Sunday, May 17, 2015

último gole

numa homenagem póstuma ao b.b.king estava lá a legenda sob uma foto poderosa do king e sua lucille:ninguém que viveu 89 anos foi uma pessoa só ", referindo-se as diversas nuances do b.b. demarcadas em fases diferentes da sua longa vida.

bom, não acredito muito, no quesito longevidade, mas espero que se chegar aos 89 anos seja uma pessoa só. no sentido lato e estrito.

não serei mais ou menos triste por isso. não sou afeito a estas definições amargas da solidão na velhice: só é só e somente só quem não aprende que a vida é solidão delegada que assim é vivida justamente por não deixar-se ser um só). por isso, quero conservar-me inteiro, e de trincas apenas as que os anos terão e irão causar, sem que com isso queira dizer que fui um rochedo que jamais tremelicou.

acontece que num mundo que tudo e a todos muda, e que cobra a mudança como uma coerência benfazeja - enquanto a não mudança é vista como pura e burra teimosia - creio que haja algo de muito bom em não mudar, caso contrário não estariam todos incentivando mudanças à torto e a direito. sempre escudados na peremptória frase do "muda para melhor", que é a falácia na qual só os arrivistas acreditam - enquanto tudo a sua volta vai mudando copiosamente inclusive a sua maneira de ver o mundo, principalmente por conta da inevitável falência dos sentidos, assim espero, e não por mudanças do ponto de vista político e existencial, tais como renunciar a ser de esquerda, por que a esquerda esta na merda, ou aderir a direita porque é mais hoje "politicamente correto" no convívio social(eu não aconselharia você a ir a uma churrascaria e em alto e bom som declarar-se socialista - em compensação se disser que é socialista cristão ou de qualquer uma destas modalidades eleiçoeiras oportunistas não mais lhe enfiarão a calabresa cu a dentro e é bem possível que lhe paguem a sobremesa(a calabresa cu a dentro é exclusiva dos socialistas à rigor;)

isto posto, ser um só e estar um só é cada dia mais um privilégio que poucos aprendem a absorver e desfrutar, num mundo de efervescências tão consistentes quando suco em pó e onde as redes sociais revelam o homem na sua estupidez social e o quão rasteiro ele tende a ser quando a histeria da mudança esconde a mais importante - jamais feita - e revela a torpeza de todas as outras. tudo sempre na base das frases do tipo "a natureza ensina a mudar" ou só os tolos não mudam de ideia". parece-me que a natureza, pelo menos hoje em boa parte, foi estuprada a mudar por muita gente que hoje já começa - por medo ou de novo por oportunismo econômico - a querela imutável no sentido de não esgotamento de seus recursos e do mau humor que se revela nas mudanças climáticas decretadas por quem mudou - interesses econômicos - nosso modo de vida.

a vida que é de um ser só e de um só ser, é tal e qual como sorver um vinho especial(a esmagadora maioria jamais viverá este momento) que leva um tempo enorme para assim o ser(e sem mudanças) para que desta forma, no exato momento em que ele começa a ser bebido e em cujo "néctar" reconhecemos o seu verdadeiro sentido, começa ali mesmo a se acabar, tal e qual como foi vivida uma vida de quem foi um só como única ela deveria vir a ser.

quem viver muitas vidas, certamente viveu muito mais a vida dos outros e não a sua. uma vida que se tornou assim por dizer uma vida de refrigerante, repleta de gases por dentro e por fora.









Thursday, May 07, 2015

quando uma coisa inútil pode ser boa pra cachorro *

qual é a utilidade da literatura ? e do amor ?



Alguém pode me dizer qual é a utilidade do amor? Até hoje ninguém me convenceu. Ele, o amor, é inteiramente inútil. Como a vida. Não tem utilidade. 

Penso nisso quando tenho de ouvir umas pessoas dizendo que literatura é uma coisa inútil. Sou obrigado a concordar. É inútil. E nestes tempos brabos em que as mentes já andam impregnadas de utilitarismo, inútil vai assumindo uma conotação pejorativa. Mesmo assim, concordo, a literatura é inútil. 

Apesar disso, continuo lendo, e cada vez com maior paixão. E continuo vivo nem sei pra quê. Literatura, eu disse em uma palestra, é tão inútil como ter filhos. Alguém da plateia, inconformado, alegou que filhos têm utilidade, pois podem trabalhar. Saí do embaraço afirmando que se têm utilidade já não são mais filhos, são mão de obra. Utilidade, no sentido prático, nem o amigo pode ter. Se tiver, deixa de ser amigo para tornar-se ajudante, ou qualquer coisa parecida. Nem todos tiveram o prazer de ler Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto. Aquele final fabuloso, em que o mestre carpina não consegue justificar por que continuar vivo. “.../mas se responder não pude/à pergunta que fazia,/ela, a vida, a respondeu/ com sua presença viva.” Tinha acabado de nascer um menino. 

