Thursday, April 02, 2015

não é assim que a banda toca ?

clarice lispector




Sou composta por urgências: 
minhas alegrias são intensas; 
minhas tristezas, absolutas. 
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos. 
Eu não caibo no estreito, 
eu só vivo nos extremos.

Pouco não me serve, 
médio não me satisfaz,
metades nunca foram meu forte! 

Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente...
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.

Suponho que me entender 
não é uma questão de inteligência 
e sim de sentir, 
de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca.

Saturday, March 28, 2015

tamanho é documento? sim ou não, hum!
























questão antiga, sempre atual, e sempre maldosamente vinculada diretamente ao tamanho do "pirilau"(ou também da bunda hoje em dia).

mas afinal, tamanho é mesmo documento? ou seja, atestado de superioridade seja no que for?

para os habitantes de hum, croácia, a menor cidade do mundo, duas ruelas e trinta habitantes, com certeza não. pois para eles hum, é certamente uma cidade sem tamanho. e com uma história em comprimento e riquezas superior a muitas megalópoles, afinal foi fundada no séc.XI.

aquilo que é grande, ou muito grande para alguns - riqueza, poder,entre outras coisas - é nada para muitos ou de tamanho insignificante. seja porque o tem e não valoriza, seja porque não o valoriza ter. não é esta sua opção de vida: ser grande. por menor que isso possa parecer aqueles que se julgam grandes demais, nem sempre por seus feitos. 

e aquilo que é pequeno, passa a ser enorme, para outros, não muitos, é verdade, pois para muita gente, basta o concentrado da essência, que é o verdadeiro gigantesco que faz e dá sentido a existência num mundo tão desigual.

tamanho não tem documento? bom, neste momento estou numa distância descomunalmente grande de hum, com uma vontade tão maior de estar lá, que todo o meu eu desejaria ser microscópico para como um elétron só ligar-me e incrustar-me como um pulsar no prótom hum a beber uma boa biska, a aguardente local, feita com uma receita guardada a sete chaves(não bastaria uma?) 

distancias, vontades, tamanhos. a grande questão do ser humano não é esta, por mais que isso apareça como uma questão enorme e que percebida, falsamente, torna-se ainda mais difícil de entendê-la.

a grande questão do ser humano, não é ser grande ou pequeno. é o ser exato. e grande pequeno não são categorias que possam medir isto com ou sem a menor precisão. pois cada um tem o tamanho que lhe cabe, e que suporta, e que faz dele um ser enorme ou microscópico. nisto reside a sabedoria ou a engenharia das porções e proporções, cabendo-nos como humanos, a partir disto ser muito melhor do que pensamos que somos, no fundo um grande engano quando nos aumentamos sem base ou um pequeníssimo acerto em sua essência que vale mais do que a montanha de erros que vemos por ai.

para muitos o que acabo de escrever não passa de uma cagada de touro sem tamanho(bull shit) .talvez para um ou outro gotículas de sabedoria.

mas fi-lo eu no tamanho exato? hum...



Tuesday, March 24, 2015

filhotes de urano




o ato de escrever pode salvar vidas. mas também devora as de quem escreve.

Monday, March 23, 2015

o senso de justiça deixa marcas roxas ou quando o dedo na ferida é a própria ferida do dedo


a justeza do justos não é para qualquer um. eis a sensação generalizada diante das injustiças que presenciamos cotidianamente a cada segundo de nossas vidas sempre tão frouxas de tal justeza, o que sempre consideramos injustiça muito embora em muitos casos seja justa a causa.

excetuando-se os que não estão nem ai para o que quer que seja, o clamor pela justiça é um sentimento que adere ao ser humano de imediato. eis o problema. para a maioria não passa de um emplastro na epiderme. poucos a deixam ou são capazes de aguentar tal senso pele adentro, carne adentro, até o fundo do osso da púbis.

exercer o senso da justiça sobre e acima da própria, é tal e qual fechar uma porta mesmo sabendo que ela vai mordiscar, quando não esmagar o seu polegar. convenhamos: todo mundo só pensa em deixar aberta a porta, pois o senso comum, o senso da sobrevivência, o senso do farinha pouca meu pirão primeiro, quer passar longe do senso da justiça.  

