o miserável gogh pagou um preço ainda mais alto do que os obtidos por suas telas.
nós, relativizamos isto falando, claro, de dinheiro, afinal, um van gogh custa os olhos da cara.