Ocorreu-me o poema ao ouvir a história de um amigo que tem uma cadela. Uma cadela adulta a quem jamais foi permitido o amor: ela vive confinada e sozinha. Há pouco tempo meu amigo ganhou um filhotinho de cachorro e ficou com medo de que sua cadela o estraçalhasse com uma bocada só. A cadela mostrou-se muito impaciente com os exercícios de aproximação que recomendaram a meu amigo. 

Enfim, vencida a primeira semana de parcimonioso convívio (de cheirar o pano sobre o qual dormia o filhote até deixá-lo ao alcance da cadela foi um bom tempo) o filhote foi entregue ao canil, ao alcance da cadela. Sua companheira cheirou-o, deu umas lambidas e se afastou como quem diz: Já conheci, agora chega. Pronto, a aproximação fora concluída com êxito. Não sem medo, claro. 

À noite muitas coisas acontecem, as noites costumam esconder mistérios. Mesmo assim, e com bastante dificuldade, meu amigo deixou os animais entregues a seus próprios instintos e foi dormir, que ele também é gente. No dia seguinte, o dono dos dois caninos foi conferir o resultado da manobra. Deitada, a cadela era sugada por uma das tetas. Sem acreditar no que via, meu amigo pressionou uma teta desocupada: saía leite. Sem pensar em utilidade, a cadela estava protegendo um ser vivo.

(uma coisa inútil, crônica do menalton, menalton braff, na carta capital)

+ imagem de http://notonappstore.com/ um projeto bom pra cachorro da sueca linn wexell e dos brasileiros caio andrade e rafael ochoa (dê uma passadinha por lá também)
* originalmente publicado no bompracachorro.blogspot.com

Wednesday, April 22, 2015

buraco negro

tempos difíceis. para muitos insuportável. a pressão cotidiana e cosmopolitana é a vida de sonhos tornados pesadelos para a maioria. 

como sempre nestes casos dá-se o azo à fuga. e a fuga é sempre uma solução intempestiva mesmo que urdida lentamente e nem assim deixa de ser desesperada ou idealizada para alguns: aquela praia paradisíaca, aquele lugar perdido no meio do mato(não sei como é que uma pessoa perdida acha um lugar perdido no meio do nada, das duas uma, ou o lugar ou a pessoa não estão realmente perdidos)a adesão ao budismo ou seria bundismo? mas enfim, fugir disso tudo aqui é a palavra de ordem de quem se julga de todo não estragado ou a tal ponto que a piração é justamente esta.

mas quem entre tantos realmente passa o sebo nas canelas? mochila e se pirulita dessa máquina de moer princípios em que se tornou o modus vivendi cujo fim que determina os fins é o fim inglório, depressivo e tarjeteado?

muitos poucos, é verdade, tem esta coragem, ou esta covardia. mas o que as pessoas não perceberam - e quase ninguém percebe mesmo - é que a esmagadora maioria já fugiu, já se escondeu, naquele que é o maior esconderijo de todos, mas recôndito que a mais funda caverna vietnamita, mais indevassável que o lado não visto de plutão, mais ilhado que a mais escondida ilha das filipinas.

falo das pessoas que se esconderam dentro de si próprias. e tanto, que não é só nós que não as conseguimos achá-las, vê-las e "tê-las" como realmente são. o terrivelmente assustador e peligroso deste esconderijo é que elas mesmo não conseguem mais determinar o que está perdido ou o que está achado. a tal ponto que na superfície movem-se na pele de alguém que nada mais é que um avatar(isso muito antes do mundo digital, sorry geeks e nerds) de alguém que metido em buraco sem fundo de onde não é possível mais enviar mensagens decifráveis já que o avatar existe e reside justamente para enviar falsas mensagens de localização que como todos sabemos seja qual for a energia é sugada pelo buraco negro em que o ser que se esconde de si gera. 

a procura do seu lado invisível que quer tornar visível para todos - sempre os outros nunca si próprio - tende a engolir para sempre não só os mais fracos como até os que pensam ser os mais fortes.

a inútil experiência humana tem mostrado que os nossos lados invisíveis tornados visíveis quase sempre não são os melhores de serem mostrados - e aceitos - e isso não tem nada a ver com sinceridade. com o desejo de melhorar, de ser autêntico. de dar a cara a tapa da verdade.