mas não que o senso de justiça cause tão-somente dor. nada disso. para uns poucos, os verdadeiros justos - que nem assim escapam de serem injustos ou sofrer injustiças - o sentimento de que provém do senso de justiça é tântrico. o problema é que a nossa noção de prazer, também não é lá muito justa. e a tudo confundimos, a ponto de tão miserável confusão tornar a regra exceção e a exceção regra, o que provém sempre da tal falta de justeza para com o justo.

e medida da justiça, mesmo quando se encerra em centímetros nos parece quilômetros, anos luz, a tal ponto que estamos acostumados a deixar escancarado o buraco de agulha que seja.

eis porque se diz que à torto e a direito que vida não é justa. é porque somos frouxos. é exatamente por isto. tão somente por isto e nada mais além disto.

seria isto uma injustiça? ou muito justo? exerça lá e já o seu senso, a sua medida, e saia daqui fechando ou deixando a porta aberta. não sem antes lhe avise por uma questão de justiça, e sobre ela mesmo, que para que algumas portas se abram é necessário, por mais que doa, fechar outras.

Thursday, March 19, 2015

da inútil, dificultosa, e desastrada arte de se emperequetar






feio quando é feio, quanto mais se ajeita ou se tenta mais feio fica (chega ao ares de um desastre de proporções catastróficas).

o belo, quando belo, se é belo para que ser ajeitado? tende a esfumar-se quando não descamba pra feiura mal ajambrada.

já não basta a beleza que cabe ao belo por si só em meio a tamanha desigualdade entre o belo e a feiura? e a feiura já não basta o espectro que lhe ronda até dormindo(inútil dormir que a dor não passa).

pois bem: é preciso que alguém dissemine uma nova teoria mas acima de tudo praticada sobre o que é belo e o que é feio, principalmente nas ditas cerimônias dos momentos inesquecíveis - o feio será inesquecivelmente feio e o belo, que foi mal ajeitado, será sempre digno de notas maldosas.

não digo com isto que as pessoas, belas ou feias, não possam dar um "tapa no visual". mas tapa no visual não é bofetada na gente, gente. porque hematomas também não é nada lá muito bonito, e não há base, pancake ou duocake que lhe disfarce. 

au naturel se faz favor. que aquilo que é feio tende a passar desapercebido -   eu sei, eu sei, é duro, mas fazer o que?  e o que é belo tão somente a ser valorizado. 

na esmagadora maioria das vezes fazer bonito não é tentar ser ainda mais bonito. é não se fazer(ainda mais?)de feio.

think about, please.

Wednesday, March 18, 2015

receita de bruxinho



não é um verdadeiro bruxo aquele pode pode predizer o futuro ou coisa que o valha.
o verdadeiro bruxo é aquele que opta por construí-lo, principalmente se for a sua imagem e dessemelhança. 

Tuesday, March 17, 2015

encruado (ou seria encurralado?)


digamos que o maior problema dos precoces é que eles crescem - ou apodrecem, vide sem números de exemplos - . e ai perdem a magia ou se perdem em si próprios. crescer para os humanos é coisa bem mais cruel do que apenas a cobrança sempre viperina da manutenção da estética de outrora.

Friday, March 13, 2015

talvez porque a liberdade sendo como água, afoga os peixinhos pelo excesso; ou mata de sede, peixões, por sua falta




A liberdade de ver os outros*

Um dos escritores mais admirados de sua geração, o americano David Foster Wallace se suicidou no mês passado(outubro de 2008) aos 46 anos, enforcando-se. Este texto foi tirado de seu discurso de paraninfo para formandos do Kenyon College, há três anos.
Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

- Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

- Água? Que diabo é isso?

Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude - mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras "virtudes". Essa não é uma questão de virtude - trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica - pelo menos no meu caso - é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de "ensinar os alunos como pensar" é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. "Aprender a pensar" significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

Lembrem o velho clichê: "A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível." Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão - a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um "boa noite, volte sempre" numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim - só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação "inferno do consumidor" não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.

Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como "não venerar". Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar - seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos - é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio - e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.

No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.

O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas - e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.

O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros - no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência - consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor - daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: "Isto é água, isto é água."

É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.
* publicado na revista piaui.

Tuesday, March 10, 2015

principio de igualdade


as pessoas, várias, que me perguntam porque gosto dos diferentes - a maioria as consideram aberrações -  e deles gosto tão ou mais do que dos iguais,  digo-lhes que não há resposta mais simples: porque sou igual a eles.

Monday, March 09, 2015

como fazer esta foto se não houvesse diversidade ?


































a natureza dá as dicas. nós, pretensos seres superiores, estamos a ignorá-la buscando a altos custos eliminar o multi-facetado em nome de um unidade/superioridade religiosa, sexual, politica, e ou "racial" *, que através de costumes impostos pela força, pelo medo, pela ignorância, pelo falso credo, querem o poder de vida ou morte para decidir o que podemos ou não podemos. e que todas as coisas devem ser uma ou outra, jamais várias, ou seguir um, apesar de eles mesmos saberem que coisa nenhuma é igual a outra por mais que se queiram parecer em todas as coisas que vemos e não vemos, sabemos e não sabemos, e até nas coisas que não são coisas porque coisas não são assim gêneros de se nomear, classificar, ter ou deter.

isto, e tão-somente isto, nos fará extintos em muito pouco tempo. a natureza também deu esta dica, por várias e várias vezes. e cá estamos nós a ignorá-la outra vez, fazendo destes tempos que se dizem modernos o tempo mais obscuro, desgraçado e trágico da história da "humanidade", porque tendo este conhecimento não o usamos para proteger a diversidade e sim para eliminá-la.

é por isso que é mais fácil fazer uma foto assim com os animais do que com seres humanos, ditos iguais em essência mas que na sua particularidade são todos diferentes entre si e por isso mesmo este é o único traço de igualdade em suas diversidades que ela e tão somente ela nos faria únicos.

* como demonstram estudos hoje em dia, raça é um conceito equivocado.





Wednesday, March 04, 2015

nós que amávamos tanto a revolução









o que se pode esperar de um pais onde o grande ideal da juventude é ser aprovado num concurso seja lá para o que for. 


o fim de curso ?



Monday, March 02, 2015

trueetanto

e o prêmio nobel de medicina vai para o show business pela modificação da anatomia humana ao conseguir colocar a bunda no lugar da garganta.

Saturday, February 28, 2015

não é tão somente uma questão de escolhas

o senso comum, espraiado na literatura dos lugares comuns da auto-ajuda, diz alguma coisa mais ou menos assim: a vida é o que você faz das opções que você constrói ou que se lhe aparecem - isso lhes tiraria o valor ? -  porém, o acaso e a necessidade, quando você está realmente "fudido", quase nunca se dão as mãos, a não ser em templos evangélicos, que é para você ficar com os bolsos descobertos.

ledo engano se me disser que o cotidiano hoje não apresenta muitas opções de você ser quem realmente é, ou o que deseja, em meio ao irônico mundo multifacetado de possibilidades tantas de símbolos e imagens que na maioria das vezes representa mais o vazio da vida atual do que o enchido de linguiça que se tornou a vida para a maioria das gentes.

sempre há opção, mesmo quando não há opção alguma, se o ab ovo não feneceu, o que não deixa de ser uma opção partida ao meio. o não perder a consciência dos fatos é sempre uma opção a mais nestes casos em que a manutenção da personalidade insurge-se como um obstáculo ao bem suceder-se na vida.

cá do meu buraco tenho um livreto de inúteis anotações fúteis onde rabisquei o seguinte: entre o medíocre o e o ruim, eu sempre fico com o ruim. esse ainda pode ter jeito. creio ser um pensamento inevitável para quem também acredita que o bom é inimigo do ótimo. e persegue o ótimo mesmo que isso não seja bom quando a perseguição se dá por interesses outros que não a necessidade de intensidades mais extensas do que os zeros a direita da sua conta bancária.

se você não precisa do ótimo para viver, ótimo. mas não pense que fica mais fácil a sua opção. a simplicidade das escolhas é tão difícil como enxergar na simplicidade o ótimo que você perseguiu como um cão ao seu rabo deixando de enxergar o "osso" que estava a volta tão perto.

nestes casos dificilmente há volta ou voltas. a não ser volta e meia para o desaparecer de vez como pessoa. e não venha me dizer que foi por falta de opção.