talvez autenticidade seja ficar. mas não ficar como se está ante a impossibilidade da fuga para lugar nenhum que não seja o poço sem fundo pois isto significaria o outro lado de entrada para o mesmo buraco, buraco que tem várias entradas e apenas uma saída inexpugnável que nunca é o lugar por onde se entra. 

ficar talvez seja, até "divertido", tentando o controle da osmose que regula o ruim que entra e o bom que sai ou que seja o contrário. mas acima de tudo sem perder o controle até mesmo do pior que existe em você. isto já seria um grande achado que não merece ficar escondido aonde quer que esteja ou seja. 

o resto, como dizem nestes tempos, tristes tempos, já é lucro. pode dar romance ou pintura ou simplesmente vida na superfície do corpo que se já não diz tudo também não é necessariamente um nada a mover o nada quando o nada é só o que nos resta. 

isto é tudo. 





Sunday, April 19, 2015

um bom lugar para se morar

                                                                                            grosse pointe public library
como assim morar? isto não e um espaço de um casa, nem de homens, nem de bichos, nem de plantas. só de livros, e convenhamos, um tanto grande para conteúdos de capa que tantas vezes não lhe acompanham o tamanho e recheio.

ora, talvez seja por isso mesmo. eis aqui, sem dúvidas, um bom lugar para morar os pensamentos e as ideias, que são por assim dizer, primos espectrais dos pensamentos, quando eles não estão por ai a provocar confusões e esclarecimentos, como é certo devem eles provocar, principalmente em quem não tem lugar para que eles morem sossegados na própria cabeça.

os pensamentos, digamos assim, são uns inquilinos esquisitos e pra lá de exigentes - mesmo que a moradia seja medíocre.

por isso que achei que este espaço era um bom lugar para se morar. eu, o morador esquisito, de pensamentos nem tanto, mas espectral quando se trata de ter ideias e habitar corpos e cabeças

Thursday, April 16, 2015

sabedoria oculta

                                      o que a gente sabe nunca sabe até precisar saber.

Monday, April 06, 2015

sem juizo




de certa maneira, todo homem ou mulher nascem predestinados a fazer grandes coisas ou grandes merdas.

se uma coisa ou outra, acredito piamente que a escolha é deles. e que não há força sobrenatural ou nada, que possa modificar isto, para além deles mesmos.

portanto, não serei eu a fazer juízo dos que, entre fazer grandes coisas ou grandes merdas, preferiram não fazer porra nenhuma; ou merda nenhuma como queira.

no mundo de hoje, isso dá uma trabalheira daquelas. é só olhar em volta.


Saturday, April 04, 2015

curta a vida para que ela não seja curta - ou melhor, quer dizer, pior: mais curta ainda*.

               o necessário, não mais que o necessário, mas também não menos

* ou, se você preferir, a vida é muito curta para ser pequena.

Thursday, April 02, 2015

não é assim que a banda toca ?

clarice lispector




Sou composta por urgências: 
minhas alegrias são intensas; 
minhas tristezas, absolutas. 
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos. 
Eu não caibo no estreito, 
eu só vivo nos extremos.

Pouco não me serve, 
médio não me satisfaz,
metades nunca foram meu forte! 

Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente...
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.

Suponho que me entender 
não é uma questão de inteligência 
e sim de sentir, 
de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca.

Saturday, March 28, 2015

tamanho é documento? sim ou não, hum!
























questão antiga, sempre atual, e sempre maldosamente vinculada diretamente ao tamanho do "pirilau"(ou também da bunda hoje em dia).

mas afinal, tamanho é mesmo documento? ou seja, atestado de superioridade seja no que for?

para os habitantes de hum, croácia, a menor cidade do mundo, duas ruelas e trinta habitantes, com certeza não. pois para eles hum, é certamente uma cidade sem tamanho. e com uma história em comprimento e riquezas superior a muitas megalópoles, afinal foi fundada no séc.XI.

aquilo que é grande, ou muito grande para alguns - riqueza, poder,entre outras coisas - é nada para muitos ou de tamanho insignificante. seja porque o tem e não valoriza, seja porque não o valoriza ter. não é esta sua opção de vida: ser grande. por menor que isso possa parecer aqueles que se julgam grandes demais, nem sempre por seus feitos. 

e aquilo que é pequeno, passa a ser enorme, para outros, não muitos, é verdade, pois para muita gente, basta o concentrado da essência, que é o verdadeiro gigantesco que faz e dá sentido a existência num mundo tão desigual.