Thursday, February 26, 2015

faro fino ou a ironia das coleiras



animais revelam muito mais sobre a personalidade do "dono" do que o dono sobre a personalidade do animal. 

sim, creio que sim. mas é preciso cuidado com as generalizações; e ter faro para ter discernimento sobre os estereótipos do bem, do bom, e do mau, para não falar do feio e do bonito.

não é fácil. aliás fica pra lá de confuso, por exemplo, no caso de hitler, e de seu conhecido amor pelos cães - que ia além dos pastores alemães. sem contar que o regime nazista, foi o primeiro a reconhecer os direitos dos animais (há controvérsia em relação a inglaterra) paradoxalmente, no mesmo ano em que abriu darau, publicava-se: 

«No novo Reich nunca mais se permitirá a crueldade com os animais». Em 1934 proibiu a caça. Em 1937 regulou o transporte de animais por estrada e, em 1938, o de comboio, para que os animais fossem transportados em condições decentes" 

mas na maioria dos casos - incluindo os rappers - é " tiro e queda". muito embora certos donos definam com crueldades a personalidade de um cão, eles acabam por ser revelados - em suas grandezas e pequenezas - pelos sinais emitidos por seus animais, quando não próprios. 

mas é preciso ter faro para tal discernimento. e faro fino é com os cães, e não com os humanos, supostamente, apesar da nossa indissociável animalidade nunca usada para o bem, sequer da própria espécie.

Friday, February 20, 2015

dissabores




























todos temos. quem não. e quem não, por certo os há de ter, e muitos. falo de cátedra. porém, por mais fútil que possa parecer, entre os muitos que tive, e olhe que não foram poucos, poucos se comparam ao de sentir que o gostinho do toddy mudou. ali compreendi que não haveria mais criança em mim e sabe-se lá que adulto sensaboria viria ser.

dizem às más línguas que as pesquisas determinaram um novo sabor. mas como? se ninguém me perguntou nada. talvez porque se sim, ouviriam um sonoro não. pra que mudar um gosto de vida assim, num lamber de beiços, só porque algum engravatado(à época) teve a infeliz ideia de propor a mudança, por motivos de que somente alguém que teve uma mãe que por certo não lhe deu toddy haveria de achar? que saberia este sujeito de toddy? e do que aquilo significava para nós? nada. não sabia nada. e foi um nada que nos deixou com o gosto de nada na boca que jamais voltaria ser do toddy que tanto amávamos.

ah! você acha então que eu estou exagerando? que não passo de um adulto sentimental que fica chorando pelo toddy derramado? então vai conversar com a turma que tomava ovomaltine e de súbito se viu sem o sabor suíço que era "puro malte". mas não diga que é um cara ou uma cara da pesquisa. o risco de ficar sem sentir sabor é imenso. brutal? bom, foi o que fizeram com a gente. sem dó nem piedade. deram um nó na nossa garganta, a tal ponto, que falou em achocolatado, eu engulo em seco. e nada mais que que se compare ou pareça com toddy desce. 

o certo é que, alguns dissabores a gente esquece. outros, morremos com eles atravessados na garganta.

p.s. felizes foram os putos(as crianças) de portugal. lá o sabor do toddy que valia a pena resistiu até os anos 90. quando lá fui, e lá morei, antes do vinho, e de qualquer outra coisa, bebi todo o toddy que podia até não poder mais. uma overdose de toddy que durou anos e anos. até mesmo quando voltei ao brasil carregado de toddy nem um pouco preocupado em ser pego pela fiscalização. o problema é que fui. e na minha cara vi um sujeito da tal fiscalização pegando a lata com olhos marejados e dizendo, anda passa, vai em frente, como se não houvessem dezenas dela nas minhas malas. passei. e fui-me embora. não sem antes, separar algumas latas, e com um bilhete deixá-las para serem entregues ao tal funcionário. creio que assim não haveria risco de alguém dizer que subornei a fiscalização. afinal, passara e nada foi combinado. no bilhete estava escrito: - nestas não há coleção de índios. tinha certeza absoluta que ele saberia do que estava tratando. e assim, mais um sabor juntar-se ia ao meu dissabor que por alguns anos foi dissipado em goles e goles intermináveis do "sabor que alimenta" meus bons gostos até hoje, apesar do enorme dissabor do acontecido. tal como os índios, eu e o tal cara da fiscalização, fomos derrotados pela ferocidade da sede de lucros do homem branco cujo sabor que sacia por certo não é do toddy de antigamente.




Thursday, February 19, 2015

lei da compensação ou quase não dá para ser outsider

mas faça zag e se segure. não fique no zig-zag que ai é que você vai ser tosquiado mesmo.
já que o mundo não anda exatamente como eu andava a espera, eu também reservo-me ao direito de não andar ou ser como todo mundo esperava que eu andasse ou fosse, a começar da indefectível família, tradição e sociedade.

o que mas me emputece, é que eu não encho o saco de todo o mundo, o tempo todo, por tudo e por nada, a começar de ficar buzinando no transito nem bem o sinal abriu, ou nas filas, a gritar o próximo quando o próximo já o deixou de ser.

eu, no máximo dou umas incertas aqui e acolá, que nem sequer fazem cócegas dada a minha insignificância no preterido equilíbrio da desdomesticação ou desmistificação que por si só não basta  - dada a dominação exacerbada a letargia da euforia - ainda mais nestes tempos de carnaval. sou low profile. ninguém mexe comigo e eu passo desapercebido, que é a minha mais nova descoberta de modalidade de felicidade que já anda perigando ser impossível.

bolas! o mundo inteiro parece que se acha no direito de vir me encher o saco dizendo como eu devo andar, devo ser, devo comer, devo foder, devo cagar, devo até não mais poder. até inventaram a figura do treinador pessoal do como fazer para seus haveres e deveres serem otimizados, sabedor desde já, para sua informação, que você vai ficar esmerado no dever adoidado e um pária na toga dos haveres. é a lógica da suruba do comportamento social, que incita os amestrados ao caminho do sucesso assentados nas diretrizes de querer foder sempre o que está na frente, esquecendo o que lhe vai no rabo, com força e sofreguidão não é sorvete. é fumo mesmo. 

então fica o recado, para os da frente e os detrás: não estou interessado. foda-se o mundo! e o mundo todo! mas não todo mundo, porque deve andar por ai uns alguns que talvez ainda sejam capazes de salvar o mundo dele mesmo. mas, quiçá, não o mundo todo. por que ai começa tudo de novo.

Saturday, February 14, 2015

a verdade é que, provavelmente, não sei contar piadas


meus inimigos, muitos, mas nem tanto como gostariam, dizem, alguns, que não poderiam ter melhor amigo. provavelmente pelo trato que tenho com a verdade: sempre em primeiro lugar. e por ser sincero em minhas lutas e postura nas frentes de batalha;

já os amigos, poucos, a maioria, desejam-me aos seus piores inimigos. provavelmente porque não lhes poupo da verdade ainda que lhes seja desfavorável -  na maioria das vezes é - expressa na sinceridade, para eles sempre fora de lugar, dos comentários sobre seus mal-feitos e também sobre seus parcos acertos, sendo o parco a outra face dos meus desacertos, segundo eles, que não foram poucas as vezes que me tiveram como "muy amigo".

dizem de caras assim como eu, que são impingidos ou sofrem do mal do "fogo amigo", expresso no bordão, perde o amigo mas não perde a piada, aquele que queima indiscriminadamente as possibilidades sociais de nexo, compreensão, e engrandecimento profissional, que costumo chamar de arrivismo, carreirismo para os menos íntimos com o dicionário, ainda mais em tempos de redes sociais.

disléxico talvez eu seja, no que escrevo e no que percebo da escrita deles. mas não sou, com certeza alguém que troque a amizade pelo riso imbecil da piada fácil. aliás, tenho cá comigo que um riso de mentira, não passa de um escárnio da verdade. e não vejo nisso grande piada.

isto posto, não venha me contar lorotas, como se fosse verdade, esperando que por ser seu amigo, eu me desfaça em gargalhadas. 








Thursday, February 12, 2015

"existirmos, a que será que se destina" ?

está lá; em qualquer compêndio filosófico, do acadêmico ao empoeirado das bancas de revistas, que o bem mais precioso ao dito humano é a liberdade.

e a história, com tanta história de lutas titânicas e sanguinolentas, extermínios, idas e vindas, vitórias e derrotas, reviravoltas, impasses, tenacidades e superação, daquelas de verdade, e que por isso mesmo fazem a bíblia parecer gibi de segunda, e jesus protagonista de filmes da sessão da tarde, também pode registrar a que ponto chegou este conceito de liberdade nosso mais caro bem.

para alguns, o bem mais caro, bem... é o rolex, o bugatti, a lua de mel em dubai, e a muito pouco idílica, certamente farisaica, e nada mais tresandada a noveau riche que é a cobertura à beira mar, dita e sublinhada, na barra da tijuca.

para nós, pós-60, que nos meados dos anos 70 atingimos a universidade, ainda casa de libertações, revoluções, trepações, conhecimento e dúvidas, não deixa de ser um baque chegarmos a um novo pós-60(desta vez o geriátrico) vendo a universidade transformar-se em centro de obscurantismo e repartição precatória na concessão de diplomas para o exercício do sub-emprego com ares de conteúdo secular que fariam os cursos de correspondência ultrajados tamanho baixio de qualidade - para não falar da universidade à distância.