tamanho não tem documento? bom, neste momento estou numa distância descomunalmente grande de hum, com uma vontade tão maior de estar lá, que todo o meu eu desejaria ser microscópico para como um elétron só ligar-me e incrustar-me como um pulsar no prótom hum a beber uma boa biska, a aguardente local, feita com uma receita guardada a sete chaves(não bastaria uma?) 

distancias, vontades, tamanhos. a grande questão do ser humano não é esta, por mais que isso apareça como uma questão enorme e que percebida, falsamente, torna-se ainda mais difícil de entendê-la.

a grande questão do ser humano, não é ser grande ou pequeno. é o ser exato. e grande pequeno não são categorias que possam medir isto com ou sem a menor precisão. pois cada um tem o tamanho que lhe cabe, e que suporta, e que faz dele um ser enorme ou microscópico. nisto reside a sabedoria ou a engenharia das porções e proporções, cabendo-nos como humanos, a partir disto ser muito melhor do que pensamos que somos, no fundo um grande engano quando nos aumentamos sem base ou um pequeníssimo acerto em sua essência que vale mais do que a montanha de erros que vemos por ai.

para muitos o que acabo de escrever não passa de uma cagada de touro sem tamanho(bull shit) .talvez para um ou outro gotículas de sabedoria.

mas fi-lo eu no tamanho exato? hum...



Tuesday, March 24, 2015

filhotes de urano




o ato de escrever pode salvar vidas. mas também devora as de quem escreve.

Monday, March 23, 2015

o senso de justiça deixa marcas roxas ou quando o dedo na ferida é a própria ferida do dedo


a justeza do justos não é para qualquer um. eis a sensação generalizada diante das injustiças que presenciamos cotidianamente a cada segundo de nossas vidas sempre tão frouxas de tal justeza, o que sempre consideramos injustiça muito embora em muitos casos seja justa a causa.

excetuando-se os que não estão nem ai para o que quer que seja, o clamor pela justiça é um sentimento que adere ao ser humano de imediato. eis o problema. para a maioria não passa de um emplastro na epiderme. poucos a deixam ou são capazes de aguentar tal senso pele adentro, carne adentro, até o fundo do osso da púbis.

exercer o senso da justiça sobre e acima da própria, é tal e qual fechar uma porta mesmo sabendo que ela vai mordiscar, quando não esmagar o seu polegar. convenhamos: todo mundo só pensa em deixar aberta a porta, pois o senso comum, o senso da sobrevivência, o senso do farinha pouca meu pirão primeiro, quer passar longe do senso da justiça.  

mas não que o senso de justiça cause tão-somente dor. nada disso. para uns poucos, os verdadeiros justos - que nem assim escapam de serem injustos ou sofrer injustiças - o sentimento de que provém do senso de justiça é tântrico. o problema é que a nossa noção de prazer, também não é lá muito justa. e a tudo confundimos, a ponto de tão miserável confusão tornar a regra exceção e a exceção regra, o que provém sempre da tal falta de justeza para com o justo.

e medida da justiça, mesmo quando se encerra em centímetros nos parece quilômetros, anos luz, a tal ponto que estamos acostumados a deixar escancarado o buraco de agulha que seja.

eis porque se diz que à torto e a direito que vida não é justa. é porque somos frouxos. é exatamente por isto. tão somente por isto e nada mais além disto.

seria isto uma injustiça? ou muito justo? exerça lá e já o seu senso, a sua medida, e saia daqui fechando ou deixando a porta aberta. não sem antes lhe avise por uma questão de justiça, e sobre ela mesmo, que para que algumas portas se abram é necessário, por mais que doa, fechar outras.

Thursday, March 19, 2015

da inútil, dificultosa, e desastrada arte de se emperequetar






feio quando é feio, quanto mais se ajeita ou se tenta mais feio fica (chega ao ares de um desastre de proporções catastróficas).

o belo, quando belo, se é belo para que ser ajeitado? tende a esfumar-se quando não descamba pra feiura mal ajambrada.

já não basta a beleza que cabe ao belo por si só em meio a tamanha desigualdade entre o belo e a feiura? e a feiura já não basta o espectro que lhe ronda até dormindo(inútil dormir que a dor não passa).

pois bem: é preciso que alguém dissemine uma nova teoria mas acima de tudo praticada sobre o que é belo e o que é feio, principalmente nas ditas cerimônias dos momentos inesquecíveis - o feio será inesquecivelmente feio e o belo, que foi mal ajeitado, será sempre digno de notas maldosas.

não digo com isto que as pessoas, belas ou feias, não possam dar um "tapa no visual". mas tapa no visual não é bofetada na gente, gente. porque hematomas também não é nada lá muito bonito, e não há base, pancake ou duocake que lhe disfarce. 

au naturel se faz favor. que aquilo que é feio tende a passar desapercebido -   eu sei, eu sei, é duro, mas fazer o que?  e o que é belo tão somente a ser valorizado. 

na esmagadora maioria das vezes fazer bonito não é tentar ser ainda mais bonito. é não se fazer(ainda mais?)de feio.

think about, please.