é de se arrancar os cabelos, de quem ainda os tenha, estar cara a cara com o conceito de liberdade almejado à exaustão onde os olhos lacrimejantes devem-se ao sacrifício físico de horas e horas de aulas de como burlar as dificuldades que são contornadas com truques e apetrechos que não traduzem conhecimento aplicado e sim esvaziamento dele, justamente para a consecução do objetivo libertário catequeticamente (digamos que quis dizer catequese caquética) expresso na aprovação para o concurso público - qualquer um, não importa suas verdadeiras aptidões desde que lhe seja dada a garantia de infelicidade profissional a custa da segurança e da boa vida de muitas horas trabalhadas a menos do que a mais folgada das atividades cá fora, e muitos salários a mais do que faz por merecer a mais árdua tarefa exercida por não concursados, como a dos professores, para completar a dessintonia dos concursos, sem deixar de sublinhar que as escolas preparatórias para tal são uma máquina de fazer dinheiro ao custo ainda mais alto de moer ideais, valores e comportamentos, com a promessa da falsa liberdade de se garantir na vida - desde quando alguma coisa é garantida na vida para além da morte, o que sabem todos, menos os que fazem concurso, claro.

obviamente, que o componente financeiro, no sistema que vivemos é um passe livre, ao menos para ilusão da liberdade. mas o capitalismo, contraditório como ninguém - a  liberdade nunca é contraditória - se por um lado exige renda para transpor os muros e enjaular-se dentro, é o mesmo sistema que lhe escraviza, e mais e mais, para que consiga os meios de pagamento deste enjaulamento tido como libertador.

e assim, resumo da ópera: a luta pelo bem mais caro ao dito humano, tal como está nos compêndios filosóficos, dos acadêmicos aos empoeirados nas bancas de revistas, nada mais é do que a luta para ficar engaiolado a salvo das intempéries da natureza da própria liberdade.

liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós, cantamos um dia enquanto lhe cortamos as asas mal o voo foi ensacado. e se um dia assim cantamos, liberdade abre as asas sobre nós está na hora de abrir a liberdade nós mesmos em nós próprios, olhando em volta, transformando o singular no interesse plural onde: antes o pouco para muitos, todos, do que o muito para poucos, quase ninguém. 

sem esta liberdade no pensamento, não será diferente hoje, não foi diferente ontem, não se vai longe. aliás, fica-se cada vez mais longe do que é ser humano, por mais que o que seja ser humano hoje seja vergonhosamente escravo de tudo, de todos, e de si próprio, a mais miserável das escravaturas. 

Friday, February 06, 2015

escola josé pedro varela(8-2) - estácio, rio de janeiro. turma 10 (d.ondina) em 10/05/62
























lembro. sim me lembro de cada um deles como se fosse hoje, agorinha mesmo. não importa se este hoje tem mais de 50 anos. e olhe que nem sou desses que ficam repassando as lembranças naquele cerimonial de refazer percursos imemoriais que acabam descambando para o álbum de família. desse eu escapei.

mas catando livros a procura de amigos, e quero que saiba desde já que nem todos os livros são seus amigos, mas o que são, são mesmo - encontrei a foto. incrustada numa pseudo encadernação da época, a se desmanchar como imagino estejamos todos nós que estamos nas fotos, decerto uns tantos já passados para outro estado de clique.

só sei que de súbito vi que gostava dos que lembro e gosto com carinho dos que não. até dos invisíveis; que nunca me passaram desapercebidos. recordo seus estratagemas para ultrapassar o tempo que parecia, para eles, menos divertido do que para nós, tidas como crianças "normais" se é que isto é possível. no entanto, admito, tive certa dificuldade em me reconhecer - na foto e no espírito. mas lá estou: orelhas de abano, olhar focado, e um certo ar de quem já sabia que o que tempo pela frente não seria assim-assim , digamos, um recreio de refrigerantes. 

mas acima de tudo, ah! bons tempos. tempos em que ninguém da turma tirava zero em redação(na época chamava-se composição). e por falar em composição, vem-me a percepção agora, é o que tem de sobra nesta foto, cujo vértice é cabeça de alguém na quina onde o vento dobra, e que me induz a ver sob a janela, o que nunca vi dantes: vasos de plantas, que nem sei se esquecidas ou não, mas que por certo, naquele momento, elas que viveriam menos do que nós, estavam tão certas do seu lugar como nenhum de nós mesmo hoje sabe se está agora.

Thursday, January 29, 2015

de relance

ruas cheias, avenidas em pleno vuco-vuco. ou pode ser naquela rua quase beco ou beco quase rua onde se esconde aos olhos dos amadores um dos melhores pé-sujos(tascas) da cidade. 

acontece tanto aqui como acolá. súbito você a vê - ou o vê - e ainda mais rápido do que você viu - ou julga ter visto, acontece na maioria das vezes - evapora-se, escafedeu-se, sumiu.

fazem 20,30,40 anos, um século é o que parece, que você não a via - ou o via - por vezes até julgou, pensou ou desejou ter esquecido. e não mais que de repente tudo volta num olhar de soslaio que confunde. cortou ou não os cabelos? e as crianças ao lado, seus filhos? há quem se espante e diga minha nossa como envelheceu! - queria o quê? são 20,30 ou 40 anos -

paga-se um preço por enxergar de mais - ou de menos - na vida. mas certas visões tenho dúvidas cruéis se valem mesmo a pena. para que enxergar o que não está mais? o que não volta, até mesmo enxergar o que não desaparece? visto ou não visto?

há casos em que a cegueira faz-se necessária. menos para quem ainda assim enxerga de olhos fechados. neste caso, como nos outros, talvez, melhor seria abrir bem os olhos e não deixá-los fechados à vida, espremidos naquela fímbria de retina, tempo, ou geografia, onde o sorriso que nos sorriu, e a lágrima que derramamos, não irão se encontrar tamanha a rapidez do ver ante o tempo em que não tínhamos visto que fecha a janela com batida seca, que dessintoniza a batida de qualquer coração e o sopro de qualquer memória. mas que teimosamente ainda corremos tentando abrir o que nos dará de paisagem o vazio.

sonhar de olhos abertos é uma expressão traiçoeira quando se sonha e se vê o que não é sonho mas que é como se fosse. não me parece alento nunca mais dormir de verdade para manter acordado aquilo que não desperta senão a lembrança de que insistir em relembrar do sonho nos torna apenas sabedores que a noite mal começou e que o dia não trará nova lembranças uma vez que estará ocupado por esta que por conta de não mais que dois segundos nos ficou pregado na testa de saudades rugas.

o que foi - ou quem foi - mesmo que você viu? mesmo vivo era uma sombra, um pedaço de brilho deslocado no passeio. antes olhasse para o outro lado. porque todas as coisas - e os amores - sempre tem um outro lado. escuro, claro, escroto, sábio, leve, otário, mas um outro, que pode ser deixado de lado sem angústias, remorsos ou ressentimentos.

e nunca mais aquele do outro lado da rua, numa esquina, num susto que você não pega mais, aparecerá nas suas falsas dúvidas de verdade.

Wednesday, January 28, 2015

dias de transformação

dias difíceis de acordar e dormir. onde o sono e vida parecem ser beco sem saída.

mas estes são os melhores dias. por que neles se escondem dias de transformação, o que acontece sem que você perceba ou o faça de susto. 

eis que psicólogas se tornam cantoras, ovos se tornam cobras, larvas borboletas, homens pó e pó estrelas e as estrelas em cantos do universo que de tanto contar os homens esquecerão um dia de cantar.

nada do que se apaga foi aceso só por um dia.

e a fumaça do que queima não é o desejo que se esfumaça. é a via láctea que se desdobra universo afora.

agora cuidado para não engasgar na tragada. é a patetada mais comum da transformação.

Friday, January 23, 2015

cosmogonia de boteco ou a teoria do nada

é da natureza humana, privilegiada ou não, preocupar-se com o que não devia. 

ora lá se me dá nos cornos estar interessado sobre o de onde viemos? do porque de aqui estarmos? e do raio que nos parta do para onde vamos ?

nada somos antes, nada seremos depois. e isto não me preocupa nem um pouquinho. 

agora não ser nada durante, ai eu diria que realmente é foda; desperdiçada.


Friday, January 16, 2015

no problems

o mundo anda cheio de pessoas que acham que o resto da humanidade nasceu exclusivamente para resolver os seus problemas.
resolvessem eles próprios os problemas deles, e já resolveriam um dos maiores, se não o maior, problema da humanidade. 