Wednesday, March 18, 2015

receita de bruxinho



não é um verdadeiro bruxo aquele pode pode predizer o futuro ou coisa que o valha.
o verdadeiro bruxo é aquele que opta por construí-lo, principalmente se for a sua imagem e dessemelhança. 

Tuesday, March 17, 2015

encruado (ou seria encurralado?)


digamos que o maior problema dos precoces é que eles crescem - ou apodrecem, vide sem números de exemplos - . e ai perdem a magia ou se perdem em si próprios. crescer para os humanos é coisa bem mais cruel do que apenas a cobrança sempre viperina da manutenção da estética de outrora.

Friday, March 13, 2015

talvez porque a liberdade sendo como água, afoga os peixinhos pelo excesso; ou mata de sede, peixões, por sua falta




A liberdade de ver os outros*

Um dos escritores mais admirados de sua geração, o americano David Foster Wallace se suicidou no mês passado(outubro de 2008) aos 46 anos, enforcando-se. Este texto foi tirado de seu discurso de paraninfo para formandos do Kenyon College, há três anos.
Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

- Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

- Água? Que diabo é isso?

Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude - mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras "virtudes". Essa não é uma questão de virtude - trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica - pelo menos no meu caso - é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de "ensinar os alunos como pensar" é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. "Aprender a pensar" significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

Lembrem o velho clichê: "A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível." Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão - a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um "boa noite, volte sempre" numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim - só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação "inferno do consumidor" não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.

Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como "não venerar". Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar - seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos - é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio - e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.

No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.

O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas - e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.

O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros - no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência - consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor - daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: "Isto é água, isto é água."

É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.
* publicado na revista piaui.

Tuesday, March 10, 2015

principio de igualdade


as pessoas, várias, que me perguntam porque gosto dos diferentes - a maioria as consideram aberrações -  e deles gosto tão ou mais do que dos iguais,  digo-lhes que não há resposta mais simples: porque sou igual a eles.

Monday, March 09, 2015

como fazer esta foto se não houvesse diversidade ?


































a natureza dá as dicas. nós, pretensos seres superiores, estamos a ignorá-la buscando a altos custos eliminar o multi-facetado em nome de um unidade/superioridade religiosa, sexual, politica, e ou "racial" *, que através de costumes impostos pela força, pelo medo, pela ignorância, pelo falso credo, querem o poder de vida ou morte para decidir o que podemos ou não podemos. e que todas as coisas devem ser uma ou outra, jamais várias, ou seguir um, apesar de eles mesmos saberem que coisa nenhuma é igual a outra por mais que se queiram parecer em todas as coisas que vemos e não vemos, sabemos e não sabemos, e até nas coisas que não são coisas porque coisas não são assim gêneros de se nomear, classificar, ter ou deter.

isto, e tão-somente isto, nos fará extintos em muito pouco tempo. a natureza também deu esta dica, por várias e várias vezes. e cá estamos nós a ignorá-la outra vez, fazendo destes tempos que se dizem modernos o tempo mais obscuro, desgraçado e trágico da história da "humanidade", porque tendo este conhecimento não o usamos para proteger a diversidade e sim para eliminá-la.

é por isso que é mais fácil fazer uma foto assim com os animais do que com seres humanos, ditos iguais em essência mas que na sua particularidade são todos diferentes entre si e por isso mesmo este é o único traço de igualdade em suas diversidades que ela e tão somente ela nos faria únicos.

* como demonstram estudos hoje em dia, raça é um conceito equivocado.





Wednesday, March 04, 2015

nós que amávamos tanto a revolução









o que se pode esperar de um pais onde o grande ideal da juventude é ser aprovado num concurso seja lá para o que for. 


o fim de curso ?



Monday, March 02, 2015

trueetanto

e o prêmio nobel de medicina vai para o show business pela modificação da anatomia humana ao conseguir colocar a bunda no lugar da garganta.

Saturday, February 28, 2015

não é tão somente uma questão de escolhas

o senso comum, espraiado na literatura dos lugares comuns da auto-ajuda, diz alguma coisa mais ou menos assim: a vida é o que você faz das opções que você constrói ou que se lhe aparecem - isso lhes tiraria o valor ? -  porém, o acaso e a necessidade, quando você está realmente "fudido", quase nunca se dão as mãos, a não ser em templos evangélicos, que é para você ficar com os bolsos descobertos.

ledo engano se me disser que o cotidiano hoje não apresenta muitas opções de você ser quem realmente é, ou o que deseja, em meio ao irônico mundo multifacetado de possibilidades tantas de símbolos e imagens que na maioria das vezes representa mais o vazio da vida atual do que o enchido de linguiça que se tornou a vida para a maioria das gentes.

sempre há opção, mesmo quando não há opção alguma, se o ab ovo não feneceu, o que não deixa de ser uma opção partida ao meio. o não perder a consciência dos fatos é sempre uma opção a mais nestes casos em que a manutenção da personalidade insurge-se como um obstáculo ao bem suceder-se na vida.

cá do meu buraco tenho um livreto de inúteis anotações fúteis onde rabisquei o seguinte: entre o medíocre o e o ruim, eu sempre fico com o ruim. esse ainda pode ter jeito. creio ser um pensamento inevitável para quem também acredita que o bom é inimigo do ótimo. e persegue o ótimo mesmo que isso não seja bom quando a perseguição se dá por interesses outros que não a necessidade de intensidades mais extensas do que os zeros a direita da sua conta bancária.

se você não precisa do ótimo para viver, ótimo. mas não pense que fica mais fácil a sua opção. a simplicidade das escolhas é tão difícil como enxergar na simplicidade o ótimo que você perseguiu como um cão ao seu rabo deixando de enxergar o "osso" que estava a volta tão perto.

nestes casos dificilmente há volta ou voltas. a não ser volta e meia para o desaparecer de vez como pessoa. e não venha me dizer que foi por falta de opção.

Thursday, February 26, 2015

faro fino ou a ironia das coleiras



animais revelam muito mais sobre a personalidade do "dono" do que o dono sobre a personalidade do animal. 

sim, creio que sim. mas é preciso cuidado com as generalizações; e ter faro para ter discernimento sobre os estereótipos do bem, do bom, e do mau, para não falar do feio e do bonito.

não é fácil. aliás fica pra lá de confuso, por exemplo, no caso de hitler, e de seu conhecido amor pelos cães - que ia além dos pastores alemães. sem contar que o regime nazista, foi o primeiro a reconhecer os direitos dos animais (há controvérsia em relação a inglaterra) paradoxalmente, no mesmo ano em que abriu darau, publicava-se: 

«No novo Reich nunca mais se permitirá a crueldade com os animais». Em 1934 proibiu a caça. Em 1937 regulou o transporte de animais por estrada e, em 1938, o de comboio, para que os animais fossem transportados em condições decentes" 

mas na maioria dos casos - incluindo os rappers - é " tiro e queda". muito embora certos donos definam com crueldades a personalidade de um cão, eles acabam por ser revelados - em suas grandezas e pequenezas - pelos sinais emitidos por seus animais, quando não próprios. 

mas é preciso ter faro para tal discernimento. e faro fino é com os cães, e não com os humanos, supostamente, apesar da nossa indissociável animalidade nunca usada para o bem, sequer da própria espécie.

Friday, February 20, 2015

dissabores




























todos temos. quem não. e quem não, por certo os há de ter, e muitos. falo de cátedra. porém, por mais fútil que possa parecer, entre os muitos que tive, e olhe que não foram poucos, poucos se comparam ao de sentir que o gostinho do toddy mudou. ali compreendi que não haveria mais criança em mim e sabe-se lá que adulto sensaboria viria ser.

dizem às más línguas que as pesquisas determinaram um novo sabor. mas como? se ninguém me perguntou nada. talvez porque se sim, ouviriam um sonoro não. pra que mudar um gosto de vida assim, num lamber de beiços, só porque algum engravatado(à época) teve a infeliz ideia de propor a mudança, por motivos de que somente alguém que teve uma mãe que por certo não lhe deu toddy haveria de achar? que saberia este sujeito de toddy? e do que aquilo significava para nós? nada. não sabia nada. e foi um nada que nos deixou com o gosto de nada na boca que jamais voltaria ser do toddy que tanto amávamos.

ah! você acha então que eu estou exagerando? que não passo de um adulto sentimental que fica chorando pelo toddy derramado? então vai conversar com a turma que tomava ovomaltine e de súbito se viu sem o sabor suíço que era "puro malte". mas não diga que é um cara ou uma cara da pesquisa. o risco de ficar sem sentir sabor é imenso. brutal? bom, foi o que fizeram com a gente. sem dó nem piedade. deram um nó na nossa garganta, a tal ponto, que falou em achocolatado, eu engulo em seco. e nada mais que que se compare ou pareça com toddy desce. 