Wednesday, January 14, 2015

demasiadamente humano

na hora de tanto açúcar, diabetes.

na hora de tanto sal, hipertensão - sim eu sei que você gostaria que fosse hiper-tesão. mais sai dessa que na busca disso tudo tudo desandou ainda mais à beça.

enfim, na hora de tanto tudo, tanto nada.

e assim, meu caro, a distopia se torna um lugar comum nesse mundo de gente cada vez mais fora de lugar. mas isso caetano já disse e ninguém ouviu não é mesmo ?

então, "não enche".


Monday, January 12, 2015

auto conhecimento (ou trombada em cheio)

a vida, sequer um sonho, não passa de ledo engano. então, senão a si, tente enganar* os outros da melhor maneira possível. reside nisto uma certa plausibilidade da tal vã, e ainda mais ilusória, felicidade.

*enganar, caro cabrão, não significa armar-se em espertalhão para se dar bem em cima dos outros. significa em vez de genuflexão ante o inevitável ter, nem que seja mísera, certa altivez diante do consigo próprio. 

Monday, December 08, 2014

sim, houve uma vez um verão - ou foram chuvas de ?

lembranças do velho(hoje se diz vintage) e bom vox country western, cujo corpo foi devorado por cupins anos mais tarde, depois de tantas e boas, pela estupidez do desvelo de proteção de outras caixas por quem trouxe tábuas que seriam base -e foram - da contaminação por sua proximidade como calço protetor de colunas de som. do carcomido, guardo o braço; nem que seja para martelar a(minha) cabeça, e as tarraxas que continuam girando sem cordas, esfoliando aquela sensação de quem sabe que nunca mais me afinarão.
e digo mais; que da canção do tempo só o tempo sabe a letra. e tome um sol menor.

Wednesday, November 19, 2014

pé atrás

                  não confio em quem usa "doirado" nem mesmo que seja "d´oiro"

Thursday, November 13, 2014

a minha condição ou vai ser feliz assim na casa do caralho!

ao contrário de tanta gente que consegue ser infeliz até na sua felicidade, eu me safo porque de fato sou feliz até na infelicidade que me fez sua parte.
ao contrário da canção popular, me viro melhor quando tá mais para ruim do que pra bom; e olhe que de certa maneira eu sou até um comodista do caralho.

Tuesday, November 11, 2014

Sunday, November 09, 2014

pé de página


























sim, os livros são uma janela para o mundo. mesmo quando se dá as costas a ele, ao mundo, e nalguns casos, até aos próprios livros depois de lidos ao desprezo. creio que há livros que não se esquece jamais, pois estamos dentro dele ou ele dentro de nós, ainda que esqueçamos quem os escreveu e até os personagens ou o conteúdo não ficcional. mas para alguns as janelas do mundo permanecerão fechadas para sempre. principalmente para os leitores de um livro só - a bíblia principalmente -  ou o capital que seja, ou o decameron ou a ilíada, ou ulysses ou o arco-iris da gravidade.  

e atenção: por mais bonita que seja a arrumação da biblioteca, livros são para serem desarrumados. só assim desarrumam o pensamento que se quer sempre em pezinhos de barro. sim, ao contrário de quem pensa, muito ou pouco, muito pelo contrário, livros são "para confundir e não para explicar". pois o mundo explicadinho, convenhamos está se transformando nesta merda que vivemos. portanto, leia, desarrume, desaprenda e faça de novo, e de novo, até não precisar do rascunho dos outros no de dentro para fora ou no de fora para dentro dos livros.

Wednesday, October 29, 2014

auto-didata


vivo o tempo - ou para os pobres de espírito - a idade onde, mais do que sinto, tenho a certeza e uma necessidade visceral de aprender mais e mais.

mas não quero que me ensinem absolutamente nada mais do que eu não já não saiba, e mesmo aquilo que não sei do modo que outros julgam saber.

estou farto dos modelos de aprendizado oficiais, dos quejandos comportamentais, dos espiritualistas de balcão, dos sensitivos de tudo, da educação dos farrapos, dos dito cujos bons modos, do politicamente correto, dos ai-que-não-me-toquem,dos consultores e dos personal dos despersonalizados, dos títulos e das graduações compradas, sejam a prestações ou a punhetas mal-batidas.

para os "mba", o recadinho ao pé de página: vão as putas e os putos que os pariram! gatos de rua tem mais saber universal do que qualquer acadêmico pós-graduado seja no que for.

olho no homem, olho no prato. esta lição já vale por todas que jamais decifraram as verdadeiras razões dos ronronados.