o certo é que, alguns dissabores a gente esquece. outros, morremos com eles atravessados na garganta.

p.s. felizes foram os putos(as crianças) de portugal. lá o sabor do toddy que valia a pena resistiu até os anos 90. quando lá fui, e lá morei, antes do vinho, e de qualquer outra coisa, bebi todo o toddy que podia até não poder mais. uma overdose de toddy que durou anos e anos. até mesmo quando voltei ao brasil carregado de toddy nem um pouco preocupado em ser pego pela fiscalização. o problema é que fui. e na minha cara vi um sujeito da tal fiscalização pegando a lata com olhos marejados e dizendo, anda passa, vai em frente, como se não houvessem dezenas dela nas minhas malas. passei. e fui-me embora. não sem antes, separar algumas latas, e com um bilhete deixá-las para serem entregues ao tal funcionário. creio que assim não haveria risco de alguém dizer que subornei a fiscalização. afinal, passara e nada foi combinado. no bilhete estava escrito: - nestas não há coleção de índios. tinha certeza absoluta que ele saberia do que estava tratando. e assim, mais um sabor juntar-se ia ao meu dissabor que por alguns anos foi dissipado em goles e goles intermináveis do "sabor que alimenta" meus bons gostos até hoje, apesar do enorme dissabor do acontecido. tal como os índios, eu e o tal cara da fiscalização, fomos derrotados pela ferocidade da sede de lucros do homem branco cujo sabor que sacia por certo não é do toddy de antigamente.




Thursday, February 19, 2015

lei da compensação ou quase não dá para ser outsider

mas faça zag e se segure. não fique no zig-zag que ai é que você vai ser tosquiado mesmo.
já que o mundo não anda exatamente como eu andava a espera, eu também reservo-me ao direito de não andar ou ser como todo mundo esperava que eu andasse ou fosse, a começar da indefectível família, tradição e sociedade.

o que mas me emputece, é que eu não encho o saco de todo o mundo, o tempo todo, por tudo e por nada, a começar de ficar buzinando no transito nem bem o sinal abriu, ou nas filas, a gritar o próximo quando o próximo já o deixou de ser.

eu, no máximo dou umas incertas aqui e acolá, que nem sequer fazem cócegas dada a minha insignificância no preterido equilíbrio da desdomesticação ou desmistificação que por si só não basta  - dada a dominação exacerbada a letargia da euforia - ainda mais nestes tempos de carnaval. sou low profile. ninguém mexe comigo e eu passo desapercebido, que é a minha mais nova descoberta de modalidade de felicidade que já anda perigando ser impossível.

bolas! o mundo inteiro parece que se acha no direito de vir me encher o saco dizendo como eu devo andar, devo ser, devo comer, devo foder, devo cagar, devo até não mais poder. até inventaram a figura do treinador pessoal do como fazer para seus haveres e deveres serem otimizados, sabedor desde já, para sua informação, que você vai ficar esmerado no dever adoidado e um pária na toga dos haveres. é a lógica da suruba do comportamento social, que incita os amestrados ao caminho do sucesso assentados nas diretrizes de querer foder sempre o que está na frente, esquecendo o que lhe vai no rabo, com força e sofreguidão não é sorvete. é fumo mesmo. 

então fica o recado, para os da frente e os detrás: não estou interessado. foda-se o mundo! e o mundo todo! mas não todo mundo, porque deve andar por ai uns alguns que talvez ainda sejam capazes de salvar o mundo dele mesmo. mas, quiçá, não o mundo todo. por que ai começa tudo de novo.

Saturday, February 14, 2015

a verdade é que, provavelmente, não sei contar piadas


meus inimigos, muitos, mas nem tanto como gostariam, dizem, alguns, que não poderiam ter melhor amigo. provavelmente pelo trato que tenho com a verdade: sempre em primeiro lugar. e por ser sincero em minhas lutas e postura nas frentes de batalha;

já os amigos, poucos, a maioria, desejam-me aos seus piores inimigos. provavelmente porque não lhes poupo da verdade ainda que lhes seja desfavorável -  na maioria das vezes é - expressa na sinceridade, para eles sempre fora de lugar, dos comentários sobre seus mal-feitos e também sobre seus parcos acertos, sendo o parco a outra face dos meus desacertos, segundo eles, que não foram poucas as vezes que me tiveram como "muy amigo".

dizem de caras assim como eu, que são impingidos ou sofrem do mal do "fogo amigo", expresso no bordão, perde o amigo mas não perde a piada, aquele que queima indiscriminadamente as possibilidades sociais de nexo, compreensão, e engrandecimento profissional, que costumo chamar de arrivismo, carreirismo para os menos íntimos com o dicionário, ainda mais em tempos de redes sociais.

disléxico talvez eu seja, no que escrevo e no que percebo da escrita deles. mas não sou, com certeza alguém que troque a amizade pelo riso imbecil da piada fácil. aliás, tenho cá comigo que um riso de mentira, não passa de um escárnio da verdade. e não vejo nisso grande piada.

isto posto, não venha me contar lorotas, como se fosse verdade, esperando que por ser seu amigo, eu me desfaça em gargalhadas. 








Thursday, February 12, 2015

"existirmos, a que será que se destina" ?

está lá; em qualquer compêndio filosófico, do acadêmico ao empoeirado das bancas de revistas, que o bem mais precioso ao dito humano é a liberdade.

e a história, com tanta história de lutas titânicas e sanguinolentas, extermínios, idas e vindas, vitórias e derrotas, reviravoltas, impasses, tenacidades e superação, daquelas de verdade, e que por isso mesmo fazem a bíblia parecer gibi de segunda, e jesus protagonista de filmes da sessão da tarde, também pode registrar a que ponto chegou este conceito de liberdade nosso mais caro bem.

para alguns, o bem mais caro, bem... é o rolex, o bugatti, a lua de mel em dubai, e a muito pouco idílica, certamente farisaica, e nada mais tresandada a noveau riche que é a cobertura à beira mar, dita e sublinhada, na barra da tijuca.

para nós, pós-60, que nos meados dos anos 70 atingimos a universidade, ainda casa de libertações, revoluções, trepações, conhecimento e dúvidas, não deixa de ser um baque chegarmos a um novo pós-60(desta vez o geriátrico) vendo a universidade transformar-se em centro de obscurantismo e repartição precatória na concessão de diplomas para o exercício do sub-emprego com ares de conteúdo secular que fariam os cursos de correspondência ultrajados tamanho baixio de qualidade - para não falar da universidade à distância.

é de se arrancar os cabelos, de quem ainda os tenha, estar cara a cara com o conceito de liberdade almejado à exaustão onde os olhos lacrimejantes devem-se ao sacrifício físico de horas e horas de aulas de como burlar as dificuldades que são contornadas com truques e apetrechos que não traduzem conhecimento aplicado e sim esvaziamento dele, justamente para a consecução do objetivo libertário catequeticamente (digamos que quis dizer catequese caquética) expresso na aprovação para o concurso público - qualquer um, não importa suas verdadeiras aptidões desde que lhe seja dada a garantia de infelicidade profissional a custa da segurança e da boa vida de muitas horas trabalhadas a menos do que a mais folgada das atividades cá fora, e muitos salários a mais do que faz por merecer a mais árdua tarefa exercida por não concursados, como a dos professores, para completar a dessintonia dos concursos, sem deixar de sublinhar que as escolas preparatórias para tal são uma máquina de fazer dinheiro ao custo ainda mais alto de moer ideais, valores e comportamentos, com a promessa da falsa liberdade de se garantir na vida - desde quando alguma coisa é garantida na vida para além da morte, o que sabem todos, menos os que fazem concurso, claro.

obviamente, que o componente financeiro, no sistema que vivemos é um passe livre, ao menos para ilusão da liberdade. mas o capitalismo, contraditório como ninguém - a  liberdade nunca é contraditória - se por um lado exige renda para transpor os muros e enjaular-se dentro, é o mesmo sistema que lhe escraviza, e mais e mais, para que consiga os meios de pagamento deste enjaulamento tido como libertador.

e assim, resumo da ópera: a luta pelo bem mais caro ao dito humano, tal como está nos compêndios filosóficos, dos acadêmicos aos empoeirados nas bancas de revistas, nada mais é do que a luta para ficar engaiolado a salvo das intempéries da natureza da própria liberdade.

liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós, cantamos um dia enquanto lhe cortamos as asas mal o voo foi ensacado. e se um dia assim cantamos, liberdade abre as asas sobre nós está na hora de abrir a liberdade nós mesmos em nós próprios, olhando em volta, transformando o singular no interesse plural onde: antes o pouco para muitos, todos, do que o muito para poucos, quase ninguém. 

sem esta liberdade no pensamento, não será diferente hoje, não foi diferente ontem, não se vai longe. aliás, fica-se cada vez mais longe do que é ser humano, por mais que o que seja ser humano hoje seja vergonhosamente escravo de tudo, de todos, e de si próprio, a mais miserável das escravaturas.